Jean Genet: Para além da poética marginal, um discurso lúdico, metafísico e social sobre as relações de poder - Cynthia Taboada

Jean Genet

Sendo Jean Genet (1910-1986), um dos mais controversos dramaturgos modernos, não podemos deixar de nos entusiasmar a ponto de propor uma vez mais, uma discussão sobre suas inferências existencialistas no universo da dramaturgia, tendo como palco uma de suas principais obras, O Balcão.

Enquanto ainda hoje, vemos o mistério da marginália dominando alguns cenários e tendências, aguçando curiosidades sobre o tema, podemos voltar a nos envolver com obras de origem dessa “marginalia”, no âmbito dos vícios e das pulsões transgressoras, partindo das obras do Marquês de Sade (1740-1814), do Lord Byron (1788-1824), do Conde de Lautrèamont (Isidore-Lucien Ducasse) (1846-1870) , ou mesmo de Álvares de Azevedo (1831-1852) e posteriormente, atentando à matéria desenvolvida no cerne da sociedade moderna/contemporânea, da qual emana em 1956, O Balcão , de Jean Genet, peça a ser comentada neste artigo.

Jean Genet é considerado um poeta que soube dar ao tema da marginalidade um poderoso lirismo e, segundo o crítico norte-americano Robert Brustein, O Balcão destaca-se dentre as peças de Genet como “ a obra-prima da revolta ” sendo “ uma das mais ricas e mais complexas obras do teatro moderno ” e na “ peça mais subversiva, depois de Sade ”.[1]

Além disso, sua obra poética e dramática como um todo revela uma discussão autobiográfica que ao mesmo tempo o analisa e cura, onde o mal pulsa, dilacera, satisfaz e encontra redenção.

De fato, Genet em sua vida pessoal possui uma trajetória de abandono e crime. Rejeitado pela mãe ao nascer, adotado em um orfanato, tudo ainda poderia ser diferente se não fosse procurado, em sua casa adotiva aos dez anos, por policiais que o levariam ao reformatório, de onde fugiria aos 20 anos para iniciar sua vida de pequenos crimes e prisões. Deste início de vida tumultuado, elabora para si mesmo, a primeira e fatal estratégia de sua vida: assumir a marginalia , quer fosse ela verdadeiramente praticada por ele ou não. Assim, assumindo-se como marginal, passou a viver e experimentar a vida como tal, praticando pequenos crimes e sendo encarcerado diversas vezes.

Dessa vida em prisões pela Europa, onde passa grande parte do tempo, e segundo ele “ aprende a viver ”, entende uma primeira espécie de determinação social: o homem é aquilo que faz, ou melhor, sua função social determina sua existência. Apreende isso de tal forma que resolve abandonar a sociedade que o abandonou em primeiro lugar, sendo marginal convicto, cuja função é permitir que outros o desprezem e recebam desprezo de volta.


Genet: literatura transgressora

Porém, ainda na prisão, já na França invadida pelos alemães, encontra-se com a literatura através de presos políticos, intelectuais e artistas da época, na mesma situação de carceragem, e descobre-se um marginal poeta, cujo tema recorrente serão suas experiências transgressoras, suas prisões e desumanização/libertação, que mais tarde o conduzirão à redenção pela transcendência, nas repetidas exposições do tema em seus diversos romances e peças de teatro.

Em suas próprias declarações: “A sociedade, tal como vocês a constituem, eu a odeio. Eu sempre a odiei e vomitei. (...) Desde que encontrei na literatura um exultório, meu ódio tomou uma outra forma, menos pessoal: ele não se traduz mais num impulso interior mais ou menos acidental, ele se deduz de uma filosofia aclarada pela experiência. De um rancor nasce uma idéia. E essa idéia torna-se, à medida que avanço dentro de minha obra, mais serena e mais indestrutível. Eu o sei, eu o testemunho: a ordem social não se mantém senão ao preço de uma infernal maldição que aflige os seres, dentre os quais os mais vis, os mais nulos estão próximos de mim – quer isso agrade a vocês ou não – que qualquer burguês virtuoso e assegurado. Para sempre eu me fiz intérprete dos dejetos humanos, dos resíduos que apodrecem nas prisões, debaixo das pontes, no fundo da fétida podridão das cidades”. [2]