

Michel Melamed em cena
1972, Brasil. Nos covis da ditadura um instrumento de tortura foi inventado pelos militares para arrancar confissões dos supostos subversivos. Esta invenção brasileira de tortura por meio de descargas elétricas se espalhou pelo mundo e foi denominada Pau de arara. Através dela tudo era “confessável”.
2004, Brasil. No teatro Candido Mendes em Ipanema (RJ) um jovem atado a fios elétricos leva choques a cada provocação poética que destila aos espectadores. Provocação e choque. Em todos os sentidos. Quanto mais ele poetiza mais choca e é chocado. A lâmpada acende atrás dele. Em todos os sentidos também. As descargas elétricas são conseqüentes da captação de todo e qualquer som emitido pela platéia no sistema tecnológico ironicamente denominado Pau de arara. Reações estas provenientes das confissões do subversivo.
Regurgitofagia apareceu timidamente em uma casa pequena, mas muito bem freqüentada no circuito de artes do Rio de Janeiro. O espaço Sergio Porto no Humaitá. A freqüência do público foi aumentando, o que fez a temporada ser estendida diversas vezes. De lá em diante muitas pessoas levaram os choques críticos de Michel Melamed, autor do monólogo, que provoca desde o título:

Interessante a relação criada entre eu –entrevistador – e Michel –entrevistado – Pois, não levei gravador, e imaginei de anotar algumas coisas. Porém, após conversar sobre isso chegamos a uma conclusão. Não escreveria nada. Faríamos uma entrevista diferente das que captam o autor (engessado no sentido do “ter”). Nosso processo de troca seria então, mais solto. Um bate papo mesmo (fluido no sentido de “ser”). Michel não merecia uma entrevista pró-forma.
Reflexão é o mote principal da peça. Crítica do comum enlatado que promove repensar nossa condição de consumidores de cultura. Os choques ao vivo, a poesia, a ausência de cenário, tudo isso coaduna para uma questão que envolve uma fuga do espaço comum criativo. Mas se perguntado quanto ao caráter considerado experimental do espetáculo, Melamed é incisivo: “todo teatro é experimental”. Afirmando assim que o verdadeiro teatro deve ser inovador na estética. E não pró-forma. O teatro deve negar o mesmo, buscando levantar questões, criticando e aguçando o olhar para o que andamos devorando e para o que comemos sem perceber. Isso sem falar do que nos é empurrado garganta abaixo. “Eu quero destruir verdades”. Disse ele sentado na mesa de um bar em Ipanema. Multimídia? Também não. Não neste sentido que brota por aí. Ele usa vários meios para expor seu pensamento. Mas não que os meios sejam, por si a mensagem. Melamed é ator, apresentador de tv, poeta escritor e disse estar interessado em compor também. E isso não é muito. Isso é possível para alguém que, na contra-mão da cultura da técnica, sabe usá-la como extensão de suas questões reflexivas. Como ele afirmou: “Se é para colocar um nome, prefiro o de artista. Mas escritor talvez, já que tudo nasce em uma folha de papel”.

Quem choca quem?
Michel cria um jogo de espelhos que gera a seguinte questão: quem choca quem? O artista leva descargas elétricas. Sim, teatralmente isso fica claro pelos espasmos que intercedem com o texto e a lâmpada que acende. Mas, de acordo com ele, as pessoas não vão ao teatro pelo simples prazer sádico de ver alguém recebendo choques. Os estímulos críticos do artista chocam as pessoas. E esta confrontação se dá muitas vezes de forma bem humorada. Mas isso não é sinônimo de alienação: “O espetáculo é crítico. Todo humor é fruto de críticas muito cruéis”. Vide Charles Chaplin.

As palavras emergem do fundo negro do teatro e do figurino. A roupa do artista é instigante; rasgada transposta; gola no braço e cabeça que sai da manga. Ele, assim, se mostra como um ser além. Vários bolsos que escondem objetos usados na cena. A roupa me aludiu a um prisioneiro que é incessantemente torturado pelo que fala, mas não pára de falar. Fala e choque, fala e choque. Quanto mais apanha mais provoca. Até que a luz da cidade acabe, ou sua voz seja ouvida.
A verba para o espetáculo foi conquistada junto a Rio arte no segmento 'Arte e Tecnologia' através do conceito criativo da peça. Mas Regurgitofagia completa-se com o livro de mesmo nome que traz a poética verbalizada na peça. Cabe aqui dizer que a edição foi bancada na raça pelo artista. Junto do livro, um CD com seis textos recitados. Assistam à peça que estará por outros estados do país logo, logo. Ponto. Porém, como escreve no próprio texto da peça, para Michel dizer ponto é pouco:

Ficha Técnica
Texto e atuação: Michel Melamed
Direção: Alessandra Colasanti, Marco Abujamra e Michel Melamed
Desenvolvimento da interface: Alexandre Boratto/ AVLtech
Figurino: Luiza Marcier
Direção musical: Lucas Marcier e Rodrigo Marçal
Projeto gráfico: Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia
Iluminação: Adriana Ortiz
Fotos: Débora 70
Assessoria de Imprensa: Vanessa Cardoso
Produção: Bianca De Felippes e Michel Melamed
Michel Melamed é apresentador e roteirista dos programas "Comentário geral" (TVE), "Babilônia" (TVE) e "Armazém 41 - Lembranças do Brasil" (GNT); ator do espetáculo teatral "Woyzeck, o brasileiro"; poeta e um dos fundadores do projeto CEP 20.000.
Daniel Paes
Poeta. Escreveu a peça Heroína, esquete encenada no Rio de Janeiro. Atualmente estuda jornalismo.
daniel_paes@hotmail.com