

Accattone: música como traço transcendental
No cinema pasoliniano, em alguns casos (como na seqüência assim descrita), a música (em particular a de Bach) é um dos traços para a singularização de um estilo transcendental, assim como teorizou Paul Schrader. Por tentar representar o Transcendental, e as suas manifestações, o cinema clássico (principalmente o holliwoodiano) sempre se serviu de estratégias imanentes, efeitos especiais e espetaculares. Autores como Yasajiro Ozu, Robert Bresson, Carl Dreyer puseram porém em ação uma de-espetaculosidade, persuasivos que o não- dizer, o não-mostrar são mais válidos. Para Pier Paolo Pasolini sempre em uma ótica de contaminação dos estilos, a vida cotidiana pobre e miserável é composta de pequenos acontecimentos ao modo sacro às suas formas sacras, de hierofanias. Eis que a “Matthaüs Passion” em Accattone assume ainda este significado: o sacro e sublime entrando em contato direto com o simples, o profano e o vulgar. O coro é observação de uma hierofania, uma manifestação do destino feral de Accattone, mas ainda, o prelúdio do seu resgate; e intervém para comentar seqüências que assumem então significado diverso - pretende-se numa ótica finalística. Portanto, a música antecipa isso que ainda não vem mostrado ou dito nas imagens.
Pasolini concebeu o filme como um espetáculo multimídia completo, que representa a realidade através de uma síntese de meios e formas expressivas mutuadas das outras artes. Como está escrito, ele é “um homem de orquestra, um Rei Midas que dominava os materiais expressivos mais heterogêneos, transformando-os ao mínimo contato”.
O confronto com a mais alta tradição, a utilização da música de Bach neste caso, assume então um significado muito particular: entra de fato em jogo a questão do uso de materiais musicais preexistentes. O clássico e o inoxidável Bach entra em contato com o contemporâneo, em um mecanismo de permuta recíproca, de osmose. A sua música, por um lado, dá realce ao filme, torna-o seguramente mais interessante, rico de significado, mais maravilhoso. Por outro lado, adaptado a uma situação diversa dos contextos tradicionais, traz nova linfa vital, demonstrando perfeito ainda que em ambientes dificilmente imagináveis.
Por um pressuposto conceitual, com maior profundidade elucidativa de análise, principiado por Hans Werner Henze que escreve:
“Esta música nos perdoa, nós pobres diabos, e promete-nos uma nova felicidade, chora para nós com toda a alma: Wir setzen uns mit Tränen nieder, com ela, por ela. Aquele que compreendeu beníssimo esse nexo, foi Pier Paolo Pasolini que em meados dos anos 60, no seu filme Accattone [o qual tratava da vida e do sofrimento do subproletariado romano, desocupados e criminosos] recorre à ajuda da música das Paixões bachianas. Movimentando do seu ponto estético e político, teve o propósito de promover mais uma vez a mensagem protocristão comunista do amor ao próximo e da solidariedade, de demonstrar quanto à música de Johann Sebastian Bach estava apta a levar a palavra em um contexto real de segregação, e quanto é irrelevante o perigo de equívocos sobre esta música ou do seu mau uso. Esta música está, como seu autor, da parte do povo, dos humildes e dos ofendido, e ainda fala a sua língua. Todos os mártires do mundo reconhecem-se e reencontram-se neste pedido de socorro e lamentações”.
Andréa Santos
Tradutora, professora de Literatura, pesquisadora de literatura americana e escritores "afro-americanos". Publicou entre outros, Imagens Femininas Negras em Paraíso , de Toni Morrison.(Ed. Fasa, 2000).
avellaneda_santome@hotmail.com
Nota:
[1] Buonconte de Montefeltro é um dos personagens do Purgatório dantesco, que perdeu a vida na batalha de Campaldino.