
Cazuza, Olga, Quase dois irmãos, Cabra Cega. O cinema nacional apresentou a seu público quatro filmes cujas temáticas poderiam resultar em boas obras. Todos premiados em alguns festivais e bem cotados pela crítica. Todavia, ficaram no quase.
A justificativa para o quase é a mesma para ambos: poderiam ter apresentado o tema de uma forma distinta da qual fizeram. Esclareço: todos os temas pediam um filme mais narrativo, mais crítico, e menos dramático. Todavia, sem exceções, os filmes são predominantemente dramáticos, e pouco, ou quase nada, épicos ou críticos.

Cazuza apresenta sucessivos episódios da vida do cantor, articulados em uma temporalidade crescente e embalados pela sua música. Inúmeros são os problemas, a começar pela falta de problematizações mais contundentes.
O filme se atém à obra escrita pela mãe do cantor, dramatizando alguns episódios, sem distanciar-se criticamente do livro adaptado. Como conseqüência, o enredo se fecha na vida privada de Cazuza e pouco dialoga com o contexto social no qual sua obra se inseriu e o qual expressou e significou.
A todo instante, acompanhando o filme, somos tocados pela necessidade de maiores informações, reportagens, fotografias reais, enfim, contextualizações, que não aparecem. Inexistem tentativas de interpretação da realidade nacional na qual Cazuza, sua rebeldia e suas canções se inserem, ou interpretações críticas de suas canções. Apenas são apresentados os episódios de sua vida, sem mais.
Aliada a esta falta de abertura crítica do filme, a interpretação do ator principal, muito elogiada pela crítica, preocupa-se exclusivamente em criar a ilusão de que o ator é seu personagem, fechando ainda mais o enredo sobre sua insignificância.
Tudo se soma no resultado final pretendido: um filme facilmente assimilável pela platéia pouco crítica dos cinemas, capaz de se tornar uma mercadoria rentável e divulgável pela grande imprensa.

Os problemas de Olga assemelham-se aos de Cazuza. A começar pela escolha da obra escrita que serviu de parâmetro para o filme, não questionada por ele em momento algum. A produção, novamente, parece dar-se por satisfeita, em termos de pesquisa, ao basear-se em um livro escrito, sem procurar novos fatos e novos indícios que, se não chegariam a negar o próprio livro, ao menos ampliariam o horizonte do filme.
O enredo apresenta sucessivos episódios da vida de Olga, ficticiamente reconstruídos, sem se distanciar de ou refletir sobre qualquer deles. O contexto internacional e nacional, riquíssimo, só lateralmente penetram no filme. O principal é fechar-se na personagem que intitula a obra e não se afastar dela sob hipótese alguma.
Mais uma vez aguardamos, ansiosos, fotos da época, comentários, entrevistas, reflexões, que nunca vêm. Mais uma vez ficamos com a impressão de que o filme apenas pretendeu ser uma mercadoria nacional consumida sem problemas por um público de nível médio.
Quase dois irmãos busca inserir-se no contexto da repressão militar. Apresenta cenas que refazem a trajetória de duas pessoas de perfis sociais bastante distintos, um filho da classe média que se torna político e um filho da classe baixa, que se torna líder do tráfico. Alternam-se momentos do passado, em que ambos estiveram presos na mesma prisão, durante a ditadura, e do presente, em que o traficante, preso, recebe a visita do político.
Permeando a história privada dos dois personagens, a filha do político se envolve sexualmente com um traficante, no tempo presente, e, no passado, constitui-se o Comando Vermelho na prisão do Rio de Janeiro, fruto da convivência entre os presos políticos e os criminosos “comuns”.

Sem sombra de dúvidas, o mais interessante dos filmes mencionados, suscetível de apresentar a realidade nacional de modo mais complexo, ainda que também um tanto lateralmente. O convívio entre os presos políticos e os “comuns” (abro o parênteses apenas para destacar o preconceito da expressão, pois todo crime é um crime “político”) é retratado a partir do ponto de vista da classe média, centrado no personagem do político. O mesmo ponto de vista é utilizado para mostrar a formação do Comando Vermelho e o relacionamento da filha do político.
Além da parcialidade do ponto de vista, destaco outro problema, que o reforça e empobrece definitivamente o filme: a história (ou as histórias) centra-se nos personagens, reduzindo-se a uma sucessão dramática de cenas incapaz de transpor o psicologismo individual para uma narrativa sociologicamente mais ampla e crítica.
Novamente o contexto, que deveria ser o principal no filme, é devorado pelos personagens. Ao invés de um estudo artístico aprofundado sobre a formação do Comando Vermelho, ou sobre a visão preconceituosa da classe média quanto a nossa história, ou ainda sobre o problemático e injusto convívio social no Rio de Janeiro, temos apenas uma história que mostra as diferenças psicológicas entre os personagens. Nada além do convencional para um filme que deve ser vendido sem correr riscos.

Enquanto uma obra que se volta para os personagens e seus relacionamentos, além de banal, apresenta-se superficial e previsível; enquanto uma obra que discute nosso passado da ditadura militar, nada acrescenta de novo.
Por fim, Cabra Cega, talvez aquele com o tema menos amplo de todos e cuja realização o torna o mais formalmente dramático. Apresenta cenas temporalmente sucessivas, progredindo através dos diálogos, nas quais um homem, procurado político pela ditadura militar, precisa esconder-se na casa de outro, mero simpatizante da resistência, mas que não gostaria de se envolver diretamente.
O filme, cujo objetivo não pode ter sido outro senão relatar as dificuldades de convivência entre ambos, apenas resvala no contexto histórico que resultou na perseguição política. Os diálogos fecham-se nas dificuldades enfrentadas pelo movimento de oposição, num envolvimento amoroso entre o perseguido e uma mulher que faz parte do grupo, na tensão entre os dois homens que dividem o apartamento e na final conversão do simpatizante ao movimento. Absolutamente nada que fuja do senso comum.
Enfim, quatro filmes que poderiam ter sido bem melhores do que foram. Quatro obras de arte que poderiam revelar algo de muito interessante sobre nós mesmos, sobre nosso país e nossa história, mas que pouco acrescentam.
Adriano de Assis Ferreira
Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo e Pesquisador de Teatro.
adrianodeassis@uol.com.br