

A produção literária do sergipano Mário Jorge de Menezes Vieira (1946 -1973) surge da influência direta das Vanguardas Poéticas (poesia concreta, neoconcretismo, poesia práxis, poema processo, poesia social, tropicalismo e a poesia marginal). Acompanhando o processo de uma civilização tecnológica respondendo às exigências de uma sociedade impelida pela rapidez das transformações e pela necessidade de uma comunicação cada vez mais objetiva e veloz, as décadas de 50 e 60 assistiram ao lançamento de tendências poéticas caracterizadas pela inovação formal, maior proximidade com outras manifestações artísticas e negação do verso tradicional.
O movimento de poesia concreta, estopim das vanguardas no Brasil, tem suas raízes na revistaNoigandres (palavra de significado enigmático retirada de um poema de Ezra Pound – Canto XX dos Cantares – que, por sua vez, citava-a de um poema do trovador provençal Arnaut Daniel), publicada em 1952, por três paulistas com espírito revolucionário: Décio Pignatari, e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, que alteraram profundamente o contexto da poesia brasileira, pondo idéias e autores em circulação.
A primeira fase de Mário Jorge, de cunho sociopolítico (1964-1968), tem forte influência do russo Vladimir Maiakovski e do caboclo de Barreirinha, Thiago de Mello – parte dessa produção encontra-se reunida em Poemas de Mario Jorge, publicado postumamente. A chamada poesia social, cuja temática centra-se na denúncia dos problemas, das desigualdades sociais do país – suscitada em especial pela ditadura militar –, bem como em aspectos que abalavam o mundo, como a Guerra do Vietnã.
A poesia dessa década tinha poucas opções diante o controle da censura: ou emprega uma linguagem indireta, metafórica e pública nos meios, editorias convencionais; ou dribla a censura, cuidando da própria produção, divulgação e distribuição dos trabalhos.
Em sua segunda fase, Mário Jorge mantém alguns traços do concretismo em sua poesia assumido pela poesia marginal (marginais da editoração e da linguagem), assim chamada porque, num primeiro momento, podia ser lida em diversos lugares: nos muros, nos postes, nas paredes e portas de banheiros públicos; em folhas mimeografadas, distribuídas ou vendidas em bares, cinemas, teatros, praias, em revistas alternativas, páginas de jornal e em qualquer lugar que permitisse expressar a descontração, a subjetividade, o protesto e as propostas de seus autores.
Era, portanto, uma poesia que se encontrava fora do circuito editorial e proliferava através da coluna Geléia Geral, mantida por Torquato Neto no jornal Última Hora, que, torna-se porta-voz da poesia marginal. É uma época em que cresceu o interesse desses poetas pela música popular, em razão de sua penetração mais eficaz junto ao grande público. É o caso dos poetas Cacaso (Antonio Carlos de Brito), Torquato Neto, Paulo Leminski, Tite de Lemos, Waly Sailormoon, Charles, Bernardo Vilhena, Claudius Portugal e Geraldo Carneiro, todos letristas.
A “nova” tendência literária era buscar aliados e ir incorporando concepções e procedimentos até então próprios de outras manifestações culturais. Nessa busca de uma nova linguagem, não é só à outras formas artísticas que a literatura se mistura. Esse processo de aproximação é radicalizado e o texto literário passa a ser cortado pela presença da indústria cultural, elemento cada vez mais forte em nossa vida.
Mário Jorge retrata a realidade do mundo que o cercava e as inquietações desta aventura fascinante e misteriosa que é a vida em todos os seus aspectos – em nenhum momento o poeta aracajuano caiu na cópia fotográfica, naturalista, dos seus ambientes. Fez da sua vida a principal matéria a ser moldada pela sua obra. Enxerga-a com olhos que vão além da superfície aparente das coisas, oferecendo-nos uma visão rica, colorida, densa, com paisagens de sonhos, com delírios verbais de uma extraordinária expressividade.
Mário vai além das possibilidades mensuráveis e cabíveis dentro dos limites dos manuais de literatura. É preciso chamar a atenção de antemão para uma obra que trafega na contramão da literatura de resultados. Mas está viva e estará viva a cada instante em que um leitor tomar um dos seus volumes e se puser a ler, revivendo-a.
