

Muito curiosa é a maneira como alguns poetas acabam se tornando populares através dos tempos. O artista da palavra é muitas vezes lembrado, não por um verso célebre ou uma frase famosa, mas pela sua existência extraordinária.
É o caso de Lord Byron, por exemplo, personagem símbolo do romantismo mundial, que ficou mais conhecido pelos seus feitos, desregramentos e atos de heroísmo que por suas próprias palavras, as quais não lembramos uma sequer. Tal não acontece com todos. Alguns são autores de frases famosíssimas e às vezes tão inesquecíveis quanto certos adágios populares. Quem não se lembra de “No meio do caminho tinha uma pedra” ou o “E agora, José?”, de Drummond. Ou do célebre “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure” de Vinícius de Moraes? Destes, nos fica um pouco da obra, ainda que sejam fragmentos.
O poeta inglês William Blake (1757-1827), autor de Canções da Inocência e da Experiência , poderia encaixar-se perfeitamente nos dois casos. Homem de personalidade geniosa, irascível, amável, sempre tido por seus contemporâneos e pósteros, como um louco – falsa acusação que povoou sua reputação pelo tempo afora. Mas não só isso. Alguns de seus aforismos tornaram-se popularíssimos nos mais longínquos recantos da terra.
Foi Ronaldo Bastos, letrista brasileiro, parceiro de Milton Nascimento, quem escreveu em uma canção intitulada “Amor de índio” o verso: “Tudo que move é sagrado”. Certamente uma tradução poética para o aforismo que fecha o longo poema de Blake “O Casamento do Céu e do Inferno” (“For every thing that lives is holy – Pois tudo que vive é sagrado” [1]). A própria canção de Ronaldo Bastos é uma colagem de aforismos singelos, e parece ser inspirada em Blake – especialmente o poema “Augúrios de Inocência”, onde o bardo inglês demonstra uma delicada sensibilidade às coisas deste mundo: “Ver um Mundo num Grão de Areia/ E um Céu numa Flor Selvagem/ Segurar o infinito na palma de sua mão/ E a eternidade numa hora.”.
Blake teve visões extraordinárias desde criança. Certa vez foi castigado por sua mãe por contar sobre uma conversa que havia tido com o profeta bíblico Isaías. Consta que viu Deus aos quatro anos de idade, olhando-o pela janela. As Canções da Inocência e da Experiência , que foram publicadas pelo próprio autor a partir de 1794, estão repletas de anjos e cordeiros. Talvez por isso, muitos atribuam a ele uma visão exclusivamente mística da vida. Mas isso é um erro. É inegável o seu misticismo, mas talvez devêssemos dizer que Blake era, antes de tudo, poeta. Por isso, a bíblia, para ele, não é exatamente o manancial da verdade sagrada, mas uma grande obra produzida pelo “Gênio Poético” universal. Foi ele que, ainda no século XVIII anunciou em “All Religions are One” (Todas as Religiões são uma Única): “Os Testamentos Judeu & Cristão são Uma derivação original do Gênio Poético.”.
O “Gênio Poético”, ou Imaginação, essa enorme capacidade do homem de criar a partir daquilo que percebe, é a premissa essencial do pensamento de Blake. Mas, como “Opposition is true friendship (Oposição é amizade verdadeira)”, é preciso lembrar que essa capacidade estava sendo suprimida (e continua ainda hoje) pela Razão, a quem ele nomeava em sua poesia “Urizen” (your reason, vossa razão, entidade mítica simbolizada por um velho homem empunhando um grande compasso e que, por vezes, aparece encarnada na figura de Isaac Newton. Uri zen, o grande limitador, é o destruidor da percepção humana.)

Newton
A própria poesia dele já é um grande incentivo à imaginação. E assim chegou até nós a sua frase talvez mais célebre: “Se as portas da percepção fossem limpas tudo apareceria ao homem como é: infinito.” Esta chegou aos nossos dias por ter sido a origem do nome da banda norte-americana The Doors. Mas, segundo contam, o líder da banda, Jim Morrison, não faz alusão ao aforismo de Blake, embora haja indícios de grande admiração à poesia dele. Ao dar o nome para o grupo de rock, lembra-se do livro de Aldous Huxley, The doors of perception (As portas da percepção [2] ) , estudo publicado em 1953, onde o autor de Admirável mundo novo descreve suas experiências com a mescalina.
