foto: Despatin & Gobeli

O ator Thor Tulinuis como o rebelde Roger,
em montagem parisiense de 1986
com direção de Georges Lavaudant

Para “quebrar” e/ou “restaurar” a ilusão do jogo da representação dentro da representação da peça, vemos cada quadro de ação dos personagens do Grande Balcão recheados de interferências de diálogos “conscientes” das personagens (por exemplo, informando a situação em que se encontra o “Reino” às voltas com a revolta iminente e a tomada de poder pelos rebeldes) ou com diálogos que retomam os níveis do senso-comum, que reprime de certa forma a transposição das fantasias dos fregueses em realidade, fazendo-nos estar sempre alerta para o jogo (lúdico, farsesco), porque afinal, há coisas que, representadas como fantasia devem permanecer como tal, ou então, nas palavras do Bispo à confessora: “ Se fossem verdadeiros, seus pecados seriam crimes e eu estaria numa enrascada ”, mesmo que representados pelas personagens com níveis absolutos de entrega e verdade (retorno à ilusão) – não é à-toa que o Juiz, a certa altura diz: “ Escute: é preciso que você seja uma ladra-modelo, se quiser que eu seja um juiz-modelo.Falsa ladra, torno-me um falso juiz ”, advertindo que tal postura tornaria a experiência da fantasia incompleta.

Durante o Quadro II[5], na representação do Juiz, do Carrasco e da Ladra, vemos a interessante reversão na relação de dominação/submissão. O quadro se inicia e termina com a personagem que representa o Juiz lambendo os pés da Ladra, porém, as mudanças entre dominador/dominado vão ocorrendo ao longo do quadro, invocando novamente a idéia de que a existência de uma personagem (e sua fantasia encenada) está submetida e determinada pela existência da outra. Assim, elas se completam e se fundem, revelando sua necessidade de existirem em pares ou inter-relacionadas.

foto: Despatin & Gobeli

O General, representado por Yves Gasc,
no La Comèdie Française em 1986

Outro exemplo interessante da elaboração perspicaz de Genet para o Balcão surge da abordagem que faz através da peça, do poder que as fantasias podem exercer na psique humana, revelando no Quadro V, por meio da personagem Carmem, a “protegida” de Madame Irma, dona do Grande Balcão, o secreto e intenso prazer que esta sentia ao representar, em uma das farsas, a Nossa Senhora de Lourdes para um contador do Banco da Província. Ao ver o efeito da representação inundar o espírito do freguês de satisfação plena, proporcionava a si mesma também uma satisfação, incomum, porém compreensível, do patamar daquelas só alcançadas longe das esferas comuns da vida real e rotineira que todos levam, conseguidas muitas vezes somente por meio das fantasias.

Exemplos não faltam para explicitar a lucidez de Jean Genet ao abordar o tema nas suas teias psicológicas mais complexas, podendo mesmo fazer do Balcão em certos aspectos um psicodrama, onde o mal é liberado no palco, na forma de conflitos violentos e exorcizado pela vivência da platéia, que se confronta com sua própria crueldade e se purifica, porém sem nenhuma instância de repressão moralista nesse cerimonial. É um teatro cuja alegoria é metafísica e não moral, resultando daí o caráter subversivo de Genet, aliado aos preceitos do “teatro da crueldade”, de Artaud.

foto: Despatin & Gobeli

O ator Roland Bertin no papel do Bispo,
direção de Georges Lavaudant

Por fim, devido à própria intenção de Jean Genet na construção da ação dramática da peça, visando expandi-la no universo dos jogos de Imagem/Reflexo; Realidade/Fantasia; é preciso alertar que todas as inferências aos sentimentos das personagens ou análises de situações sugeridas aqui são da ordem do leitor que imagina e faz descobertas enquanto lê. Tanto é assim que, na tentativa de manter a obra fiel aos propósitos de “obra aberta”, diversificada quanto às possibilidades de interpretação, existe indicação do próprio autor de como representá-la [3], versando sobre vários aspectos, entre eles a utilização do exagero em determinadas cenas, a manutenção do equívoco e da dúvida a partir de um certo momento da peça até o seu fim, a representação satírica quando na peça a sátira existir, a não substituição dos diálogos vulgares por outros mais amenos etc. Nessas indicações, inclusive, põem-se à baila as seguintes questões: Os sentimentos dos protagonistas, inspirados pela situação, são fingidos, são reais? (...) A existência dos revoltosos está dentro ou fora do bordel?[4] E assim por diante.

Com tudo que foi escrito e para matar um pouco a curiosidade do leitor em relação à poderosa ação dramática e lirismo de Jean Genet, presentes nos diálogos do Balcão , e finalizar essa breve explanação, que não encerra de forma alguma o assunto e pretende ser apenas um estímulo ao leitor para a busca de um deleite mais demorado na leitura integral da peça, porque mais vale isso, sem dúvida, do que intermináveis discussões sem a sua leitura, passo a transcrever integralmente o Quadro II , já mencionado, como início aprazível do exercício de representação que evoca o teatro dentro do teatro, e as inter-relações possíveis entre os atores que representam atores que representam que estão representando pares/trios alegóricos (simbólicos) de uma sociedade decadente, através das relações de poder fantasiadas... Ufa! libertadas aqui na forma do Juiz, do Carrasco e da Ladra.