Antonin Artaud

Mas o interesse de Genet não se limita ao fato de ter conseguido expor o mal liri camente, como “mal sagrado” e ritualizado, como poesia feita da liberdade das pulsões e paixões de uma sociedade onde quase tudo é possível e permitido. Genet vai mais além. No Balcão , objeto desse breve estudo, vai demonstrar o exercício lúdico dos opostos, dos duplos – onde se encontra com Antonin Artaud (1896-1948) , encenador e artista com quem possui afinidades, mesmo sem o ter estudado, no gênero do “teatro da crueldade” e no proposto “teatro dos duplos” (influência do teatro oriental) – dos jogos de espelhos, das formas que são opostas e se encaixam pelos seus contrários – como uma versão cênica da obra de M.C. Escher (1596-1672), nas artes visuais – das funções sociais que desencadeiam estruturas complexas e refletem-se como batalha entre essência versus existência.

No Balcão seu teatro é metafísico, metateatro e os atores representam personagens que estão representando atores que representam que estão representando funções sociais, refletindo alegoricamente uma realidade social através de seus símbolos. É o teatro dentro do teatro, e o jogo de espelhos como fio condutor de uma problematização maior: nesse universo de ser e nada ser, o dominador não existe sem o dominado, a lei não pune se não houver marginalia , nem mesmo existe sem ela, assim como o rei só é rei se seus súditos admitirem baixar as cabeças. E assim infinitamente, declarando que para cada existência é necessária uma outra anterior e concomitante, para que haja permanência da ordem social já estabelecida e consolidada pelas funções sociais.

foto: Roberto Rognoni

O Balcão , direção de Giorgio Strehler
no Piccolo Teatro de Milão em 1977

Partindo desse enfoque, Genet desvela tanto o universal (o ser e o nada) quanto o particular (o universo das relações sociais e suas estruturas simbólicas, passíveis até mesmo no mínimo espaço de governo e convívio social possível), expondo por meio das fantasias sexuais dos freqüentadores do “Grande Balcão das ilusões” – porque para Genet é mesmo isso o que os espelhos e a vida representam e é assim que devem ser representados – suas principais Alegorias (o Bispo, o Chefe de Polícia, o Juiz, o General, o Velho), com seus respectivos duplos (a pecadora, o líder da rebelião, a ladra, o “cavalo-do-general”, a moça), encenados por personagens que os representam com requintes de detalhamento e severidade, para que possa eclodir em verdade nos palcos, ao final, o grande mal ritualizado e cerimonial próprio de Genet.

Ao expor as relações sociais e o universo das funções sociais, Genet ainda explicita uma outra poderosa idéia: todas as alegorias principais da sociedade (o Estado, a Igreja, o Exército, a Lei), nas quais residem formas de poder e dominação, já ultrapassadas por sinal, se resumem em seus atributos simbólicos: o cetro, a balança, a mitra ou o uniforme, bastando, por meio do ato de se fantasiar, tornar-se senhor do poder ao qual o atributo se refere. Assim, qualquer indivíduo portador desses atributos, no exercício de sua fantasia de poder potencialmente erotizada, pode ser ou deixar de ser a instituição que representa: os indivíduos podem ser destituídos ou liquidados, porém as instituições permanecem, à espera de outros, mantendo-se aparentemente imutáveis enquanto pilares sociais de uma sociedade apodrecida. Apesar disso, Genet em sua Advertência sobre o Balcão lembra: “ Reajam e encontrem soluções ”.

E é por isso mesmo que, durante a peça, freqüentes rajadas de metralhadoras e insinuações de que a revolta continua ou a qualquer momento pode recomeçar estão sempre presentes, como sombras que penetram e perpassam a encenação dos quadros dentro do Grande Balcão.


Grotowski

Nesse jogo infinito de aparências e representações, de batalhas por vir a ser e deter uma parcela do poder pré-estabelecido no jogo das relações de poder, feita pelas personagens, num teatro que fala do teatro, e que pode realizar-se como experiência de arte total e metafísica entre atores e platéia, ao gosto dos ensinamentos do encenador Jerzy Grotowski (1933-1999) em seu “teatro pobre”, é que se encontra a grande originalidade e as infindas discussões acerca dessa peça, grande obra aberta de Jean Genet, focada não somente na elevação do mal e de seu ritual, mas também em sua sátira, sua ridicularização, no intuito de se fazer lente de aumento sobre a nossa própria sociedade e sobre as relações humanas que fazem parte desse cenário.

Breve diálogo sobre o jogo das fantasias

De toda forma, é no cenário do Grande Balcão (bordel de luxo onde se passa a ação dramática) que somos instigados a perceber a riqueza de detalhes das relações de dominação, que se fundem e se sobrepõem pelas necessidades dos personagens em garantir sua existência, ainda que no cenário da fantasia, manifestando cada um seu sentido de existir original, sendo este ligado a uma função. Ou, ao contrário, desejando trocar de papéis e funções por suas naturezas simbólicas opostas (e nesse caso vemos o líder da rebelião, Roger, após sua derrota, satisfazendo-se em representar no Grande Balcão, no Salão Funerário, o seu algoz, o Chefe de polícia, chegando a castrar-se, enquanto este, satisfeito em ser representado pela primeira vez pela fantasia de alguém, encarcerar-se, após a “representação”, no mesmo salão, repleto de comida para toda a eternidade).