
A música da poesia da poesia da música
Além de produzirem e criarem os arranjos, Ademir Assunção e Luiz Waack assinam a direção musical do disco, que traz também arranjos de Madan e Ricardo Garcia. Os quatro formam a banda junto com Mintcho Garramone e Eduardo Batistella e contam ainda com a participação em algumas faixas de Daniel Szafran no piano e Celso Reis no violino. Todos os poemas são de Assunção e foram publicados nos livros LSD Nô , Cinemitologias e no já citado Zona Branca .
A primeira faixa é “Homem Só”, que começa com o violão de aço e slide de Luiz Waack, viagem bluseira com contornos árabes, levando-os a paragens desérticas. Aqui Ademir fala de solidão, a solidão da humanidade, sua solidão e, sobretudo, a solidão do poeta. E não é esse um ofício solitário por natureza, pelo menos no momento da criação? Começo mais do que coerente.
Em seguida “Escrito a Sangue” vem com um poema com uma estrutura musical pronta, próximo mesmo da canção, onde se permite a voz cantada de Madan. A referência a Nietzsche no título (“De tudo aquilo que é escrito, me faz gosto de fato apenas aquilo que alguém escreve com sangue. Escreva com sangue e haverás de experimentar que sangue é espírito”) não é gratuita e já dá o tom de todo o cd.
“E Então” é um poema-porrada, acertadamente demarcado por um blues arrasa quarteirão. “E então? Você já ouviu Itamar Assumpção? / Já teve coragem de dizer não?”, isso diz muito sobre Rebelião na Zona Fantasma , tanto nas referencias à resistência da cultura negra que permeiam todo o cd, daí o blues, os tambores, o rap e claro, Nego Dito Beleléu, como na idéia de renúncia e crítica a sociedade contemporânea, onde talvez a poesia, por sua natureza imensurável, e o poeta sejam os porta-vozes ideais do descontentamento, foco de resistência e rebelião.
“Nada Demais” tem a participação mais do que especial de Edvaldo Santana, malaco que está na estrada há um tempão (pobres diabos daqueles que ainda não ouviram falar do cara). Com uma estrutura que se aproxima do rap, o poema diz que “houve um tempo torto/ um certo tempo atrás / letras sílabas palavras / não explodiam mais / não explodiam mais nada / e todo o tempo era nada”. Do que se está falando? Ora, da Zona Fantasma, tempos bicudos meu chapa!

O poeta no palco com o poema
“Noite & Dia” projetado no fundo
Uma das melhores definições a respeito da poesia de Ademir Assunção foi a do poeta Sergio Mello quando escreveu que o mesmo parecia andar com uma caixinha de música num bolso e um soco inglês no outro. Depois de verdadeiros diretos de esquerda Ademir abre sua caixinha cheia de lirismo e traz as delicadas “Noite & Dia” e “Câmera Indiscreta”, essa última com o luxuoso auxílio de Zeca Baleiro.
Na seqüência volta a desafinar o coro dos contentes com “O Espinho no Dedo de Deus”: “eu rio, rio de janeiro, eu rio / eu rio todos os risos que me fazem chorar”, uma levada meio bossa entrecortada pela guitarra bluseira e viajante de Luiz Waack, mais uma vez o poeta faz associações à resistência da cultura negra nos versos: “meu santo é negro / e no peito tenho um bicho preto / com garras de pantera e olho de gavião”.
“O Coisa Ruim” tem introdução com tambores que lembram ponto de macumba, seguidos por uma percussão suingada, Ricardo Garcia é quem dá o tom. Nos versos cheios de revolta e inconformismo Ademir incita a rebelião e define: “eu sou o que sangra / um poeta nato”.
Em “Ratos”, belíssimo texto, fala-se de mortos-vivos, esses mesmos que perambulam incólumes feitos zumbis enquanto o sol escapa na cinzenta Zona Fantasma. Definitivamente Ademir Assunção está bem acompanhado, vide a interpretação de Madan nesse poema-canção. Versos de Lou Reed, poeta que canta o lado sujo das ruas, são entoados no final. Hey honey, take a walk on the wild side!
Não bastasse a participação de Waack, ex-integrante da Isca de Polícia, banda que acompanhava Itamar Assumpção, em “A Lira no Lixo” Ademir presta novamente homenagem a um dos períodos mais criativos e poéticos da música brasileira, a vanguarda do Lira Paulistana. Tendo o poema incidental “Rupestre” como abertura, reflexo da sociedade sobre o poeta, e um rock estilo Patife Band entre as assonâncias, prosódias e aliterações do texto, o autor evoca Arrigo Barnabé do lendário Clara Crocodilo na inflexão vocal da última estrofe, dando à faixa um desfecho matador.
Não sei se em um disco de poesia é possível se falar em hit, mas eu considero “Pó” o grande hit deste Rebelião na Zona Fantasma. Esse poema era pra tocar no rádio, se as nossas rádios fossem sérias é claro, sim, porque pra mim poesia tem mais é que estar no rádio, na televisão, no teatro, na música, no cinema etc. “Pó” tem aquela pegada que te sacode logo de cara, que chega às pessoas, o poema é carregado de estrutura musical e simplicidade, não aquela simplicidade fácil e esvaziada de recursos, não, simplicidade aqui significa clareza, exatidão, verdade. Você acredita no que está sendo dito, sacou? Talvez esteja resumidamente explicada nessa faixa a vontade de Ademir em gravar esse cd, o texto diz muito sobre o poeta numa sociedade alicerçada pelo poder econômico, onde supostamente não há mais espaço para a poesia, eterno outsider, excluído, “negro, bicha e louco”.

Ademir Assunção: poesia
transgressora
Finalizando esse verdadeiro petardo, “Tantas Pontas” fala da “manhã chegando”, “flores florindo”, “gatos na neblina” e encerra: “pra que juntar os trapos, dar o fora?”. Quando se pensa que acabou, depois de alguns segundos, ouve-se uma vinheta, repete-se num eco “prendam o poeta / é negro bicha e louco” seguido da risada marota pra cacete de uma criança, na verdade tudo está apenas começando. É a poesia, gigante adormecido, que desperta. No fundo da caixinha do cd dá pra ler “e ainda dirão que somos lunáticos, até o céu começar a cair”. Não precisa dizer mais nada .
Pois é camaradas, tocaram fogo na Zona Fantasma, a rebelião já começou, logo vai bater à sua porta, sem nenhum otimismo babaca ou esperançazinha comprada em butique, mas viva e pulsante como deve ser. Revólver na cara.
Sandro Eduardo Saraiva
Editor da Etcetera – revista eletrônica de arte e cultura e do e-zine [sub].
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