Meninos de Kichute Capa do livro: Meninos de Kichute

Certa vez li sobre um comentário que Clarice Lispector havia feito a respeito da “atitude” de escrever, alguma coisa do tipo “com medo ninguém consegue escrever”, interpretei que seria mais ou menos isto: ou você se joga, sem garantias, na viagem íntima que irá se externar em texto ou nem vale a pena tentar porque suas palavras jamais expressarão verdade ou emoção. Então li Meninos de Kichute e lembrei desse comentário porque senti o envolvimento. Autor, texto, personagens, realidade, ficção, memória, em tudo está o envolvimento. O efeito disso é a impressão que se tem de que o menino Beto realmente nos leva por um passeio pela Vila Nova, caminhando pela rua Ivaí, desviando de Dkvs, Vemagetes, passando pela escola Rui Barbosa, pelo campinho de futebol “pinga-sangue”; só mesmo aquele menino poderia se referir às balas Rin Tim Tim , pipocas, calhambeque, National Kid...um adulto lembrando da infância não conseguiria ser tão preciso. O autor alerta no início que quem escreveu o livro foi um pivete que ele achava que não existia mais, mas não dá pra imaginar o quanto isso é verdadeiro até que se inicie a leitura; os diálogos são muito autênticos (principalmente entre os meninos), as brincadeiras, os xingamentos, tudo é de impressionar e emocionar.

Fiquei tentando estabelecer um certo distanciamento e imaginar a leitura por alguém que não tivesse a minha idade (que deve ser mais ou menos a mesma do autor) porque para mim tudo era muito significativo, mas não consegui, só percebi que crescer no subúrbio de Londrina não foi muito diferente de crescer no subúrbio da grande São Paulo e aí começa a universalidade da coisa. Mas dá pra ir ainda mais longe com relação aos temas mais abstratos porque os meninos da Vila Nova também guardam pontos de semelhança com o grupo de meninos húngaros imortalizados por Ferenc Molnár em Os meninos da Rua Paulo. É interessante perceber como essas pequenas confrarias seguem seus códigos de conduta, desenvolvem relações de lealdade, companheirismo, mas também se revelam em certos momentos extremamente cruéis, tudo, porém, acontecendo dentro de uma ética muito própria, reconhecida e respeitada por todos os membros. Então fica parecendo que Londrina, Hungria, tudo é de certa forma insignificante diante do universo da “molecagem”, a riqueza do processo (que é rico justamente por ser processo e incluir tudo o que há de dor e prazer nisso).

O texto segue em tons diversos, às vezes engraçado, outras comovente, e muitas vezes os dois ao mesmo tempo e isso é o que há de melhor. Às vezes ele se compartimenta verticalmente: sob a primeira “camada” de humor, algo de dramático, carregado de emoção. Destaco especialmente como exemplos de trechos comoventes aqueles em que percebemos o tamanho da cumplicidade entre o menino Beto e a irmã Rosa, o efeito psicológico tão brutal da sentença “agora você é o homem da casa!”, entre muitos outros. Como trabalho de texto, o capítulo 13 é primoroso, tão bem desenvolvido, tão bem amarrado que se revela um ótimo conto dentro do romance. Enfim, Meninos de Kichute vale muito a pena por ser um belo resultado de um jeito corajoso e talentoso de fazer literatura. (Marici Silveira)