

Quanto Vale ou é por Quilo?: a manutenção da miséria
como forma de lucro
Etc: O que você pensa a respeito das leis de incentivo baseadas em renúncia fiscal? E da política da Ancine?
SB: Não tem mais como pensar, já tem quantos anos que isso tá aí, dez anos? Ela vai se transformando, agora ela está na fase que só as grandes estatais fazem. E das estatais temos duas grandes que têm alguma competência no que fazem, que é o BNDES e a Petrobrás. Depois tem o artigo terceiro que é como fazer a mutreta com o capital da distribuidora americana, essa eu não entro porque acho indecoroso. Não entro, mas também nem querem que eu entre, não tenho produto adequado a eles.
Etc: Seus filmes têm estrutura épica (mistura linguagens de ficção e documentário, é um cinema narrativo, os atores discursam direto para câmera, tem montagem dialética, etc)...
SB: (cortando) Esse é meu estilo desde o começo.
Etc: Quais são as referências estéticas de sua formação?
SB: O que que é isso? Como assim? (risos)
Etc: O que você assistia?
SB: Não sei, que coisa! (risos)
Etc: Você não teve nenhum referencial?
SB: Tá, eu tive quando jovem aquela coisa que todo mundo teve, por exemplo, cinema italiano.
Etc: Neo-realismo?
SB: É. O governo italiano trabalhou, pegou os louquinhos todos lá daquela geração, porque eram todos atravessados, cada um de um jeito, e o Estado impôs como projeto cultural do país e o cinema italiano daquela época aconteceu. Todos nós fomos influenciados por aqueles filmes, toda aquela turma, eram sete, oito, né? Pasolini, Vinconti, Rosselini, De Sica, não sei o quê , não sei o quê.
Etc: Zurlini.
SB: É, tinham os menores também, que eram bons, enfim. E foram todos vendidos, distribuídos. Criaram um star system em cima disso, tinha Sophia Loren, Marcello Mastroiani, e a gente consumiu isso quando garoto. Eu vi todos naquela época.
Etc: Como é seu processo de direção?
SB: Cada vez me dou melhor com os atores, e esse filme, bom aí eu não posso falar muito, a equipe dessa vez não foi muito fácil não.
Etc: Você tem algum método? Você está ali direto com o ator ou deixa mais pro assistente? Como é no set de filmagem?
SB: Eu faço o meu método, não tem muita diferença dos outros não. Raramente você tem aquela coisa que deveria ter, ou então é o modelo americano, que você vai à locação e antes, muito tempo antes, estuda, decupa e não sei o quê. Eu começo bastante tempo antes, porque também o dinheiro não vem nas horas certas, tem momento que o dinheiro vem e a máquina, quando você começa a filmar, é um gasto enorme, é uma quantidade de gente. E aí você corre, você é um pouco atropelado, então você vai resolvendo muita coisa. Quando tem alguém que é maldoso ou incompetente é meio foda. Nesse filme eu tive um problema sério, o cara do som com quem fui ver as locações rapidamente, porque não tinha condições de ver direito, me levou na hora que não passava avião no lugar que filmaríamos e todos os lugares que ele me levou era perto de pista de aterrissagem, descobri isso depois.

Etc: Propositalmente?
SB: Não sei, incompetência, proposital não, foi tipo lesão mental (risos). Sabe, eles aprendem a cartilha na escola de cinema, como se faz cinema americano, só que há alguns erros né? Tem a outra coisa que é o computador, nesse filme agora as pessoas que fizeram produção tinham que ter cada uma um computador, daí fazem listas, só que elas não vão atrás da coisa, daí é tudo na última hora. Você tem que ter alguns fiéis na equipe, o elenco é sempre fiel comigo. Eu trabalho, chego no lugar e crio a ação e depois vejo onde ponho a câmera.
Etc: Você falou de escola, como vê as escolas de cinema hoje? Você se formou na ECA, não?
SB: Mas eu sou daquela geração da época da ditadura, que tinha os professores todos meio anárquicos, divertidos, era uma época diferente, era um processo mais de criar, o que é ruim em algumas coisas, mas era muito bom em outras, quer dizer, era mais à vontade, era ebulição. Cada um fazia uma coisa.
Etc: E hoje, como você vê essas escolas?
SB: Eu não tenho acompanhado, mas eu acho que tem escola demais para o que pode absorver. Dizem as más línguas que todos se transformam em funcionários públicos de cinema, pra atrapalhar a vida de quem faz o filme (risos).
Etc: Pra finalizar, você já tem projetos para uma futura produção?
SB: Não, não tenho. Estou trabalhando muito, muito, muito. Daqui um mês vou fechar isso aí [compromissos com Quanto Vale ou é Por Quilo? ] e daí terei algum tempo para começar a pensar em alguma coisa. Na realidade não sei como será, tá um ponto de interrogação, estou muito cansado.
Filmografia de Sérgio Bianchi
longas-metragens:
Quanto Vale ou é por Quilo? - 2005
Cronicamente Inviável - 2000
A Causa Secreta - 1994
Romance - 1988
Maldita Coincidência -1979
média-metragem:
Mato Eles? – 1982
curtas-metragens:
Entojo – 1984
Divina Providência –1983
A Segunda Besta – 1977
Omnibus - 1972