Nesse livro, dentre as descrições que Huxley faz do uso da droga, inclui comentários sobre a obra de William Blake, demonstrando uma imensa paixão e uma rara compreensão dela. No decorrer de As portas da percepção , ele deixa clara a diferença entre o seu universo pessoal e o de Blake, mas tenta em vão encontrar nos efeitos do alucinógeno, algo das experiências místicas do poeta.
Jim Morrison lança sua banda no cenário mundial do rock'n roll nas proximidades dos anos 70, época do psicodelismo e demonstra simpatia pela poesia visionária e revolucionária do século XIX e XX (Blake, Whitman, Ginsberg). Por isso, ao se inspirar no livro de Huxley, estabelece uma relação, ainda que indireta, com a obra de William Blake. Isto contribuiu para que Blake se tornasse um dos heróis da contracultura e viesse tocando cada geração de admiradores do rock e da poesia desde os anos 60 [3].
Mas espero não decepcionar os aficionados: não há o menor indício de que o bardo inglês tenha feito qualquer uso de drogas para “expandir” sua percepção, o que seria um anacronismo (já que os experimentos científicos com drogas só se popularizariam com a ciência behaviorista no século XX). Mas havia certas drogas em uso corrente em sua época. Outro poeta, contemporâneo de Blake, Samuel Taylor Coleridge (um dos fundadores do romantismo na Inglaterra), teve sua vida e, sobretudo sua carreira literária, comprometidas por causa do ópio, no qual era viciado. No decorrer do século XIX, outros escritores trouxeram para a literatura relatos que tratam de experiências pessoais com drogas. É o tema de obras como Confessions of an english opium eater (Memórias de um comedor de ópio) , de Thomas De Quincey e do célebre Paraísos artificiais de Charles Baudelaire, que trata de drogas como o vinho, o haxixe e o ópio.
Mas o aforismo de Blake sobre a percepção trata de algo muito mais simples: a percepção da própria realidade. É que o furor do capitalismo industrial-cientificista, que surgia em sua época, prenuncia uma era de apatia e morte espiritual. E já então, passava por “normal” a exploração exacerbada do trabalho de quem quer que fosse. Ou seja, o óbvio passava desapercebido. E ele afirma, em sua constante atitude de contestação social: “Como todos os homens são semelhantes na forma visível, então (e com a mesma infinita variedade) todos são semelhantes no Gênio Poético”.
O “Gênio Poético” blakeano é a imaginação. Talvez por isso, sua obra tenha se casado tão bem com a ideologia dos hippies. Mas para estes, admiradores dos paraísos artificiais que são, aquela divisa se soma a esta: “A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”.
E com ela, os leitores apaixonados de poesia, se lembrarão de outro personagem radical, escandaloso e libertador: o poeta americano da geração beat, Allen Ginsberg. Com ele os versos de Blake tornam-se verdadeiros gritos de liberdade, e na prática! já que sua poesia é um manancial de alucinógenos e sua própria vida, um maravilhoso coquetel de excessos. O próprio Ginsberg não cessou de fazer referências incontáveis à poesia do bardo inglês, seja musicando as Songs of Innocence & Experience , seja exaltando a poesia de Blake em seus versos [4].

Mas para entender blakeanamente essa frase, talvez precisássemos deste outro aforismo: “Nunca saberás o que é suficiente a não ser que saibas o que é mais do que suficiente.” Ou seja, não bastam disciplina e auto-negação (como supõe a religião e a moral) para que alguma sabedoria penetre em nós. É preciso paixão e entrega no seu mais sublime grau de excesso, num incessante casamento dos opostos para sairmos do que Blake chama de “Inocência” ou “Experiência” para entrarmos no mundo da inocência experiente ou da experiência inocente, que é o progresso.
