

Diomedes sobreviveu. Não foi por minha vontade nem por vontade de seu autor. Sobreviveu porque ganhou vida na imaginação de seu autor, Lourenço Mutarelli, e de maneira fantástica passou a agir por si próprio.
Ao final do primeiro livro com o detetive Diomedes, o autor o deixa abandonado e fracassado, com uma incógnita sobre seu futuro. O fracassado plano de partir em busca do mágico Enigmo foi apenas um pretexto para que o protagonista enfrentasse a si mesmo, a sua verdade. Missão esta que conduzirá Diomedes nos próximos dois livros da trilogia.
“Lourenço consegue manter a ótima qualidade e, pelo caminho mais difícil, o da originalidade, imprimindo um ritmo novo e como sempre revolucionário da linguagem”. É assim que o editor Gualberto Costa, um dos criadores do HQ-MIX, um dos mais importantes prêmios para os quadrinhos nacionais, vê o livro do detetive Diomedes para o mercado de quadrinhos no Brasil.
De fato, explorando sua capacidade para construção narrativa e diálogos rápidos, neste segundo volume da trilogia Mutarelli criou uma história de aventura margeada por citações existencialistas; a visão crítica do artista continua a ser proferida, só que agora de forma ainda mais madura e eloqüente, por seus personagens.
Na abertura do segundo volume da trilogia com o detetive, o autor consegue ampliar a familiaridade do leitor com seu personagem mudando o discurso. Diomedes passa a ser o narrador, fato que parece humanizar ainda mais seu personagem. Em O Dobro de Cinco, o personagem Diomedes tinha um traço caricatural. Com o desenvolvimento da história o autor amadureceu o desenho, tornou-o mais realista e passou a fazer desenhos de observação de lugares que seus personagens poderiam freqüentar. Neste livro, o autor fortalece também a personalidade do detetive e seus coadjuvantes são muito bem construídos para dar o contraponto ao protagonista. Germano Cale é o personagem que traz a nova missão para o detetive, descobrir um assassino de casais, é cruel e desumano. Waldir é o personagem de boa índole que serve para acentuar os defeitos de Diomedes.
Para fundamentar o argumento, o autor usou como referência o escritor Glauco Mattoso, que também aparece como personagem, na tentativa de dar maior veracidade à história. Com mais personagens em cena, o autor pôde trabalhar ainda mais seus excelentes diálogos que favorecem o dinamismo da história. Cada personagem foi muito bem estruturado em sua personalidade, fato que enriquece a qualidade literária desta ficção.

Lourenço Mutarelli
As seqüências de ação parecem ter sido muito bem planejadas e seu resultado gráfico é primoroso. O autor mostra respeito para com a linguagem dos quadrinhos e tal respeito é visível no resultado gráfico de suas páginas, muito bem pensadas e cuidadosamente finalizadas, com um desenho que parece melhorar ainda mais com seu amadurecimento constante. Os cenários continuam imprescindíveis para a ação dos personagens, o clima é urbano e sufocante, contribuindo para mostrar a visão do autor da decadência da espécie humana.
Como o próprio autor revela na introdução de sua coletânea, Seqüelas, desenhar com nanquim é como dominar um animal selvagem. Neste livro, Mutarelli parece conseguir o efeito que deseja para preencher suas páginas brancas.
Uma outra característica importante para aumentar o efeito dramático de algumas cenas foi a utilização de humor. O personagem Diomedes passa a ter o hábito de contar piadas e usar frases de efeito. Tal artifício o humaniza ainda mais e aumenta o potencial das cenas dramáticas. Assim como a tinta preta evidencia o branco do papel, o humor parece reforçar a melancolia que permeia a história.

Na seqüência final, como em O Dobro de Cinco, Diomedes está machucado e derrotado. O herói foi vencido e parece começar a adquirir consciência de sua solidão. A dúvida, o infinito, o começo e o fim, dualidades existenciais presentes nos roteiros do quadrinhista são questões angustiantes que definem sua temática. A dualidade é sempre marcante em suas obras: sem heróis ou grandes vilões, apenas materializa o lado bom e o ruim de tudo que viver proporciona ao ser humano. A inconsciência de tal dualidade pode ser ainda o que motiva a existência de pequenos momentos felizes. Tudo indica que para Mutarelli, a felicidade é apenas uma ilusão existencial.
De forma mais metafórica, o autor continua a fazer dos quadrinhos a bandeira de seu discurso existencialista, uma catarse para suas angústias diante da vida. Em suas histórias, o final nunca pode ser feliz, tudo não passa de uma grande distração, enquanto se aguarda pelo fim. Ler um livro, ver um filme, ouvir música, ler quadrinhos, ou qualquer outra experiência estética são formas de distração, armadilhas para preencher o vazio e a solidão que acompanham a história da humanidade. Neste clima melancólico Diomedes continua sua procura pelo mágico Enigmo, porém seu destino lhe reserva uma amarga recompensa: ele se encontra a sós consigo mesmo.
Lucimar Ribeiro Mutarelli
Professora de História da Arte, Mestre em Comunicação pela USP.
Defendeu em 2004 a dissertação de mestrado: Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura . Orientação do Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro ECA/USP
lumutarelli@terra.com.br