

Pier Paolo Pasolini
À fantasia aqui valor fenece;
Mas a vontade minha a idéias belas,
Qual roda, que ao motor pronta obedece,
Volvia o Amor, que move sol e estrelas.
Dante Alighieri, A Divina Comédia – Paraíso, canto XXXII
A Francesco Luti pela literatura e luta
Do asceticismo de Accattone para a fisicidade esplendorosa e decadente de Saló, o cinema de Pasolini parece completar uma via inversa àquela que Vittore Branca particulariza em Decameron, onde, na distância que há entre as proezas libertinas de Ser Ciappelletto à trágica santidade de Griselda, o pesquisador reconhece, em contra-tendência com parte da crítica, uma visão do mundo e uma poética de Boccaccio ainda que aos poucos unidas ao asceticismo medieval.
A primeira fase do cinema pasoliniano (o ciclo nacional-popular) apresenta-se como um estudo à época dos humildes e emergentes, centralizando–se sobre uma representação dos bairros subproletariados que Pasolini - com espírito laico hagiográfico e gramsciano - tende a sacralizar, beneficiando-se ainda da contribuição musical excelsa de Johann Sebastian Bach. Este ciclo abre-se com a paixão de Accattone e se fecha com aquela do O Evangelho Segundo São Mateus. Muitos são os temas e os motivos que unem as duas obras e seus protagonistas: cada isomorfismo vem com efeito claríssimo da comum utilização de algumas bachianas, e particularíssimamente o Coro final da “Matthäus Passion”.
A opção de se servir de Johann S. Bach como pilar sonoro dos seus primeiros filmes responde a um preciso gosto estético do autor: Bach era o musicista predileto de Pier Paolo Pasolini - tomou conhecimento da obra bachiana pela amiga Pina Kalz, quando ela refugiava-se em Casarsa della Delizia, nos anos da Segunda Guerra Mundial. Nos seus encontros habituais com Pina, tinham como trilha sonora as Sonatas e Partitas para violino. Pasolini permanece resplandecente, e a essas bachianas dedica alguns artigos: passagens autobiográficas em forma de diário, passagens dos seus primeiros romances e um ensaio da juventude.

cena de Accattone
Se no Evangelho Segundo São Mateus o uso de “Matthäus Passion” parece-nos lógico, e também quase prevista a chamada para um precedente baseado no mesmo assunto; em Accattone assume, porém, as cortinas de uma contaminação (corrupção) estilística pelo impacto fortemente alheio. Entretanto, é a própria música que promove Accattone, pobre cristo, glutão bairrista, da pobreza na qual ele e o seu povo encontravam-se confinados; é a música que o mostra ao mundo, com sua coragem e a sua covardia, elevando-o aos céus com a morte, ao pó que sempre viveu. Os títulos principais – onde já encontramos o Coro final de “Matthäus Passion”, o próprio e verdadeiro leitmotiv do filme fecham-se com alguns hendecassílabos do Purgatório dantesco:
De Deus anjo tomando-me, o do inferno
— “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.
Dele me usurpas o princípio eterno
Por uma tênue lágrima fingida.
(A Divina Comédia – Purgatório, V-104-107)
Buonconte de Montefeltro1, arrependeu-se morrendo, é salvo pela eterna desgraça. É, então, o próprio Paolo Pasolini que antecipa, com esta citação, o fechamento do filme, concedendo um remate do epílogo: um tipo de apoteose do miserável, realizada ainda com a ajuda da sublime música de Bach. Como Buonconte, Accattone se salva: não que ele tenha conquistado a salvação eterna, mas reconquista uma justa dignidade humana que até aquele momento a vida tinha-o negado. A música sublinha tudo disto, isto é, dando-lhe densidade e cor às imagens e às emoções.