Um nome - Marcelo Maluf

Abriu os olhos. Tudo estava escuro, esticou os braços e acendeu a luz. Fazia calor e o corpo de Lucas vertia água. Foi até a pia, abaixou a cabeça e girou a torneira com força, a água lavava da mente o pesadelo. Sonhara com um amor, um verdadeiro amor. “Foi só um pesadelo, só um pesadelo”, repetia tentando se convencer de que o amor verdadeiro não existia.

Não conseguira dormir, o calor e o medo de sonhar novamente o impediram. Lucas apanhou duas almofadas e encostou-as a parede, puxou um livro da estante, era A Metamorfose de Kafka. Passou a madrugada submerso no infortúnio de Gregor Samsa. Involuntariamente um nome lhe vinha à cabeça: Cristina. Entre as suas antigas namoradas não havia nenhuma cujo nome fosse Cristina. Também não conhecera nas últimas semanas nenhuma mulher que carregasse a letra C no primeiro nome.

Assim que o despertador tocou, um raio de sol cruzou a fresta da janela. Eram seis e meia da manhã, Lucas abriu a torneira do chuveiro e a água precipitou veloz e barulhenta. Mergulhou o corpo nu na água fria e deixou que quase congelasse. Secou o corpo numa toalha branca que ganhara da avó materna e pela primeira vez pôde perceber a consoante bordada:C.

Não sentou a mesa para beber o café, apenas pegou um pão e, como um cachorro, carregou-o pela boca e foi para o colégio. Atrasado, entrou correndo na sala com os cabelos molhados e arfando. Os seus alunos lhe deram bom dia e no quadro negro um gigantesco C o atormentou. Lucas pensou que aquele talvez não fosse o seu melhor dia; ficara toda manhã ouvindo uma voz lhe ditar um nome que ele não ousara repetir em voz alta. Alegando sofrer cefaléias múltiplas pediu ao diretor que o dispensasse.

Pensou tomar um porre, mas não sucumbiu à tentação da cachaça. Subiu no lotação e com os olhos fixos em seus olhos, o cobrador lhe disse: - Cristina. Pensou ter confundido a voz do cobrador com a voz dentro de si a lhe ditar o nome Cristina. Sentou-se num dos bancos e o passageiro ao lado, como se lhe dissesse boa tarde, disse-lhe: - Cristina. Todos a sussurrar as suas monótonas melodias diziam Cristina. Cristina. C r i s t i n a. Traziam apenas este nome em seus lábios. Lucas desesperou-se e rapidamente desceu do lotação como quem escapa de uma emboscada, respirou tranqüilo, os olhos fixos no céu; as nuvens desenhavam C, o outdoor eletrônico escrevia: Cristina.

Enfim em sua casa, deu leite para o gato que miava desesperado, ligou o som e pôs-se a ouvir a Ária na quarta corda de Bach. Foi ao banheiro, girou a torneira da pia e lavou o rosto com sabonete, deixou que a água escorresse sobre a sua nuca como mãos femininas a lhe fazer carícias. Pegou uma toalha seca no armário e enxugou o rosto úmido, olhou-se no espelho e sentiu o cheiro de um perfume doce que subia do seu próprio corpo, penteou-se com calma e malícia, e enquanto marcava os olhos com delineador, ouviu uma voz: - Cristina.


Marcelo Maluf é escritor, mestrando em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp e integrante da Banda Performática, liderada pelo artista plástico José Roberto Aguilar.
pinottimaluf@ig.com.br