Uma das características da poesia marginal é que os poetas trabalham basicamente com as idéias de uma poesia mutante, anárquica, desestruturada, com o tom tropicalista de contestação estética e social, uma linguagem fragmentária e visual, de captação de flagrantes e de domínio público como os grafites.
Foi graças ao movimento musical dos tropicalistas (Gil, Gal, Cae, Tom Zé, Capinan, Torquato Neto, Mutantes, Rogério Duprat), que se abriu espaço para a poesia marginal, questionando os padrões culturais estabelecidos (contracultura) em busca de raízes novas, identificadas com o momento brasileiro.
O poeta Mário Jorge viu as tentativas de resistência à consolidação do regime militar de 1964, que arregimentam setores radicalizados da classe média, especialmente a massa estudantil, que são desarticuladas pelo Estado com a edição do AI- 5 (Ato Institucional), em dezembro de 1968, não deixando dúvidas sobre sua disposição de assegurar a “paz social”, e na década seguinte o início da conjuntura de franco fechamento político. Mas não sobreviveria para participar do boom da poesia marginal dos negros verdes, anos 70, quando foram, publicados dezenas de periódicos alternativos de divulgação do movimento (Navilouca, Escrita, Código, José, Anima, Pólen, Qorpo Estranho, Através, Gandaia, Ajuste de Contas, Almanaque Biotônico Vitalidade, Poesiagem, claro que a listagem é incompleta), nem a abertura política no final da década.
Mário Jorge estréia com Revolição. Aracaju, edição envelope, 1968. Os demais são póstumos: Poemas de Mario Jorge. Aracaju, Gráfica Editora J. Andrade, 1982; Silêncios Soltos. Aracaju, Gráfica Editora J. Andrade/Subsecretaria de Cultura e Arte, 1993; Cuidado, Silêncios Soltos (versão modificada, bastante remanejada da primeira, ambas organizadas por Vinicius Dantas). Campinas, 2a ed. Unicamp, 1993; De Repente, há Urgência.. Aracaju, Gráfica Editora J. Andrade, 1997.
Grande parte de sua obra encontra-se esparsa e inédita à espera de publicação. Quando forem publicados seus inéditos (prosa e verso), aí sim, faremos um passeio pela vida desse fascinante personagem e encontraremos um Mario Jorge selecionando memórias, falando de seus momentos de dificuldades, de seus amigos e companheiros, de suas experiências públicas, de suas crenças religiosas, suas alegrias, seus amores, escrevendo sempre com certo sentido de oportunidade, pela paixão da palavra, pelo fazer poético e acima de tudo com amor e senso de humanidade.
Entre seus textos manuscritos e datiloscrito há reflexões sobre seu ofício e sua obra – onde começa a vida? Onde começa a poesia e a pintura? Mário Jorge responde bem à sua maneira, de forma inimitável. Com um texto moderno, forte, às vezes agressivo, às vezes lírico, outras vezes intimista. Um canto aberto e destemido, sempre ligado à ruptura, a radicalidade, a experimentação, com alta voltagem poética dos marginais.
Apesar de morto prematuramente, há 27 anos, Mário Jorge está cada vez mais presente nas letras sergipanas. Soube recentemente através de dona Ivone Vieira, mãe do poeta que preservou e organizou todo acervo do filho, que finalmente será publicado mais um dos seus livros inéditos, Noite que nos habita. Bom para todos e sorte da literatura brasileira.
Poemas estradas claras andei com olhos sujos de noite
com passos feitos de giz
traçando brancos mistérios
nas negas canções que fiz agora não me apavora
o pó de outras estradas
pois no peito mora
medos maiores que qualquer nada ***** Quem vê que veja Quem vê que seja Sei lá Quem vê que venha
Quem vem que tenha
Um sol Estrelas do deus-menino
Desligadas do Natal ***** a grande marcha longinquatro a grande marcha aproximando-se e todos parados e todos indo pelos caminhos floridos os pés intoxicados de minerais atômicos quem sabe só deus a sorte dos doidos mansos soltos angustiados com a distância close, close, close já se viu – e o personagem continua a falar falar como se nunca tivesse feito antes tudo vai tudo vem e fica esta vontade de dormir sonhar sonhar não sei como o que não sei aonde ali aqui tudo palavras do pecado original a fala a pala o refrão do sim do não os refrões cantando nos ouvidos do morto do vivo
Gilfrancisco Santos
Jornalista, pesquisador e professor universitário.
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