Jarmusch se diverte dividindo conosco a busca de Don, sua deambulação pelas estradas americanas, seu mergulho nas periferias anônimas em busca de seus antigos amores, suas antigas amantes, seu passado. As evocações do passado modificam todo o presente, as lembranças esquecidas acionam movimentos tumultuosos e quase imperceptíveis. Don passa do fixo ao informe, do ritual ao movente, da necessidade à contingência, da superfície à profundidade. Sua máscara não foi totalmente retirada, pois ela não é somente um engano, mas também sua proteção. Ele descobre e conhece de si o que os outros ignoram e querem ignorar: o inquietante, o ainda não dito, o problema que abolirá toda sua segurança.


Broken Flowers : reencontro com o tempo que passou

Em seu périplo, Don reencontra suas antigas conquistas (Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange, Tilda Swinton) e descobre que o tempo passou, que todos mudaram, que o que foi já não é mais. Somente em seu encontro com Laura (Sharon Stone) verificamos que sua capacidade de sedução permanece intacta. Mas Don é silencioso, lacônico. Seu silêncio é uma forma de poder. Em silêncio, perde-se todo o contato com aquele que se recusa ao diálogo e todo o seu esforço verbal desordenado, mímico é uma tentativa de reaproximação, de aproximar o que estava separado, de reencontrar a comunicação. Broken Flowers não é um filme nostálgico, mas de reencontro. De reencontro com o tempo que passou.

Don partiu em busca de um filho desconhecido, mas sente-se como órfão de uma paternidade que o destino lhe confiscou. Não encontra-se diante de seu passado, mas do tempo que passou, das vidas que poderia ter vivido ou escapado, da morte que se aproxima.

O final, vertiginoso, aberto, imenso, resume a grandeza deste filme profundamente superficial. Parafraseando Jean-Michel Frodon, vivemos num extenuante momento da palavra e do desejo sob o tsunami congelado do realismo capitalista (Cahiers du Cinéma, n° 601, maio 2005, p. 10) onde o consumo de flores artificiais perfeitas, belíssimas é enorme. Pelo menos as flores de Jim Jarmusch murcham, secam, quebram, morrem, mas são vivas.


Zeca Palaghano
Formado em filosofia pela PUC-SP. Atualmente desenvolve uma pesquisa
sobre o cinema de Marguerite Duras. Vive em Montreal, no Canadá.
zecajjr@hotmail.com