O CARRASCO

Desde ontem, Senhor Juiz.

O JUIZ (retomada do tom teatral e retomada da leitura)

Deixe-a falar. Gosto dessa voz sem consistência, dessa voz dispersa... Escute: é preciso que você seja uma ladra-modelo se quiser que eu seja um juiz-modelo. Falsa ladra, torno-me um falso juiz. Está claro?

A LADRA

Está, Senhor Juiz.

O JUIZ (continuando a ler)

Bem. Até agora tudo bem. Meu carrasco espancou com força... pois também ele tem sua função. Estamos ligados: você, ele e eu. Por exemplo, se ele não espancasse, como é que eu poderia impedi-lo de espancar? Portanto, deve bater para que eu intervenha e prove minha autoridade. E você, deve negar para que ele bata.

(Ouve-se um ruído: alguma coisa deve ter caído no cômodo ao lado. Em tom natural)

Que foi? As portas estão bem fechadas? Alguém pode nos ver e nos ouvir?

O CARRASCO

Não, não, esteja tranqüilo. Puxei o ferrolho.

(Vai examinar um enorme ferrolho na porta do fundo.)

E o corredor está interditado.

O JUIZ (em tom natural)

Tem certeza?

O CARRASCO

Posso garantir. (Põe a mão no bolso.) Posso dar uma tragada?

O JUIZ (em tom natural)

Fume, o cheiro de fumo me inspira.

(Mesmo ruído de há pouco)

Oh, mas o que está acontecendo? O que está acontecendo? Não posso ficar em paz? (Levanta-se.) Mas o que é?

O CARRASCO (seco)

Nada. Com certeza deixaram cair alguma coisa. É o senhor que está nervoso.

O JUIZ (em entonação natural)

É possível, mas é este nervosismo que me esclarece. Mantém-me acordado. (Levanta-se e aproxima-se do tabique.)

Posso olhar?

O CARRASCO

Apenas uma olhadela porque já está ficando tarde.

(O carrasco dá de ombros, pisca o olho para a ladra e esta faz o mesmo.)

O JUIZ (depois de ter olhado)

Está iluminado. Brilhando... mas vazio.

O CARRACO (dando de ombros)

Vazio!

O JUIZ (com uma entonação ainda mais familiar)

Você parece preocupado. Alguma novidade?

O CARRASCO

Esta tarde, pouco antes de sua chegada, três pontos estratégicos caíram em mãos dos revoltosos. Provocaram vários incêndios. Nenhum bombeiro acudiu. Tudo pegou fogo. O palácio...

O JUIZ

E o chefe de polícia? Deixando o barco correr, como de costume?

A LADRA

Há quatro horas que não temos notícias dele. Se conseguir fugir, certamente virá para cá. Está sendo esperado a qualquer momento.

O JUIZ (à ladra, sentando-se)

De qualquer maneira, que não tenha esperanças de atravessar a ponte da Rainha – explodiu esta noite.

A LADRA

Já sabíamos. Daqui, ouvimos a explosão.

O JUIZ (retomada do tom teatral; lê no Código)

Enfim, prossigamos. Assim, aproveitando-se do sono dos justos, aproveitando-se do cochilo, você avança, afana, abafa e arranca...

A LADRA

Não, Senhor Juiz, jamais...

O CARRASCO

Baixo a lenha?

A LADRA (gritando)

Arthur!

O CARRASCO

Que é que há com você? Não se dirija a mim. Responda ao Senhor Juiz. E me trate de Senhor Carrasco.

A LADRA

Está bem, Senhor Carrasco.

O JUIZ (lendo)

Prossigo: você roubou?

A LADRA

Roubei, sim, Senhor Juiz.

O JUIZ (lendo)

Bem, agora responda depressa, e corretamente: que mais roubou?

A LADRA

Pão, porque tinha fome.

O JUIZ (levanta-se e deixa o livro)

Sublime! Função sublime! Terei de julgar tudo isso. Oh, menina, você me reconcilia com o mundo. Juiz! Serei juiz de seus atos! É de mim que dependem a balança, o equilíbrio. O mundo é uma maçã, corto-a em dois: os bons e os maus. E você aceita, obrigado, você aceita ser a má! (De frente para o público) Estou diante de vós: mãos vazias, bolsos vazios, arranquem a podridão e joguem-na fora! Mas é um ofício penoso. Se cada julgamento fosse pronunciado com seriedade, me custaria a vida. É por isso que estou morto. Vivo nesta região da exata liberdade. Rei dos Infernos, peso os que estão mortos, como eu. Você está morta, como eu.