A LADRA

O senhor me dá medo.

O JUIZ (com muita ênfase)

Cale-se. Nas profundezas do Inferno, separo os humanos que por lá se aventuram. Uns para as chamas, outros para os campos de lilases. Tu, ladra, espiã, cadela, Minos te fala, Minos te pesa. (Ao carrasco) Cérbero?

O CARRASCO (imitando cachorro)

Au, au!

O JUIZ

És belo. E a presença de uma nova vítima te embeleza mais. (Levanta-lhe os lábios) Mostra tuas presas terríveis. Brancas.

(de repente, parece preocupado. À ladra)

Espero que não esteja mentindo. Você realmente praticou estes roubos?

O CARRASCO

Não se preocupe. Ela nem precisava pensar em não fazer. Eu a arrastaria até lá.

O JUIZ

Estou quase chegando. Continue. Que roubou?

(Subitamente, um crepitar de metralhadora.)

Isso não acaba nunca. Nem uma trégua.

A LADRA

Já lhe disse: a revolta dominou quase toda a zona norte...

O CARRASCO

Cale a boca.

O JUIZ ( irritado)

Vai responder-me, sim ou não? Quem mais roubou? Onde? Quando? Como? Quanto? Por quê? Para quem? – Responda.

A LADRA

Muitas vezes penetrei nas casas durante a ausência das criadas, passando pela escada de serviço... Roubava nas gavetas, quebrava os cofres das crianças. (Procura as palavras.) Uma vez, vesti-me de mulher honesta. Pus um taileur marrom, um chapéu de palha preto com cerejas, um véu e um par de sapatos pretos – de salto cubano – e, então, entrei...

O JUIZ (apressadamente)

Onde? Onde? Onde? Onde? – onde – onde? Onde entrou?

A LADRA

Não sei mais, desculpe.

O CARRASCO

Bato?

O JUIZ

Ainda não. (Á moça) Onde entrou? Diga-me, onde?

A LADRA (desorientada)

Juro, não sei mais.

O CARRASCO

Bato, Senhor Juiz, bato?

O JUIZ (ao carrasco e aproximando-se dele)

Ah! Ah! Seu prazer depende de mim. Gosta de bater, hein? Estou satisfeito, carrasco! Magistral amontoado de carne, quarto de lombo que uma simples palavra minha é bastante para fazer mover-se. (Simula mirar-se no carrasco.) Espelho que me glorifica! Imagem que posso tocar, eu te amo. Eu nunca teria força nem jeito para deixar lanhos de fogo em tuas costas. Aliás, que poderia fazer com tanta força e jeito? (Toca-o.) Estas aí? Estás aí, meu braço enorme, pesado demais para mim, grosso demais, gordo demais para meu ombro e que, sozinho, caminha ao meu lado! Braço, peso de carne, sem ti eu não seria nada... (À ladra.) Sem você também não, menina. Vocês são meus dois complementos perfeitos... Ah, que belo trio formamos! (À ladra) Mas você tem um privilégio em relação a ele; aliás, em relação a mim também: o da anterioridade. Meu ser Juiz é uma emanação de seu ser ladra. Bastaria que você recusasse a ser quem é – o que é, logo, quem é – para que eu deixe de existir... desapareça, evaporado. Estourado. Volatizado. Negado. Donde: o Bem proveniente do... Então? Então? Você não recusará, não é mesmo? Não recusará ser ladra? Seria errado. Seria criminoso. Você me impediria de ser! (Implorando) Diga, meu bem, meu amor, você não recusará?

A LADRA (dengosa)

Quem sabe?

O JUIZ

Como? Que está dizendo? Recusaria? Diga-me onde. E diga-me também o que roubou.

A LADRA (seca, erguendo-se)

Não.

O JUIZ

Diga-me onde. Não seja cruel...

A LADRA

Não me chame de você, sim?