Hoje, aquele poeta que era mal visto por seus contemporâneos, tornou-se um sujeito exemplar, cuja radicalidade de pensamento propõe, sem nenhuma concessão, uma verdadeira revolução humana. Não uma revolução social ou política, mas uma revolução cujo palco é o próprio indivíduo. Onde o conceito de Amor deve ser reformulado para que haja, enfim, a comunhão entre os homens. Sua poesia, que foi produzida numa época de revoluções, fala a todas as épocas.
Não surpreende, pois, que poemas como “O Menino Negro”, “O Limpador de Chaminés” ou “Quinta-Feira Santa” falem tão intensamente à situação atual do Brasil:
Quinta-Feira Santa [5]
É coisa santa de se ver,
Em terra fértil e opulenta,
Deixar na miséria um bebê,
Nutrido por mão avarenta?
Este grito é uma canção?
Será ela de alegria?
E tantas crianças pobres?
É uma terra de indigência!
E seu sol nunca tem brilho.
Seus campos secos, desertos
Seus caminhos, com espinhos
E lá é um eterno inverno.
Pois onde quer que o sol brilhe
Onde quer que a chuva assente:
Bebês não podem passar fome
Nem miséria assustar a mente.
Esse é o homem que foi tachado de louco em vida e que assim seguiu pelos séculos seguintes ( “Se outros não tivessem sido loucos, nós deveríamos sê-lo.” ). Seus aforismos cabem, hoje, até mesmo numa conversa corriqueira e nos ensinam sempre algo novo e subversivo. “Se o louco persistisse na sua loucura ele se tornaria sábio”, diria Blake.
Leo Gonçalves é autor de das infimidades (poemas) e colaborador da Revista Etcetera. Traduziu (em parceria com Mário Alves Coutinho) o livro Canções da Inocência e da Experiência de William Blake (Crisálida, 2005) e em parceria com Andityas Soares de Moura, o livro Isso de Juan Gelman (UnB, 2004). Participa do grupoPOESIAhoje (www.daletras.com.br/poesiahoje), em Belo Horizonte e organiza o blog .::o salamalandro::.(www.salamalandro.zip.net)
Notas:
[1] As traduções dos aforismos são tiradas do livro “Tudo que vive é sagrado”, poemas de William Blake e D. H. Lawrence (trad. Mário Alves Coutinho). Crisálida, 2001.
[2] “As portas da percepção/Céu e Inferno”, 2ª edição, publicado pela editora Globo com prefácio de Manuel da Costa Pinto: São Paulo, 2002.
[3] É de Camille Paglia o seguinte comentário: “Nos Anos 60, a poesia e o rock estavam em sincronia. Rapazes cabeludos, descalços, sentavam-se com suas guitarras embaixo das árvores, lendo poesia. Os cantos bárdicos de Allen Ginsberg empurravam as litanias da natureza de Whitman, o surrealismo urbano de Hart Crane e os ritmos afro-americanos do jazz para Bob Dylan, cujas letras ásperas fizeram do rock uma forma de arte. Jim Morrison, do grupo The Doors, era um leitor onívoro, com uma memória fotográfica. A poesia saiu de moda do mundo do rock de hoje, e a música sofreu com isso. O rock perdeu sua espiritualidade e seu senso de missão.” (em “Sexo, arte e cultura americana.” SP: Companhia das Letras,1993)
[4] Incluo aqui a referência à gravação dada por Augusta Vono em seu livro “Allen Ginsberg: portais da tradição” publicado pela Massao Ohno em 1986: “William Blake's Songs of Innocence and of Experience tuned by Allen Ginsberg, MGM/Verve Records. FTS-3083, 1970.
No mesmo livro, Vono transcreve a seguinte fala de Ginsberg “Eu passei pela experiência de ouvir ‘The Sick Rose” lido pela voz de Blake como algo que se aplicava a todo o universo, como se estivesse ouvindo o destino de todo o universo, e ao mesmo tempo a beleza inevitável do destino. Agora eu só consigo me lembrar que foi muito bonito e espantoso. Mas foi um pouco amedrontador por acordar em mim o conhecimento da morte – da minha própria morte e da morte do próprio ser, e esta foi a grande dor.”
[5] Do livro “Canções da Inocência e da Experiência”, poemas de William Blake ( trad. Mário Alves Coutinho e de Leonardo Gonçalves). Crisálida, 2005.