Sobre armas & poesia - Sandro Eduardo Saraiva

A poesia escapuliu das páginas do livro e veio de encontro com a sonoridade, resgatando sua tradição oral. Por sua vez a música descobriu a assonância, a aliteração, a rima e a prosódia, fugindo da partitura convencional. Mais do que isso, a poesia desceu do pedestal, derrubou as portas de aço dos gabinetes e veio ter na rua, direto na veia. Invadindo cabeças & corações, destruindo o status quo, entornando o caldo da caretice.

Pré-lançado em agosto, no evento “Outros Bárbaros”, Rebelião na Zona Fantasma , cd do escritor e poeta Ademir Assunção, transita pela fronteira indefinível que existe entre a música e a poesia, num trabalho orgânico, verdadeira miscelânea de linguagens. Na 17ª edição da Etcetera já havíamos dado uma palhinha do cd que foi gravado de maneira independente, financiado com grana do próprio bolso, sem contar com leis de incentivo ou qualquer tipo de apoio cultural. Rebelião na Zona Fantasma prima tanto pela qualidade técnica da gravação quanto pelo capricho do encarte, contando com desenhos do cartunista Paulo Stocker. Agora o que salta aos olhos, e ouvidos, é o teor transgressivo da obra, pontuado pelo alto grau de criação e experimentação.

Outros Bárbaros

“Outros Bárbaros” foi um projeto idealizado por Ademir Assunção para levar a poesia aos palcos. A primeira edição, espero que aconteçam outras, contou com a participação de vários poetas que também mostraram a ligação entre poesia e música em seus trabalhos. Marcelo Montenegro apresentou seu “Tranqueiras Líricas” numa espécie de jam session poética, já Ricardo Aleixo mostrou um interessante diálogo entre poesia,

foto: Edinho Kumasaka

Ademir em apresentação
no projeto Outros Bárbaros

música, dança, vídeo e artes plásticas numa tradução intersemiótica de seus poemas. Chacal, que desenvolve esse tipo de experimentação em seu CEP 20000 há anos, levou voz e guitarra ao palco do Itaú Cultural. O evento contou ainda com Celso Borges, Frederico Barbosa, Artur Gomes, Rodrigo Garcia Lopes, além da poesia'n'blues do próprio Ademir, que aproveitou a ocasião para desembainhar seu Rebelião na Zona Fantasma . Esse projeto representou um pequeno marco, e um grande passo, para a revigoração da poesia brasileira, que anda adormecida, ensimesmada e acometida de um enorme mutismo.

Zona Fantasma

Afinal, o que é a Zona Fantasma? Ademir parece ter tirado esse título do seu livro de poesia Zona Branca , onde escreveu o manifesto de mesmo nome. Trata-se de um “ presídio de segurança máxima para onde são enviados os rebeldes, dissidentes e arruaceiros. A vida ali é um inferno. Não pensem em uma penitenciária convencional, com grossas paredes, grades e portões de ferro ou altas muralhas guardadas por policiais fortemente armados e com incontrolável instinto sádico. Nada disso. Trata-se de algo muito mais sombrio e sofisticado: uma área de deslocamento, em outra dimensão do espaçotempo, onde os presidiários são submetidos à incomunicabilidade total, embora possam ver em detalhes tudo o que está acontecendo em torno deles, no chamado mundo real. Um território de isolamento absoluto, concebido pelo gênio de cientistas inescrupulosos, financiados por grandes empresas transnacionais.” Pensou em algum livro de Kafka ou num filme de ficção científica de Tarkovsky? Nada disso, na Zona Fantasma “os que conseguem manter a lucidez assistem incrédulos ao espetáculo de degradação criado por poderes nem sempre identificáveis com facilidade. Daquela área de exclusão, em uma outra camada do espaçotempo, testemunham a cooptação de muitos artistas, transformados em celebridades e burgueses decadentes. Percebem a grosseira manipulação de fatos e idéias, responsável pelo ostracismo de criadores brilhantes e pelo sucesso de clones descartáveis. Atormentam-se pela visão das hordas de miseráveis que se humilham, matam e morrem nos semáforos e nos becos mal iluminados. Praguejam contra o império da publicidade e da ignorância.” Qualquer semelhança com a realidade não terá sido mera coincidência. Ademir Assunção consegue com habilidade ímpar fazer uma apreensão da realidade muito mais ampla que qualquer autor que se pretende realista, quem ler os seus Adorável Criatura Frankenstein e A Máquina Peluda saberá do que estou falando. E claro que isso se reflete em sua poesia e também nesse cd.