foto: divulgação

Cena de época onde se reconstitui a escravidão
no Brasil em Quanto Vale ou é por Quilo?
Etc: O Carandiru do Babenco também não serviria como exemplo?

SB: Eu não vi o Carandiru , não posso falar. Acho que a Ivana matou a charada, isso não quer dizer que não se fala da realidade. O problema está em se dar a redenção final.

Eu trabalho muito, das quatro, cinco da manhã até às nove horas da noite. Quando chega as nove eu não quero sair, não quero porra nenhuma. Então ligo a Directv da vida e fico vendo sitcons canadenses e americanos, que são muito bem feitos. Aí fico vendo a ideologia que está atrás, isso é pós-torre, antes das torres lá do 11 de setembro era bomba, bomba, terrorismo, explodindo as cidades. De repente aconteceu aquilo que eles premuniram nos filmes, aí sumiu isso. Agora é desvarios psicológicos sexuais, mas assim, oitenta por cento é sobre adultos que fazem mal sexualmente a menores de idade. É feito com um “realismo emocionante” e sempre vem a redenção no final, e é uma redenção liberal no modelo americano, não liberal daqui, lá a palavra tem outro significado. Aquela coisa do democrata lá dizendo : “peraí, o estuprador também tinha suas razões”. Puta que pariu! Que decadência do império!

Pra mim as pessoas falam assim: “você não colocou no filme as ONG's ruins junto com as boas e fodendo as boas?”. Puta que pariu, dá pra discutir o torturador se ele é bom ou ruim? Não é sobre isso, não é sobre bem e mal não, é sobre o uso dos pobres e miseráveis como produto gerando riqueza e capital, logo eles permanecerão porque geram lucro. É sobre isso que eu quero dizer, que é até discutível.

Etc: Seu longa Cronicamente Inviável manteve-se nos cinemas durante oito meses, com apenas duas cópias, além de ser lançado em vídeo. No entanto, títulos anteriores de sua filmografia permanecem restritos ao circuito universitário, desconhecidos pela grande maioria do público. O que acontece?

SB: Não sei, isso não é meu trabalho. Tinha um colega meu que faleceu e era cineasta que ele falava assim: “porra, eu vou ao mar e pesco o peixe, não sou responsável pela refrigeração da peixaria lá no interior do Mato Grosso”.

Etc: Mas você acha que o problema é o quê? Alguma censura branca?

SB: Não tem censura branca não, tem um espaço dominado por um outro cinema. O exibidor recebe o blockbuster americano, se ele der toda a força pra outro tipo de cinema, tirando agora a Globo Filmes que faz o jogo correto (jogo correto mercantil), aí ele tem espaço, o resto não tem espaço porque não tem força de negociação e não há leis no sentido que restrinja a entrada do cinema americano, não aquela coisa de nacionalismo Severino, só as coisas rurais e nossas, nada disso, é fazer os caras pagarem taxas adequadas para entrar aqui.

Etc: Os caras têm uma puta divulgação aqui sem precisar pagar nada.

SB: Não pagam nada, isso mistura com a cabeça colonizada brasileira, tem muita gente colonizada. Qual o blockbuster americano do momento?

Etc: Star Wars.

Tortura e escravidão no filme de Bianchi
foto: divulgação

SB: Agora eu te pergunto: você acha que essas matérias de jornais são pagas? Não são! Essa que é a grande loucura, então é um problema meio doentio. Eu acho que o Estado deveria colocar um certo parâmetro de defesa da nossa cultura, se é que isso é interessante. Eu acho que instrução, bom colégio, boa saúde, boa cultura para o coletivo só melhora a qualidade de tudo, entendeu? Isso é uma visão minha, pode ser que essa elite acredite que tem que manter as massas bárbaras, e depois construir uma cerca bem grande para eles não serem invadidos.

Etc: Vi outdoors de Quanto Vale ou é por Quilo? em regiões como o Jardins, é uma provocação deliberada?

SB: Não, não.

Etc: Como se dá a estratégia de divulgação do filme?

SB: É feita pela RioFilme, uma companhia estatal com funcionários públicos que chegam às onze e saem uma e meia para o almoço, voltam às quatro e saem às seis. Não falo mais nada, é isso.