
SÉRGIO BIANCHI definitivamente não faz filmes para agradar, para entreter o espectador, enquanto este come pipoca e bebe coca-cola sentado confortavelmente em sua poltrona. Não, seu cinema é uma faca afiada, cortante, indigesto para paladares mais sensíveis. Tachado por muitos como pessimista e derrotista, sua lente na verdade aponta para as mazelas que muitos insistem em maquiar ou esconder debaixo do tapete. Uma voz dissonante num país onde tem imperado a estética vazia e tecnicista de um cinema cada vez mais colonizado e inofensivo. Embora pouco conhecida (seu filme mais assistido é Cronicamente Inviável ), o cineasta paranaense radicado em São Paulo vem ao longo dos anos construindo uma filmografia permeada pelo desconforto, inconformismo e reflexão, marcada sobretudo por uma linguagem épica extremamente contundente e dialética. Seu quinto longa-metragem Quanto Vale ou é por Quilo? desmistifica a caridade burguesa de organizações filantrópicas que lucram com a permanência da miséria e transformam excluídos em produto.
No mês de Junho, com o filme ainda nas primeiras semanas de exibição, nos dirigimos para o apartamento de Bianchi no centro de São Paulo e conseguimos uma entrevista recheada de provocação, ironia e uma tremenda visão crítica. (Sandro Eduardo Saraiva)
Revista Etcetera: Quanto Vale ou é por Quilo? e toda sua filmografia tem como característica uma proposta de reflexão. Você põe o dedo na ferida e desvela as mazelas de uma sociedade que muitos ainda insistem em esconder debaixo do tapete. No cenário do cinema brasileiro atual você tem sido uma voz dissonante. A maioria tem se submetido à linguagem de estética hollywoodiana, acreditando até que a premiação do Oscar possa abrir espaços pra produção nacional no exterior, dar mais visibilidade ao cinema brasileiro. Existe também uma cultura de bilheteria. Como você vê esses sintomas?
Sérgio Bianchi: São várias perguntas numa só, você quer saber porque eu sou diferenciado? Sou diferenciado porque sou diferenciado e pronto.

Eu não tenho nada contra a indústria de cinema brasileiro, só que não acredito do jeito que está sendo feito, porque é falso. Não há espaço para o cinema brasileiro, tanto faz ser um blockbuster nacional, se é a Xuxa e os Trapalhões, ou se é um filme mais avant-garde daquele carioca ótimo lá, como é que é o nome dele...
Etc: Júlio Bressane?
SB: ...isso, Júlio Bressane, não importa, o espaço não é permitido a ninguém, entendeu? As verbas são de incentivo, são estatais, algumas permeadas de jogo de influência política, algumas mais sérias. Eu acho o BNDES e a Petrobrás mais sérios porque eles têm um poder econômico tão grande e se lixam pra pressão de um possível político, de algum poder. O renascimento do cinema brasileiro o que que é? É o aumento total da fórmula industrial, então o filme ficou mais caro, tudo é feito de acordo com a fórmula de uma indústria. É que nem indústria de sabonete, sabe aquele negócio, pesquisa dos aromas da Bulgária, você contrata milhões de técnicos e pesquisa até a cor da embalagem, você só esquece de procurar o lugar onde vender o sabonete. É o virtual! E aí é terra de ninguém, é uma coisa confusa, é tudo confuso. Bons filmes comerciais não têm a bilheteria porque não fazem as alianças corretas, bons filmes de instigação também não vão para o povo, enfim, o sistema continua sendo um sistema de exclusão como artefato de elite, porque a elite é burra, independente se é direita ou esquerda, mas é burra, ela acredita que pode dominar sempre o povo brasileiro não dando a ele acesso as coisas, aí depois se assusta com a barbárie.
Quer dizer, nada de novo na bagunça, os ministérios e secretarias de cultura são dados eternamente para o partido menor, quando entra um ego-maníaco que inventa outra coisa, monta outro edifício, compra toneladas de equipamentos que serão sucateados e assim vai, a coisa tá indo pro barranco. Eu só proponho prazo de validade, porque nós como putas aprendemos a nos adaptar a cada novo sistema, de quatro em quatro anos, mas tem que valer mais que quatro anos.
Pra mim o importante é o que está no filme, não é a característica do diretor, o blá blá blá. Agora, vamos resumir isso, nunca esteve tão caótico, porque agora você tem as boas intenções não é? Os governos anteriores não estavam nem interessados com isso, o governo do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, e agora do PT estão interessados em resolver e não conseguem, sei lá, atravessassão pela confusão...