A genealogia da privada - Ezio Flavio Bazzo

Quem é que por mais puritano e asséptico que seja, não tem uma relação estreita e íntima, todos os dias, com aquilo que os ingleses conhecem por turd; os italianos, por stronzo; os alemães, por dreck; os célticos, por stronc; os franceses, por merde; os espanhóis, por mierda; e os portugueses, juntamente com os brasileiros, por merda ou por bosta?

A idéia desta «obra» é fazer um pouco de história das toilettes e um pouco de toilette da história. Isto é, de cruzar os caminhos que a humanidade percorreu para consolidar os conceitos e os pré-conceitos que tem hoje, e que talvez tenha tido sempre, dessa massa parda e fumegante, dessa "coisa" que, mesmo sendo valiosa como adubo e amada pelos coprófagos, esteticamente não agrada e, pelo contrário, tem provocado depressões e tristezas incuráveis.

Poderia tê-la intitulado de maneira mais "simples": "O cotidiano e a merda", por exemplo. "As acrobacias intestinais dos terrestres"; "rituais e segredos da privada", ou mesmo "A lírica do estrume". Mas não. Quis propositadamente dar a im­pressão de ser um esnobe, um excêntrico, e de estar fazendo um ensaio acadêmico, embora até um cego perceba, de cara, que não estou. E não estou porque não teria fôlego para passar tanto tempo sob a mira dos carcereiros da Sorbone, e muito menos sob a prepotência dos sábios de Francfort. Uma parte de meu sujeito, como se verá mais adiante, é a guilhotina, mas o núcleo central de todo raciocínio será a Merda, e não apenas aqueles que a produzem. Apesar de que, evidentemente, gostaria de dedicar uma tese só a intimidade escatológica de Napoleão e de divulgar uma ou duas de suas fotos em seu Waterloo. Faria o mesmo, e mais prazeirosamente ainda, com Marie Antoinette, sentada sobre sua luxuosa pri­vada monárquica e com outros "sofomaníacos" menos ilustres, com suas empáfias sórdidas.

Além da guilhotina, dessa máquina de cortar cabeças, que funcionou aqui na França até meados de 1981, estas páginas tratam objetiva e subjetiva­mente, do esterco, dos resíduos e da merda, exatamente como ela existe in-natura dentro das tripas dos homens, das mulheres e das crianças. Também tratam de sua presença na retaguarda dos séculos, no esquecimento som­brio e lúgubre dos milênios, no ontem e no hoje, assim como da negação social de sua existência e das estratégias psicológicas e arquitetôni­cas dos homens (mas muito mais das mulheres) para ignorá-la, para torná-la ignota, e fazê-la de­saparecer tanto da consciência como da latrina, com a simples pressão no botão da descarga. Tratam do jogo quase maníaco montado pelos homens para fazer de conta que tudo o que in­gerem é absorvido na íntegra, transformado em energia vital, em neurônios, músculos e potência. Mas não é. Todo mundo sabe que não é. Que existem os resíduos e o bagaço até dos melhores e mais sofistica­dos ali­mentos, dos mais caros menus que se pode saborear nos luxuosos restaurantes de Montmartre ou de Champs Élysée. E é a deposição e a excreção desses resí­duos, no silêncio e na solidão das pri­vadas, duas vezes por dia, durante toda a vida que fragiliza a vaidade humana, que provoca um tipo de psiquialgia e que torna a existência um enigma ainda mais assustador.

Mas para entender que tudo já foi muito pior, basta lembrar que a invenção das toilettes, das privadas, do papel higiênico etc, aconteceu prati­camente ontem, e que, evidentemente, significou uma revolução e um verdadeiro avanço no cotidiano íntimo da humanidade. Pois houve tempos, todos sa­bemos, depois que os homens cairam no sedenta­rismo, em que esse bagaço era excretado em qualquer lugar. Ao lado do catre, junto às panelas, so­bre palhas, sobre folhas de bananeira. Houve tempos -repito-, em que se cagava nas próprias mãos, e então a merda era jogada a ermo, para ser comida por algum animal "inferior", e para que seu odor putrescente não incomodasse àquele ou àquela que o havia produzido . Os urinóis de madeira, alumínio ou de louça, também vieram atropelar essa realidade e facilitar a aventura do isolamento, e adquiriram tanta importân­cia, que Lênin, o «deus» Lênin, em um de seus discursos aos bolcheviques, ga­rantiu que o socialismo iria possibilitar ao povo ter até mesmo urinóis de ouro. Hoje, por incrível que pareça, o povo cuspiu sobre seu esqueleto e na URSS, os bolche­viques, por pouco, não voltaram a cagar nas escadarias do Kremlin.

Quem for ao Museu Carnavalet, no Marais, pode ver lá, entre o mobi­liá­rio de personalidades ilustres francesas, al­gumas amostras desses reservatórios e desses recipientes fecais, desses "capacetes" que amanheciam trans­bordando e cujo conteúdo, na Paris de 1800 (como no Nepal de hoje), era arremessado vigorosamente pelas janelas. Em todos os extremos da terra, historicamente a merda aparece como um símbolo: “símbolo como o milho, o sexo, o fogo, o ouro, a chuva, o sol, a casa, a esteira e o bastão plantador. Como o punho fechado que pode gritar ameaças, vontade de esperança ou saudação fraterna” (Austin, p. 85). A idéia de pintar dois olhos no fundo dos primeiros penicos «pots de chambre», não teve nada a ver com os dois olhos de Buda pintados na cobertura dos templos em Kathmandu, mas sim com uma ironia popular contra o Ministro e cardeal francês, Mazarin, que tinha fama de es­pionar tudo o que se passava na Corte.

Vasos de louça; papel higiênico; óleo de Rícino; Constipação, yoga para prisão de ventre; hemorrói­das; serin­gas para "clystère", cólicas. Trinta dias de expectativas e três de caganeira. Supositórios, odores, o milagre do Aloés, da Hydroterapia, do suco de ameixas. As letras, a filosofia, a polí­tica e a impossibilidade de soltar a merda.

Camisa de Vênus, folhetins ensinando como "ir aos pés", o cheiro da merda e a ereção. Toilettes públicas como lugares de rendez-vous; mural de lunáticos e de pensadores tímidos. Velhinhas limpando o mijo nos ladrilhos e os resíduos escuros que se grudam nas laterais do móvel. Voltaire, o sábio que passava dias sem cagar. Os grafitos; a inspiração impávida, solitária, revolucionária e niilista… O vaso como suposto transmissor da sífilis, da gonorréia e da AIDS e até mesmo da gravidez. Mas tudo é fruto de um imaginário domes­ticado pela vergonha, pelo preconceito e pelo medo, como o demonstram as privadas das escolas primárias, com suas portas que deixam aparecer a cabeça e os pés, para assim as matronas poderem vigiar seus pequenos usuários.