O tempo reencontrado : Bronken Flowers de Jim Jarmusch - Zeca Palaghano

A sinopse do filme é simples: Don Johnston acaba de ser abandonado por sua última conquista, Sherry. Mais uma vez resigna-se a viver sozinho. Mas a chegada misteriosa de uma carta anônima (primeiro plano do filme) obriga-o a voltar ao seu passado. Uma de suas antigas amantes conta-lhe que ele tem um filho de dezenove anos que saiu à sua procura. Seu melhor amigo e vizinho, Winston, detetive amador nas horas vagas, incentiva-o a desvendar esse mistério. Apesar de seu desgosto por viagens, Don embarca num périplo em busca de indícios, reencontrando quatro de seus antigos amores.

Com uma história simples e convencional, Jim Jarmusch (que recebeu o Grand Prix em Cannes este ano com esse filme), iconoclasta e padrinho do cinema underground americano filma laconicamente um falso filme em esquetes que nos deixam a lembrança de uma ausência de movimento, devido à inércia do personagem principal, uma imagem permanentemente legível, numa linha clara, sem sombras e quase freqüentemente composta frontalmente.

É a interpretação de Bill Murray no papel de Don Johnston – ou Don Juan, como os seus interlocutores costumam chamá-lo – que dá o tom a essa laconicidade. Os traços cansados de seu rosto emprestam ao personagem toda sua impassibilidade em relação às coisas, em relação à sua própria vida. Solitário, vestido sempre de moletom e, de preferência, sentado em seu confortável sofá de couro diante de uma televisão-tela-plana-última-geração. Ele fez fortuna com a informática, mas não tem computador em sua casa. Eis aqui, talvez, um dos indícios de sua impassibilidade.


Bill Murray: interpretação lacônica

O tom cômico do filme deve-se, em boa parte, ao contraste entre a agitação febril provocada pela novidade (a carta) em Winston e a impassibilidade de Don. Mas, Jarmusch transforma em clichê o que é intercambiável e móvel, suprimindo tudo o que permitiria ao espectador transformar em coisa ou em tipos, um dado movente, instável; o aspecto físico do personagem, seu caráter, seu nome, tudo o que poderia passar por definições, ser tomado por elementos de uma “essência”. O cineasta trata a matéria psicológica sem utilizar suportes grosseiros ou fáceis. O céu de Jarmusch não é azul.

A inércia dos planos, compostos quase sempre frontalmente e sem aspereza, juntamente com os cortes elegantes, sempre “mais tarde”, dão ao filme uma falsa “nonchalance” que nutre uma cumplicidade com o espectador que se encontra numa posição privilegiada. Jarmusch nos cede mais tempo diante dos personagens, deixa-nos descobrir expressões que só nós podemos ver, oferece-nos um certo número de sinais que, decifrados imediatamente, dão-nos a ilusão de que controlamos a história. É assim durante todo o filme.