

Truman Capote
Ao longo da história contemporânea, foram muitas as tentativas de estreitar as relações do jornalismo com a literatura. Muitas delas fracassaram pelo excesso de literatices, pela excessiva estetização do texto, e o resultado dessas experiências era algo indefinido: nem jornalismo, nem literatura [1]. Outras, porém, foram bem sucedidas, das quais a mais famosa foi o new journalism, ou “novo jornalismo”, cujas técnicas, mesmo não sendo mais utilizadas com tanta freqüência atualmente, ainda despertam atenção e curiosidade.
O new journalism foi criado pelo escritor e jornalista norte-americano Truman Capote [2] em 1956, quando da publicação da reportagem-perfil do ator Marlon Brando pela revista New Yorker, intitulada “O duque em seus domínios”. A “perfeita tradução da reportagem como gênero literário” seria a essência dessa nova “escola”. O objetivo era dar um enfoque mais imaginativo e lírico à reportagem, permitindo ao jornalista inserir-se na narrativa sem alterar a realidade da notícia sobre a qual trabalhava. Seus praticantes postularam que o jornalista não seria um mero observador e transmissor dos fatos, mas uma verdadeira personagem nas situações que descreve, “um romancista da realidade que conta histórias”. Assim, saía de cena, ao menos momentaneamente, o repórter-técnico, que escrevia a notícia viciosamente, seguindo os padrões dos manuais de redação, dando lugar ao “repórter-escritor”, aquele que explora a sensibilidade do estilo próprio ao transmitir a notícia.
O new journalism está ligado ao surgimento da contracultura nos Estados Unidos. Para João Maria R. Mendes, o novo jornalismo testemunhou a presença, na mídia, de expressões como o idealismo racional e a exacerbação poética. No plano da narrativa, o jornalismo adquiriu as feições de um discurso crítico e interventivo social e politicamente, acompanhado da rebeldia contra a obliteração dos sujeitos do discurso vigentes até então na narrativa midiática.

Norman Mailer
Além disso, com a progressiva queda de vendas dos grandes jornais, devido à concorrência direta com a emergente televisão, algumas regras, códigos e normas gerais da grande imprensa são postos em causa. Segundo Mendes, é curioso constatar que, face à força do discurso televisivo, a imprensa tenha sentido necessidade de regressar a um convívio mais íntimo com a literatura, aproximando-se, novamente, do jornalismo praticado no século XIX e início do século XX. A causa desse retorno seria a proximidade de significação dos conceitos “liberdade de imprensa” e “liberdade de opinião”, com a qual se justificou a procura de “novas dramatizações da narrativa noticiosa”: com a maior liberdade para a subjetividade do jornalista, o texto de jornal volta a ser intitulado “texto de autor” e a matéria-prima da notícia se transforma (ou se remodela) em elementos de “intriga de novelas jornalísticas”.
Muitos escritores produziram e ainda produzem alguns textos para jornais: crônicas, artigos ou mesmo algumas reportagens. Foi o caso do inglês Charles Dickens, do americano Hernest Hemingway, do brasileiro Euclides da Cunha, e dos escritores ainda vivos Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. O estilo de reportagem inaugurado por Capote era algo bastante novo, embora fosse um pioneirismo difícil de ser determinado, pois conferir uma forma literária ao texto jornalístico é uma atitude que encontra adeptos desde muitos séculos atrás. “Talvez o gênero seja tão velho quanto a imprensa”. (Clarke em Novo Jornalismo, 2000) É provável que a maior diferença do jornalismo praticado por aqueles escritores e as reportagens de Capote, Norman Mailer e Tom Wolfe é que estes elaboraram e “padronizaram” um projeto estilístico de unir jornalismo e literatura, como Capote explica no prefácio do livro Os cães ladram:

Tom Wolfe
Era minha opinião que a reportagem poderia ser uma arte tão elevada e requintada quanto qualquer outra forma de prosa — o ensaio, o conto, a novela (...) Minha idéia foi a seguinte: qual o nível mais baixo da arte jornalística, o mais difícil de transformar de uma orelha de porco em uma bolsa de seda? A “entrevista” com astros do cinema, no gênero Silver Screen: por certo nada seria mais difícil de enobrecer do que aquilo! (Capote em Novo Jornalismo, 2000)
Foi então que ele escolheu Marlon Brando para iniciar suas experiências. Naquele mesmo ano, Capote também publica na mesma New Yorker uma reportagem sobre a excursão de uma companhia de teatro americana à União Soviética. O “novo-jornalista” anotava todos os fatos, mas também inventava cenas: descrições acuradas de ações e espaços, personagens reais expressos com a sutilidade do romance, diálogos e observações na primeira pessoa do singular. (Novo Jornalismo, 2000)