

Vômito coletivo em Quanto Vale ou é por Quilo?
Etc: Ou a estrutura como está organizada...
SB: Eu não sei cara, a coisa está ficando que nem câncer, fica na metástase já. Quando fica na metástase como é que você vai analisar o câncer?
Etc: Dentro disso tudo você vê alguma possibilidade de produzir fora dessa burocracia viciada?
SB: Acorda cedo que nem eu acordo, cada vez mais cedo pra fazer a papelada toda. Agora eu não sei o que quero fazer mais, porque eu realmente cansei um pouco dessa procura do modelo colonizado que você mencionou. Estou ficando recluso, cada vez me fecho mais, não saio. Perdeu-se a vitalidade das coisas, de quatro anos pra cá se botou a juventude toda em fila, “a luta, a luta continua”, só que não há a luta. Há o uso desse jogo por espertos, então eles matam a esperança, eles matam a vitalidade do cinema brasileiro. Também não sei se matam viu? Aí eu posso estar sendo pessimista, acho que há uma garra, sempre aparece um bom filme. Na média da produção, em comparação a outros países, o Brasil tem muito mais bons filmes por ano, independente da área estética ou ideológica, da área comercial ou não.
Etc: A “linguagem mais apurada” de Quanto Vale ou é por Quilo em contrapartida com a “falta de acabamento” de seus filmes anteriores tem sido um comentário recorrente da crítica. O que pensa a respeito? Na sua visão houve esse “salto de qualidade” de que tanto estão falando?
SB: Vamos ser sinceros? A diferença é que temos agora Mirim Biderman e Ricardo Reis [editores de som] que fazem um bom som, isso não tinha. Coisas assim, entendeu? Não só isso, eu tive um pouco mais de dinheiro também. Você vê que as cenas de época são mais cuidadosas e tal, mas poderia não ser. O projeto eu pensei assim: aquela coisa de “você não tem filme e por isso faz mal acabado e pessimista”. “Pessimista” é bobagem, eu nem respondo, estão querendo esperança? Eu nunca acreditei nessa brincadeira, eu acredito numa realidade e na tentativa e tentação de mudá-la, isso é em que eu acredito. Então pensei, peraí vamos fazer um filme mais embalado de linguagem, eu gosto, cinema é cinema, tem mil formas de colocar o som, de montar, que você envolve o espectador, depende pra quê não é? Se você quiser, pode envolver num sitcom pra um monte de doenças, não todos também, alguns. Pode envolver em cima de um bom choque nevrálgico, que não é essa coisa de foder com a classe média, soco na boca do estômago, isso tudo é besteira, digo no sentido de colocar as contradições fortes em jogo. Pra não ter movimento negro sempre em cima do modelo americano, que é uma bobagem, o Brasil é multirracial, pra tentar dar um alerta. Isso é coisa meio de missionário, avô protestante (risos). Sempre acha que vai salvar alguém, mas enfim, sou eu, provocador, missionário, sei lá. O que também não resolve, não resolve porque não há espaço. Se você procurar bilheteria, não há. Não vou defender o biscoito fino pra poucas pessoas! Eu queria lançar esse filme assim: alugar um cinema, como a igreja faz, e dar de graça a entrada e ainda dar ticket refeição.

Etc: Onde seria?
SB: Na periferia, ainda pagava o ônibus pra levar de graça. Eu teria a maior quantidade de espectadores do mundo e sairia muito mais barato do que toda essa burocracia de lançamento tradicional, outdoor, rádio, programa de tv, assessoria de imprensa. É uma coisa, é burocrático, só que tem que fazer.
Etc: É uma questão que eu ia levantar: você acha que seus filmes chegam na periferia?
SB: Não. De graça depois tem aquelas trinta e sete organizações que pegam dinheiro do Estado pra pagar só o aluguel, modelo “criança abandonada na rua”, pra levar os filmes à periferia. Tô lá, claro que eu vou estar, depois. Por que não né? O importante é que as pessoas vejam, não tenha dúvida.
Etc: Cronicamente Inviável foi eleito por críticos como um dos 10 melhores filmes brasileiros da década de 90. Ao mesmo tempo há críticas tachando seus filmes como derrotistas, pessimistas, ingênuos, marxistas...
SB: ...marxistas, pessimistas, niilistas, iluministas...
Etc: “Chapa preta”...
SB: É, mas tudo bem, acho que tem alguma coisa errada na cabeça das pessoas porque essas coisas todas são distintas, o filme é uma coisa ou outra, não pode ser tudo isso. Teve só três ou quatro críticas, o resto não é crítica, é matéria- achincalhe. “Ah pessimismo, quem quer ver pessimismo?”, nada disso, acho que mexi em alguma coisa, não sei direito ainda o quê, que algumas pessoas se sentiram profundamente lesadas, acho que é a desmistificação da bondade. Só que não foi essa a intenção, eu quis colocar como que transformam um miserável, podre, excluído, sem terra, ou do que você quiser chamar, em produto, em mercado. Não é que seja ruim fazer isso, o ruim é a permanência deles para servir de sustento a uma classe média e a uma classe alta. E eu nem ataquei o governo com os fome zero da vida.
Etc: Mas você não acha que o governo tem também explorado a miséria pra lucrar?
SB: Isso você é quem está dizendo.
Etc: Acho que dá pra fazer essa ligação em relação ao Quanto Vale ou é por Quilo?, tudo bem que não foi essa a sua intenção.
SB: Eu resolvi não mexer no institucional, só no emprego classe média mesmo. Mas também não é só isso, têm outras coisas.
Etc: Atualmente muitos filmes nacionais são ambientados em cenários de miséria, mostram a favela e o sertão degradados, mas não há reflexão contundente...
SB: (cortando) Acho que não, isso é o Walter [Salles] lá, e o Cidade de Deus, os outros não fazem isso não .
Etc: Não acha que o que existe é uma estilização, tudo vira espetáculo bom de se ver? Estão vendendo uma imagem de miséria pro exterior.
SB: Acho que todo mundo tem o direito de fazer o que quiser.
Etc: Você não acredita que hoje o cinema brasileiro esteja inserido naquilo que a Ivana Bentes classificou como “Cosmética da Fome”?
SB:Ah eu acredito, inteligência profunda, a Ivana é cabeça no lugar.