QUADRO II

Cenário:

Mesmo lustre. Três biombos, marrons.

Paredes nuas.

Mesmo espelho, à direita, no qual reflete-se a mesma cama desfeita do primeiro quadro.

Uma mulher, jovem e bela, parece algemada, punhos atados.

Sua roupa, de musselina, está esfarrapada. Os seios à mostra.

De pé, diante dela, o carrasco. É um gigante, nu até a cintura. Muito musculoso.

Seu chicote passa por detrás da fivela de seu cinto, pelas costas, como se tivesse um rabo.

Um juiz que, ao levantar-se, parecerá descomunal, também ele encompridado por andas, invisíveis sob seu traje, e o rosto maquilado, de bruços, rasteja em direção da mulher que aos poucos vai recuando.

A LADRA (estendendo o pé)

Ainda não! Lambe! Lambe primeiro...

(o juiz faz um esforço para arrastar-se mais ainda, depois levanta-se, penosamente feliz, vai sentar-se em um escabelo. A ladra, esta mulher acima descrita, muda de atitude e, de dominadora, torna-se humilde.)

O JUIZ (severo)

Então você é uma ladra! Foi surpreendida... Quem? A polícia... Você esquece que uma rede sutil e sólida, meus tiras de aço, controlam todos os seus gestos? Insetos de olhos vivos, montados em seus tentáculos, eles vigiam. A todas! E todas, prisioneiras, são trazidas ao tribunal... Que tem a declarar? Você foi surpreendida... Sob sua saia... (Ao carrasco) Passe-lhe a mão por debaixo da anágua, encontrará o famoso bolso canguru. (À ladra) Que você enche com tudo o que abafa sem nem escolher. Porque você é insaciável e neca de discernimento. Além disso, você é idiota... (Ao carrasco) Que é que tinha nesse famoso bolso canguru? Nesta enorme pança?

O CARRASCO

Perfumes, Senhor Juiz, uma lanterna, uma lata de flit , laranjas, vários pares de meias, ouriços, uma toalha, uma echarpe. (Ao juiz) O senhor está me ouvindo? Estou dizendo: uma echarpe.

O JUIZ (sobressaltando-se)

Uma echarpe? Ah, ah, então é isso. E para que a echarpe? Hein, para quê? Estrangular alguém? Responda. Estrangular quem? Você é uma ladra ou uma estranguladora? (Muito doce, implorando) Diga, meu bem, suplico-lhe, diga que você é uma ladra.

A LADRA

Sim, Senhor Juiz!

O CARRASCO

Não!

A LADRA

Não?

  O CARRASCO

Isso é para depois.

A LADRA

Hein?

O CARRASCO

Estou dizendo: a confissão tem sua hora. Agora, negue.

A LADRA

Para ser mais espancada?

O JUIZ (melífluo)

Justamente, meu bem: para ser espancada. Primeiro você deve negar, depois confessar e arrepender-se. De seus belos olhos quero ver jorrar a água morna. Oh! Quero que fique encharcada. Poder das lágrimas!... Onde está meu Código?

(Procura sob sua toga e pega um livro.)

A LADRA

Já chorei...

O JUIZ (finge ler)

À custa de pancadas. Quero lágrimas de arrependimento. Depois de vê-la molhada como um prado, estarei satisfeito.

A LADRA

Não é fácil. Ainda há pouco tentei chorar...

O JUIZ (deixando de ler, num tom semiteatral, quase familiar)

Você é bem jovem. É nova? ( Preocupado) Mas não é menor?

A LADRA

Não, não senhor...

O JUIZ

Trate-me de Senhor Juiz. Desde quando está aqui?