Woolf: literatura impregnada de
intimidade e história

Entretanto o deleite pela escrita resulta mais forte que a obediência ao seu fado feminino. Escrever converte-se no supremo alívio e a pior pena . Virgínia Woolf, uma vez que principia a criação literária, não pôde conter a abundância das letras; abundância esta que delonga muitos anos a transbordar, já que é aos trinta e sete anos que começa a sua produção artística com Voyage out , seguindo dentre outras narrativas como Noite e Dia e O quarto de Jacob.

Ela não se sente nem realizada nem segura de sua obra. Titubeia da perspectiva de escrever uma narrativa mais longa, no mesmo estilo de suas primeiras estórias e de lográ-la; caso não, viria a ser um tenaz fracasso. Finalmente, arrisca-se e sai triunfante com Mrs Dalloway . Ainda depois deste triunfo, Virgínia se questionará: “sinto nascer em mim, agora mesmo, pelo menos seis estórias, e sinto por fim, que posso verter os meus pensamentos às palavras. E se fosse transformar-me em uma escritora interessante – não falo como um dos grandes – mas uma interessante? Curiosamente, orgulhosa como sou, até agora, não tenho tido muita fé em minhas narrações”.


Capa da edição
de 1928 de Mrs Dalloway

Neste romance se tornará evidente sua constante inquietação: a separação entre o dever ser e o querer ser de uma mulher. Ela enfoca suas diversas etapas, seu trajeto pela existência, seus distintos ciclos, suas preferências sexuais. Nela abrange desde a jovem de dezoito anos até a anciã sem idade determinada, porém iminente a decrepitude; passando pela mulher madura e a que se encontra nas portas da senilidade, com suas recordações pueris. Ainda assim, analisa a condição lesbiana. Todavia, neste leque notabiliza-se dois instantes representativos no transcorrer feminino: o surgimento da menstruação e a chegada da menopausa.

Elaine Showalter, na apresentação a este romance, indica que para Virgínia Woolf estas eram as duas grandes enfermidades secretas e inevitáveis à mulher. A primeira incapacitava inclusive para ocupar posições públicas, mas veio a cair em desmentido cogito logo depois da Primeira Grande Guerra quando oito mulheres tomaram parte do Parlamento Inglês. A segunda enfermidade, a menopausa, era chamada de pequena morte, relacionava-se com a depressão, a loucura (ou insensatez), a disposição ao suicídio, como nos mostra o artigo escrito por Helene Deustch, em 1924, o qual descreve a menopausa como um sistema irremediável de derrocada: “tudo que a mulher adquiriu na puberdade se dissipa pedaço a pedaço; com a perda da capacidade criadora, sua beleza se desvanece por igual qual sua estimulante torrente de vida emocional”.

Semelhantemente a Ulisses de James Joyce , Mrs Dalloway se desenvolve em apenas uma jornada, que abraça as dez da manhã até as três da madrugada seguinte, com uma marcação contínua e pontual aos toques do Big Ben . É um dia na vida de Clarisse Dalloway, esposa de Richard Dalloway , membro parlamentar, uma linda mulher de cinqüenta e dois anos, mas que como tantas outras, vive sobrecarregada por uma série inesgotável de tarefas impostas: visitas, alimentação, trabalho doméstico que deve cumprir com rigor, como requer sua posição de primeira dama britânica. Mas, Mrs Dalloway sente que a vida é bela e uma grande aventura. O dia que narra a estória, Clarisse organiza uma festa. Durante este espaço, por um lado, depara-se com personagens que a transportam ao seu passado e, por outro lado, defronta-se com situações que a fazem indagar sobre sua condição feminina. Em outra parte da cidade desenvolve-se outra estória, a de Septimus Warren Smith , veterano da grande guerra, que virá a completar a narração de modo dramático.


Virgínia Woolf em tela
de sua irmã Vanessa Bell

Depois de ter lido Freud, dado que a tradução ao inglês se fez no editorial de sua propriedade, Virgínia Woolf desenvolve seu próprio método psicanalítico para explicar as sensações, recordações e repressões. Como Freud, ela crê que muito do comportamento do adulto tem raízes na infância. Baseada nesta teoria, no romance citado anteriormente, ela aplica flashbacks de maneira magistral, onde se esclarecem fragmentos da infância e juventude de Clarisse, imagens acumuladas como um álbum de fotografias ou imagens instantâneas que imprimem sua marca no presente.

O outro personagem chave desta narração, Septimus Warren Smith, lhe serve para retratar as seqüelas deixadas no homem pela participação na guerra, aniquilando suas possibilidades como ser humano. Assim, Virgínia Woolf logo aproveita para indicar suas próprias angústias. Jane Dune destaca que Woolf imaginou ser difícil construir a enfermidade mental de Septimus, porque a levava em direção aos seus próprios instantes de desestabilização; estes instantes que surgiram a partir dos dezoito anos, à base da morte da mãe. A depressão, as alucinações auditivas e o desespero diante da loucura conduzem Septimus a morte, como anos depois guiarão os passos de Virgínia.

Enquanto à organização de Mrs Dalloway, a escritora baseia a narração e os personagens em dois níveis: o histórico externo e linear e o psicológico interno e subjetivo, o qual se mede pela intensidade emocional. Intimamente relacionados, em muitos momentos, os acontecimentos se lançam e repercutem no mais profundo dos protagonistas, prolongando-se mais além do próprio episódio.