
Da mesma maneira que James Joyce, nesta obra, Virgínia Woolf experimenta com gerência o fluxo da consciência , a união de elementos da recém originada sétima arte e das vanguardas pictóricas - de modo específico o cubismo: recorre à montagem, aos close-ups e aos cortes rápidos para tecer uma narrativa tridimensional. Ela descreve todas as percepções sensórias que nascem do percurso por sua cidade, Londres; Woolf faz desfilar tonalidades, rumores, odores, formas como se pintara um lenço onde o todo se vê fragmentado sem perder a unidade. Este romance se converte em um divisor de águas que inaugura uma nova face da escritora.

O Farol: obra mais autobiográfica
da escritora inglesa
Seguindo a mesma linha, dois anos depois aparece O Farol , considerado pela crítica como sua obra mais autobiográfica. Em seu diário, a escritora manifesta que sua elaboração é imposta a ela não apenas como necessidade literária, mas também, e, sobretudo, psicológica: “o romance me agita como a um vendaval e sua velha bandeira. Em toda a minha vida, nunca havia escrito com tanta rapidez como agora [...] vivo mergulhada na narração, e quando volto à superfície estou ausente, onde muitas vezes não ocorre nada [...]”. Se em Mrs. Dalloway manifestam-se suas preocupações, em especial as relacionadas com sua condição de mulher, nesta narração se resvalaram, sem abandonar a problemática anterior, todos os seus fantasmas familiares: a posição materna e as afirmações do pai. Assim, que Virgínia concorda que escrevê-la, finalmente, simbolizou o enterro de seus pais.
Em O Farol , a família dos Ramsay , composta de pai, mãe e oito filhos, passam as férias de verão em um casarão à beira-mar. Ao longe, do outro lado da baía, existe um farol. Com exceção do senhor Ramsay, a família inteira sonha em visitá-lo. A excursão a esse lugar, que todos planejam, não se realizará logo, apenas anos depois, quando os meninos já não os eram e outros deles já morreram ou estarão ausentes.
O personagem do senhor Ramsay parecera englobar quase todos os aspectos negativos de Leslie Stephen : um homem racional, apático, incrédulo, tirano que nega ao sexo oposto a possibilidade de se destacar intelectualmente, mas que ao mesmo tempo não pode renunciar de si mesmo para afirmar sua masculinidade. Virgínia Woolf possui sentimentos ambíguos em relação ao pai: o admira e o ama profundamente, já que lhe sugere o gosto por certos autores e leituras. Não obstante, ao mesmo tempo, culpa-o por sua insegurança para se dedicar às letras. Igualmente ao senhor Ramsay, Leslie Stephen não confere à sua esposa a capacidade de se destacar na arte, principalmente, na pintura e na literatura.
Se para a construção do senhor Ramsay, Virgínia inspira-se na figura paterna, para elaborar a senhora Ramsay combina as características de sua mãe e da irmã Vanessa. Senhora Ramsay reúne aqueles elementos que uma mulher deve possuir: o instinto maternal e a capacidade de transformar a mais inóspita casa em um Lar, para administrar e governar uma família inteira e ser, ainda, o centro dela. Nesta personagem reside também a parte obscura desta mãe que vive sua existência através dos demais. A forma com que se apega aos filhos, o temor de ser nada se eles se afastarem por causa dele, causa a inutilidade de sua personalidade e a daqueles que estão sob seus cuidados.
Nesta obra, a figura de Lily Briscoe remete-nos em muitos pontos, a certas preocupações e temas habituais em Virginia Woolf. Lily admira a senhora Ramsay por seu talento ao dirigir com sabedoria sua orquestra (sua família, casa) , mas repele o caminho familiar como a única realização da mulher. Em conseqüência, ela ama a pintura. Entretanto sabe que isto a distancia do seu fado feminino, visto que a arte exige egoísmo e independência. Semelhante a Virgínia, Lily encontra-se na armadilha de um doloroso conflito de sentimentos, por um lado à fascinação diante da mulher que encarna a fertilidade e o dever sagrado de atender a um lar, principalmente aos varões que se encontram nele e, por outro lado, sua própria inclinação para criação e liberdade. Finalmente, como fez Virgínia, esta protagonista toma o segundo destino, aquele de satisfação própria.
O Farol poderia ser o retrato de qualquer casal, de qualquer núcleo familiar, através do qual Virgínia Woolf revisa e exibe os poderes que exercem, a mãe com sua feminilidade e o pai com sua masculinidade, assim como os ecos que estes têm sobres os distintos membros que se convergem em família. Como se pode observar pelo exposto, o enredo é um texto chave na produção woolfiana, um romance simbólico, onde a autora repassa seu passado familiar e invoca aquelas interrogativas que a inquietam: a razão da vida, o benefício ou a inutilidade de alcançar uma meta e a inevitável morte. Sendo assim, parecera simbolizar, de acordo com Ricardo Fernandez de la Reguera: “algo que os humanos tentaram em vão alcançar: nem felicidade, nem glória, nem a riqueza, nem tão pouco a paz, sem a estabilidade e continuidade, por sempre e para sempre na sua humilde condição humana é que eles amam [a família] porque é a única que possuem”.

Virgínia Woolf em seus
últimos anos de vida
Ao adentrar neste dois romances O Farol e Mrs Dalloway , descobre-se uma Virgínia Woolf repleta de pensamentos encontrados, com seus mundos interiores e exteriores, do pretérito ao presente, que em ocasiões parecem destruí-la animicamente, mas que ao mesmo tempo inspiram-na a converter-se em escrita independente, viva, cheia de significados. Navegou em um oceano onde se entrelaçaram águas de vida e de morte que em ocasiões se tornaram turbulentas. Ondas de relações conflituosas, perdas de entes queridos, angústia e loucuras a açoitaram. Lutou contra elas até não poder mais. Na carta de despedida que escreve ao esposo, Leonard Woolf , explica-lhe a razão que a leva tomar a fatídica decisão:
Queridíssimo: tenho a certeza de enlouquecer novamente, sinto que não podemos enfrentar a esses terríveis momentos. E desta vez não terei recuperação. Começo a ouvir vozes e não posso me concentrar. Assim, vou fazer o que me parece melhor. Tu me deste a máxima felicidade possível. Não posso pensar em duas pessoas que tenham podido ser tão felizes até que chegou esta terrível enfermidade. Já não posso lutar contra ela ... tudo me escapou menos a tua bondade.
Andréa Santos
Tradutora, professora de Literatura, pesquisadora de literatura americana e escritores "afro-americanos". Publicou entre outros, Imagens Femininas Negras em Paraíso , de Toni Morrison.(Ed. Fasa, 2000).
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