O universo das imagens artisicas na dança
foto: Antoine le Grand

Philippe Découfle em Triton

Este artigo busca explicações para as imagens que surgem na nossa mente no momento em que estamos elaborando a criação artística. Trata-se de um assunto bem controverso e que nem todos os artistas entendem da mesma maneira, fui então buscar respostas para minhas questões.

Interessante observar que sempre me perguntei donde viriam as experiências e, principalmente, as imagens que surgiam tão nítidas nos laboratórios de dança.

Na minha limitação de informações procurava respostas concretas nesta suposta viagem ao meu subconsciente. O estado atingido de subconsciente, se assim posso chamar, ou ainda, uma consciência parcial alcançada nos laboratórios de dança, originavam imagens nunca antes vistas ou apreendidas pelo meu consciente.

Dr. Jung, médico psiquiatra, autor de diversas obras altamente respeitadas no terreno da psicanálise, diz: “A arte, produto das neuroses humanas, é embebida da história do individuo”.

Refleti muito a respeito desta frase; e apesar dos conhecimentos junguianos pautarem no homem do início do século XVII, somente na atualidade a dança começou absorver e incorporar no fazer artístico alguns destes conhecimentos.

Segundo Jung, o inconsciente pessoal consiste em experiências que foram suprimidas, reprimidas, esquecidas ou ignoradas.

Dr Jung chamou “o inconsciente coletivo” -isto é, a parte da psique que retém e transmite a herança psicológica comum da humanidade. Estes símbolos são tão antigos e tão pouco familiares ao homem moderno que este não é capaz de compreendê-los ou assimilá-los diretamente".[1]

Ou seja, o inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, é herdado, formando um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade.

foto: divulgação

Marcelo Gabriel

Engloba ainda, um reservatório de imagens, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. Sendo parte importante do desenvolvimento psíquico-evolutivo do homem, que se acumulou em conseqüência de experiências repetidas durante várias gerações.

É universal que todo o ser humano tem inconscientes coletivos semelhantes. Tudo o que uma pessoa aprende como resultado de experiências é influenciado por ele, que exerce uma ação orientadora ou seletiva sobre o comportamento da pessoa, desde o início da vida. 

Unindo o inconsciente pessoal com o inconsciente coletivo temos uma grande caixa de informações. Esta faz parte da história do indivíduo, que acaba refletindo diretamente na criação artística.

Os arquétipos, universais no inconsciente coletivo, se manifestam também na dança, tanto na movimentação artística, quanto nas danças realizadas com fins ritualísticos.  É uma forma de pensamento universal aliada a fortes emoções.

foto: Tandy

Pina Bausch

O artista-bailarino que escolhe este universo como campo de criação utiliza-se muitas vezes dos arquétipos, os quais se originam de uma constante repetição de uma mesma experiência, durante muitas gerações, como dito anteriormente. Muitas vezes, os arquétipos aparecem em formas simbólicas, nas vivências propostas nos laboratórios práticos de dança (improvisações), podendo ou não, ser transformados em personagens.

Trabalhar com imagens facilita realizar movimentos automáticos (por exemplo, não ter que pensar os músculos que nós devemos ativar) e também movimentos criativos (quando alguém está concentrado em uma série das imagens, seus movimentos adquirem geralmente mais precisão e qualidade).

O gesto é um movimento, um impulso da energia que vai de um ponto a outro com uma intenção. Esta intenção vinculada com a imaginação nos fornece mecanismos de ação e reação que permitem que confrontemos e resolvamos as movimentações de forma satisfatória para o intérprete.

foto: Isabelle Meister

La Ribot em 34 Piezas Distinguidas

Jung acreditava que na vida cada indivíduo tem como tarefa uma realização pessoal, o que torna uma pessoa inteira e sólida. Essa tarefa é o alcance da harmonia entre o consciente e o inconsciente. Através das experiências vividas no laboratório pude perceber que esta inteireza e solidez pode ser alcançada também pela movimentação corporal.

Inconscientemente, o artista faz de seu momento de criação e de execução da obra, um espaço para a manifestação de seu universo sagrado. Desde a preparação do ambiente de forma ritualística para a performance ou obra acontecer. Até o momento da execução que seria o êxtase, o momento máximo da manifestação sagrada.

foto: José Luis Pederneiras

Grupo Corpo no espetáculo Nazareth

Faço aqui um parêntese: Arte não é terapia, apesar de muitos estudos estarem atrelados a ela. Todavia os estudos de Jung ajudaram os artistas a entenderem melhor suas criações, possibilitando-os inclusive escrever sobre a obra.

Faz-se necessário, cada vez mais, este distanciamento da realidade para a criação artística. Gerando um ambiente que propicie o inusitado, o espontâneo, necessários para gerar o caos, fundamental na criação artística. Esta espontaneidade traz a transgressão, que concebe a arte.

Existem inúmeras formas de criação através da dança, com as quais o bailarino vem buscando sua importância como indivíduo atuante desde o início do séc XX. Resgatando através da dança a importância do intérprete na cena, e este em relação à própria obra. Propiciando ao bailarino enquanto criador, ser um ser humano inteiro, presente, ativo, dinâmico, em movimento, em ação, que cria novas maneiras de perceber o mundo e pensar a experiência humana.

O intérprete é ele mesmo, obra de arte viva. Por isso a necessidade, cada vez maior, em trabalhar o seu instrumento artístico, ou seja, seu corpo, sua voz, seus afetos, suas relações, seu conhecimento, sua criatividade e sensibilidade. Uma formação constante e sistemática, um laboratório de pesquisa, experimentação e conhecimento, tornado-a real sem ser realista, unindo disciplina e espontaneidade, técnica e fluidez de corpo e mente, matéria e espírito.


Nota:
[1] JUNG, CARL G. O Homem e seus Símbolos. Tradução: Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 1977 pg 107.

Carolina Romano de Andrade é Bailarina, Coreógrafa, Pesquisadora em Dança, Professora de Dança e Ballet formada pela Royal Academy of Dance, Bacharel em Dança pela UNICAMP e Mestranda do Instituto de Artes da Unicamp.
carolromano@terra.com.br

Leia mais em:
JUNG, C.G. Fundamentos de psicologia analítica. São Paulo: Vozes, 1985
JUNG, C.G Arquetipos e o Inconsciente Coletivo, Os. São Paulo: Vozes, 2000