
O JUIZ
Senhorita... Senhora. Peço-lhe. (Ajoelha-se) veja, suplico-lhe. Não me deixe nesta posição, esperando para ser juiz. Se não houvesse juiz, onde iríamos parar? Mas se não houvesse ladrões...
A LADRA (irônica)
E se não houvesse?
O JUIZ
Seria terrível. Mas a senhora não fará isto comigo, não é? Que não existam! Compreenda: que você se esconda tanto tempo quanto puder e meus nervos agüentarem por trás da recusa de confessar; que, maliciosamente, você me faça perecer, tripudiar, se quiser, agitar, babar, suar, relinchar de impaciência, rastejar... quer que eu rasteje?
O CARRASCO (ao juiz)
Rasteje!
O JUIZ
Sinto-me orgulhoso!
O CARRASCO (ameaçador)
Rasteje!
(O juiz, que estava ajoelhado, deita-se de bruços e rasteja suavemente em direção à ladra.
À medida que avançar rastejando, a ladra recusará.)
Está certo. Continue.
O JUIZ (à ladra)
É justo, sua tratante, fazer-me rastejar em busca de meu ser de Juiz, mas se você recusasse definitivamente, seria criminoso, sua safadinha...
A LADRA (altaneira)
Trate-me de senhora e queixe-se polidamente.
O JUIZ
Obteria o que desejo?
A LADRA (coquete)
Custa caro roubar.
JUIZ
Eu pago! Eu pago o que for preciso, minha senhora. Porque se não tivesse mais que separar o Bem do Mal, para que serviria eu? Responda.
A LADRA
É o que me pergunto
O JUIZ (infinitamente triste)
Há pouco ia ser Minos. Meu Cérbero latia. (Ao carrasco) Você se lembra? (O carrasco interrompe o juiz fazendo estalar o chicote.) Como você era cruel, mau! Bom! E eu, impiedoso. Ia encher os Infernos de condenados, encher as prisões. Prisões! Prisões! Prisões, calabouços, lugares abençoados onde o mal é impossível porque são a encruzilhada de toda a maldição do mundo. Não se pode cometer o mal no mal. Agora, não é condenar o que mais desejo, é julgar...
(Tenta reerguer-se.)
O CARRASCO
Rasteje! E rápido, que tenho de me vestir.
O JUIZ (à moça)
Minha senhora! Minha senhora, aceite, peço-lhe. Estou pronto a lamber seus sapatos com minha língua, mas diga-me que é uma ladra...
A LADRA (num grito)
Ainda não! Lambe! Lambe! Lambe primeiro!
(O cenário se desloca da esquerda para a direita, como no fim do quadro precedente, e penetra nos bastidores da direita. Ao longe, crepitar de metralhadoras.)
O Balcão: Sinopse
A peça desenvolve-se em nove quadros, em um bordel de luxo chamado “Grande Balcão”, onde os freqüentadores satisfazem suas mais secretas fantasias de sexo e poder, representando as figuras que compõem a simbologia da sociedade detentora da ordem, que está prestes a ser ameaçada por uma revolução que pretende tomar conta do Reino.
Madame Irma, dona da “casa das ilusões” prepara, junto de Carmem, sua assistente e “menina predileta”, os salões, palcos das fantasias requeridas por seus clientes, providenciando rigorosamente os apetrechos cênicos de cada farsa a ser realizada. Assim, um homem finge-se de Bispo e confessa uma prostituta que finge ser uma pecadora arrependida; outro simula um General que amará seu “cavalo favorito”, uma das meninas do bordel; um Juiz representado julga uma ladra representada, com auxílio de um igualmente Carrasco simulado e assim por diante.
Em cada Salão vemos o desenrolar das fantasias dos freqüentadores, enquanto Madame Irma supervisiona tudo através de espelhos ou pequenas vigias nas paredes. Os fregueses contam para as prostitutas detalhes da revolta que se segue, enquanto Madame Irma espera pelo seu amante, o Chefe de Polícia, que pode defendê-las de um possível ataque revoltoso, já que o Grande Balcão serve à ordem estabelecida, uma vez que consolida a imagem das figuras dominantes na imaginação do povo que procuram o bordel para fantasiá-las.
A revolta segue em frente, Chantal, uma das “meninas” se apaixona por Roger, líder da rebelião e passa para o lado dos revoltosos, chegando a ser, por eleição dos revolucionários, o símbolo da Revolução. Diante do contra-ataque da ordem estabelecida, são convocadas as figuras do bordel: os falsos Bispo, General, Juiz desfilam para o povo, liderados por uma falsa Rainha, Madame Irma. O Chefe de Polícia decide que o símbolo que irá representá-lo perante o povo será um pênis gigante.
A revolta é subjugada, Chantal é assassinada e Roger, o líder, acaba por entregar-se às fantasias do Grande Balcão, inaugurando o Salão Funerário, para representar o Chefe de Polícia, enquanto este, satisfeito, encarcera-se no mesmo salão, suprido de comida para dois mil anos.
Madame Irma, após mais um dia de serviço, com a revolta subjugada, apaga as luzes do bordel, para descansar e recomeçar tudo na noite seguinte, alertando a platéia para voltarem às suas casas “ onde tudo, não duvidem, será ainda mais falso que aqui ”. A seguir, uma rajada de metralhadora anuncia que a revolta recomeça e a peça termina.
Notas:
[1] Teatro Vivo. Jean Genet: O Balcão. São Paulo: Abril Cultural, 1976.
[2] Idem
[3] Como representar o Balcão . Teatro Vivo. Jean Genet: O Balcão. São Paulo: Abril Cultural, 1976.
[4] Idem
[5] Tradução de Jaqueline Castro e Martim Gonçalvez. Teatro Vivo. Jean Genet: O Balcão. São Paulo: Abril Cultural, 1976.
Cynthia Elias Taboada
Licenciada em Artes Cênicas e Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da UNESP, pesquisadora de iniciação científica como Bolsista Fapesp, estudando sobre cultura popular e cultura alternativa, com publicação em Revista de Iniciação Científica e Menção Honrosa em Congresso Universitário. Arte-educadora, tendo trabalhado com exposições de arte em vários museus e centros culturais. Atualmente cursando Especialização em Museologia na USP.
cynthia_eliastaboada@hotmail.com