
Evidentemente, não passei o ano inteiro trancado em privadas, nem espiando o comportamento de seus freqüentadores. Apenas dediquei ao assunto parte de minhas "meditações" e de minha acidia, recolhi o material disponível nas livrarias, nas bibliotecas, nos W.C, nos museus parisienses e fui introduzindo-o digerido nos textos do dia-a-dia, quase como se estivesse produzindo uma agenda ou planejando um caramanchão. Pensei: se o Borges, o Graciliano, o Gramsci, o Genet, o Dérrida e tantos outros capuchinhos «obraram» sem parar e publicaram sistematicamente suas divagações, suas aleivosias, suas memórias, e seus stronzos, por que eu não poderia, literalmente falando, editar a minha "merde"? Que a temática faça os leitores xucros, ignorantes e excrementófobos torcerem o nariz, isto já está previsto, pois o olfato é, segundo minha própria vivência, um dos sentidos mais ligados aos registros subterrâneos do inconsciente.

Capa da primeira edição
de Toilettes e Guilhotinas (1994)
A palavra remete à imagem, a imagem remete ao cheiro e o cheiro contrai os músculos do rosto, fazendo o nariz se curvar para o lado e fechar as narinas, porque tudo o que é escatológico é tabu, e porque “todas as palavras que mencionam coisas excrementícias têm que ser pronunciadas em surdina, em tons abafados, quase indefinidos. As sonoridades claras, nítidas, fortemente descritivas que os “palavrões” suscitam são completamente banidas. Na realidade os seres humanos civilizados formamos uma hipócrita confraria que faz de conta que os homens e mulheres que dela fazem parte não têm cu, não soltam peidos, ignoram o que é a merda ou a bosta, e, claro, nunca cagam”. São inúmeras as pessoas que entram em crise quando descobrem que todos, absolutamente todos ao seu redor, cagam. A conhecida Sabina Spielrein, -por exemplo-, aquela que foi amante de Jung e cúmplice de Freud, relata que na sua infância, costumava sentar-se sobre o calcanhar, de forma a tapar o cu, impedindo a defecação até por duas semanas.
Entre os autores que dedicaram em seus trabalhos, uma atenção especial à merda, posso citar, por alto, só para dar uma idéia, (entre gregos, romanos e egípcios antigos, bem como entre pensadores e artistas da modernidade), uns 200. Entre os mais conhecidos e mais santificados encontramos: Aristóteles, Homero, Kant, Hipócrates, Swift, Santo Agostinho, Sade, Bataille, Barthes, Plinio, Chevallier, Freud, Norbert Elias, Dali, Duchamp, Céline, Gide, Dante, Petrônio, Le Corbusier, Helvétius, J.Prévert, Sartre, Aragon, Francis Bacon, Lutero, Montaigne, Frank Zappa, Erasmo, Simone de Beauvoir, Fellini, Rabelais, Kundera, Dino Buzzati, Ferenczi, H.Miller, Vargas Llosa, Laporte, Guerrand, Monrozier, etc, etc. Sem falar naqueles que, execrando ou não, produziram textos específicos para o teatro, poesias ou Manifestos tratando desse mesmo assunto. O que importa verdadeiramente saber é que a merda não é apenas a merda, mas também, para os otimistas, um sinal, um signo e uma evidência do divino, e para os pessimistas, uma chama e uma profecia do apocalipse. A verdade é que se a merda não levasse em si um segredo metafísico e um enigma humanista, a do Grande Lama do Tibete não seria santificada e ingerida pelos beatos; os egípcios não a identificariam com seus "deuses" maiores e os polinésios não usariam seu nome para batizar os filhos.
Uma criança que em Samoa é conhecida e responde pelo apelido Merda de Tungo -por exemplo-, como poderia ser batizada aqui?
Merda de São José? Merda de Jeová? Merda de Exú?
Em outras palavras, a criança que nasce, lá ou aqui, é sempre merda de um ou de outro ser transcendental, um pequeno e vivo excremento tanto da mãe carnal como da mãe terra, ambas originadas do excremento e destinadas a voltar a sê-lo. À sua maneira, a criança, e os nativos parecem ter consciência de que a vida é gerada, se não no meio, pelo menos ao lado dos intestinos e do material fecal. Dizer meu íntimo, na verdade, é dizer minha merda, minha obra original e morna. A história da criação, vista também deste ângulo, é uma epopéia, uma grandiosa e inequívoca sinfonia ao sexo e ao estrume. Quem ama e deseja, tem amor e desejo também pela merda do ser desejado, e talvez, até, seja exatamente ela que cria o clima romântico, educado e singelo entre os amantes. Nada identifica e assemelha mais dois seres sexualmente complementares do que essa necessidade ao mesmo tempo solitária e universal. A pederastia, nesta linha de pensamento, seria o quê? Uma forma de veneração, não do cu e sim daquilo que ele excreta, o que transformaria inevitavelmente o pederasta num tipo novo de coprófago, numa espécie de vira-bosta, como aqueles insetos que se encontram à sombra dos chiqueiros, e cujo xamã seria o Marquês de Sade? Vícios e gostos à parte, o certo é que se a merda tivesse algum valor, com certeza o cu não seria, como afirma o psicanalista Arango, a linguagem preferida da submissão.
