Etcetrola  - A Inimitável Fábrica de Jipes Foto: A Inimitáel Fábrica de Jipes

Falar de sonho, nostalgia, esperança e de dias melhores nas letras de rock, pode parecer “piegas”, mas não nas composições de Rafael Souza, guitarra e vocal, da Inimitável Fábrica de Jipes que tem Cristiano Franco (guitarra), Maycol Alencar (baixo) e Nilson de Souza (bateria).

Banda de Curitiba, formada em 2002, que já fez apresentações ao lado de outras bandas como Relespública e Autoramas, traz no som e nas suas composições, uma bagagem cultural que vai de The Who, Clash, passando por Beatles, entre outros. Muita poesia, em especial, a dos modernistas de 22, Bandeira e Oswald.

Continuo afirmando que se as rádios existissem de verdade (porque o que temos hoje, com raríssimas exceções, não dá para serem levadas a sério), qualquer canção deste primeiro disco, lançado em 2005 e de produção independente, poderia estar tocando nas Fms. Assim, sairíamos do lugar comum: drogas, desgraça social, amores perdidos com o nome da amada no refrão. Letras ordinárias e som razoavelmente bem tocado para pessoas musicalmente preguiçosas. Chicletaria nos ouvidos!

Seria difícil escolher para “carro chefe” do disco uma canção para cair na boca do “povo”. Quando digo “povo”, estou falando de meninos, meninas, jovens e velhos. Sim, porque o “povo”, independente da faixa etária, embora a indústria fonográfica negue, gosta de som bom e letra boa. E isso o disco tem.

As letras falam basicamente das coisas simples da vida, do cotidiano e de sentimentos humanos. Muitas bandas já falaram e continuam trabalhando com essas temáticas nas letras. Até aí nenhuma novidade. Negativo. O grande lance da banda é mostrar o bom e velho rock and roll com legitimidade e com letras poéticas que caem bem como canção porque têm estrutura musical definida. Aliás, como informa na contra-capa do álbum, todas as letras foram adaptadas do livro “Poesiacusticodinâmica” de autoria do próprio Rafael Souza. Leia, por exemplo, “Nas marés da vida”, faixa nove, perceba o ritmo, os versos e as imagens que o texto traz.

Foto: A Inimitáel Fábrica de Jipes

“Na hora da raiva”, faixa quatro, sugere riffs e letra raivosos. Ela começa com uma guitarra amena e aos poucos a pegada vai ficando mais forte. E isso se alterna juntamente com a letra que retrata o sentimento de forma simples sem ser simplista, resultando numa canção agridoce. “Hoje”, faixa dois, fala daquilo que todos nós já fizemos ou temos a vontade de fazer: sair pro mundo, viver o agora. Carpe diem! Dialoga com “Treze trilhas”, faixa dez, cuja temática mostra que, ao sairmos para o mundo, encontramos diversas trilhas ao longo de nossas estradas. E se quisermos continuar com esse diálogo, “Dia-a-dia”, faixa oito, como sugere o nome da música, mostra que mesmo depois das nossas escolhas, morando numa república, a tal liberdade, a bela vizinha que dá bola pro rapaz careta da caranga importada, bate a frustração e o cotidiano pode ser entediante sim e ficamos sonhando com nossa Pasárgada.

“Bons tempos” e “Treze trilhas”, faixas cinco e dez, continuamos reconhecendo aqueles sentimentos, que por hora, aparecem de forma mais intensa em nossas vidas: a nostalgia, a esperança, histórias que tiveram um final que fugiu das nossas expectativas, dos lugares que hoje não são mais os mesmos. Isso é dito com leveza e um certo sorriso nos lábios, como disse, sem ser chato.

Esse é o rock ensolarado da Inimitável Fábrica de Jipes, que traz na capa do CD, muitos girassóis espalhados numa vastidão, que em meio a tantas ervas daninhas, oxalá, eles se espalhem ensolarando, talvez, novas estradas musicais. (Adriana Aranha)

Faixa 1: Hoje - Faixa 2: Na Hora da Raiva - Faixa 3: Dia-a-Dia

Capa

LETRAS

Hoje
(Rafael Souza)

Hoje
Eu vou fazer o meu dia feliz.
Pois o amanhã já está por um triz,
Eu só quero é viver.

A tristeza já ficou para trás,
E as lágrimas nunca mais,
Vou derramar por ninguém.

Não
Eu não vou pedir o seu perdão.
E tampouco a sua permissão,
Vou me mandar sem me despedir.

Sim
Minhas mochilas já estão nas costas.
Na minha mão está a chave da porta.
Eu vou sair sem me arrepender.

Tchau
Estou lhe dizendo tchau.
Tchau

Na Hora da Raiva
(Rafael Souza)

Na hora da raiva
Não penso no que fiz.
E falo coisas absurdas
Que normalmente se diz na hora da raiva.
Criei um mecanismo,
De auto-defesa, perda do juízo
(raciocínio).

Mas a raiva já passou,
E eu sem querer
Magoei o meu amor.
Mas a raiva já passou,
E eu sem querer,
Vou perder o meu amor...Dor.
Eu sei que eu vou ter de usar aquele velho clichê:
Dar um buquê de flores para me desculpar
E te fazer esquecer de todas aquelas besteiras
Que eu gritei inconsciente e sem pensar.
Ou me afogar nas lágrimas que eu te fiz
Derramar por chorar, por chorar...

Na hora da raiva.
Somos todos iguais,
O sangue fica fervendo,
No tornamos irracionais.
Na hora da raiva.

Dia-a-Dia
(Rafael Souza, Eduardo Meurer, Manuel Bandeira)

Todo dia de manhã quando acordo
olho para a minha vizinha.
Depois volto para a realidade e tomo o
meu café na cozinha.
Ah! Que vontade de dizer o que eu sinto
Mas eu não tenho como me expressar.
Daí vou para baixo do chuveiro: Palm
Street Five, me aliviar!
Penso como vai minha vidinha e me dá
até vontade de chorar.
E um careta com uma caranga importada
Hoje a levou para passear.
E eu aqui com mais três caras
infurnado na República Paraná.
Mas não tem nada não, não vou mais me estressar.
Assim dizia Bandeira:
Eu vou-me embora para Pasárgada,
Lá sou amigo do Rei,
Lá eu tenho a mulher que eu quero,
Na cama que eu escolherei. Viva Bandeira!



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