Coprofagia! Esse nome pomposo identifica na psicologia aquelas crianças carentes e aqueles adultos psicotizados que costumam comer merda, seja por paixão, por gosto e prazer, ou simplesmente para debochar dos psicólogos ou dos psiquiatras constipados. O demente ou a criança que chega a essa prática, no fundo, não estaria reinventando um ritual primitivo e reestabelecendo no seu cotidiano um menu que já foi até terapêutico e sagrado? Apesar de parecer um vício estrambólico e uma patologia evidente, não poderia ser apenas um gesto essencialmente idêntico ao de excretar a merda, principalmente se considerarmos as reais identificações que existem entre o buraco oral e o buraco anal? E aqui, apenas por curiosidade e para confundir um pouco os leitores, vale a pena lembrar daquilo que em 1908 Freud denominou a Teoria da Cloaca. O especulador vienence usou essa expressão para referir-se ao imaginário infantil, onde subsiste a idéia de que a mãe só tem uma cavidade e um único orifício confundido com o cu. Idéia esta, cuja lógica obriga a criança a acreditar que os bebês (e ela própria) são "evacuados" como um excremento, uma merda. (Laplanche J. Pontalis, J.B.)
Mas minha verdadeira intenção não é descer ao nível psicológico ou filosófico da questão, (porque tudo o que necessita método me causa horror!). Gostaria de publicar apenas imagens, fragmentos, fotos e gravuras, (uma espécie de Rorschach popular ou de teste projetivo) de tudo o que se relaciona aos intestinos, às toilettes, aos urinóis e à merda, (essa matéria que os antigos Nahuas colhiam no traseiro das formigas para usar como depilatório), e deixar que o observador, o iconomaníaco ou quem quer que seja, por si mesmo, em total liberdade, projete nelas o seu próprio texto e sua própria caca, suas memórias, suas náuseas, nojos, ansiedades, vaidades e tudo o mais que normalmente dá fôlego e potência ao narcisismo, a essa necessidade patológica de contemplar e de amar a si mesmo antes de todas as coisas, como se se valesse, se durasse e se soubesse mais. Essa necessidade alucinante de postar-se diante dos espelhos, de dormir sobre os penicos, de recitar os próprios textos e de fumar a fumaça dos próprios peidos, é uma estratégia remota de nossa espécie, uma tentativa, senão de negar, pelo menos de justificar-se como uma máquina que engole, que digere e que excreta. Os 60 cm que separam o buraco de entrada do buraco de saída, e os vários metros de tubos por onde percorre o material em transformação, têm causado mais indignação e mais ansiedade aos homens que todos os tremores de terra e que todos os dilúvios. A raízes da depressão e da angústia não encontram terreno mais fértil do que este, e é ali que todos os saberes poderiam encontrar respostas para algumas de suas dúvidas. Narcisismo = atenção exclusiva e fixação afetiva a si mesmo, não necessariamente para amar-se, mas inclusive para poder destruir-se, desconstruir a imagem de si-mesmo que tremula lá no fundo do líquido amiótico, ou na superfície de uma lágrima casual, odiosa e falsa como uma moderna e cara bijouteria thailandeza. Enfim, para despedaçar num só momento, o espelho que reflete e os olhos que captam o reflexo.
É essa forma, ora explícita, ora camuflada, que tento apresentar aqui, ao mesmo tempo em que faço uma reverência ao ilustre escargot, esse animalzinho asqueroso e delicado que, apesar de alimentar-se de merda, era para os egípcios a efígie perfeita do melhor dos mundos, a imagem do sol, de Isis, de Osiris e do próprio Universo. Por hoje é só. Que as Graças de Cloacina, a Deusa romana das privadas, nos alivie a todos!
Fragmento do livro Toilettes e Guilhotinas , Ezio Flavio Bazzo, Paris 1994 (Esgotado, disponível na biblioteca da UnB)
Ezio Flávio Bazzo
Escritor e Doutor em Psicologia Clínica. Autor de Vagabundo na China , Dymphne: a santa protetora dos loucos ; Ecce Bestia , Blasfematório , A Arte de Cuspir ou A Dialética dos Porcos , entre outros
eziob@yawl.com.br
http://home.yawl.com.br/hp/eziob/obras.html