

15 anos depois e Lourenço ainda consegue me surpreender. Este é o segredo do verdadeiro amor e de um casamento feliz! Esta será a primeira coluna que terei dificuldades para escrever porque de leitora passei a personagem. Como me distanciar da obra? Como fazer uma leitura branca, crítica e com o devido distanciamento. Por que eu fui entrar nessa fria? Como dizem (papos altamente intelectuais) “enfim”, vamos ao que interessa.
A capa traz uma referência de antigos cadernos de brochura, uma forma rebuscada se repete várias vezes, tece uma trama, prepara seu transe...No meio, três coelhos presos em um triângulo. Representam eu, o Lourenço e o Francisco? Nossos três gatos? Presente, passado e futuro.
Curiosamente me coloquei no presente, aqui, agora, escrevendo. Lourenço no passado, resgatando brinquedos e lembranças. Francisco, com certeza, é o nosso futuro, nossa síntese, a concretização da parceria.
“O teatro de nanquim apresenta” é a abertura. É um aviso: não levem a sério. Trata-se de ilusão, ficção, imaginação. É simplesmente arte.
Prepare-se, vai começar. O coelho de Alice, o tempo, estamos sempre presos ao tempo. Passado, presente, futuro. O tempo é o melhor remédio. O melhor remédio é o amargo. Lembranças do deserto. Seu teatro tem início em um imenso deserto. A imensidão da areia. Um banco vazio, o texto simples. Frases tão curtas que, quando a gente percebe, já está lá no meio daquele deserto, com toda aquela areia e aquele menino perdido entre seus brinquedos.

Lourenço, Francisco e Lucimar: caixa de areia
Triunfo da Morte, 1562, no tempo de Bruegel. Lourenço nos apresenta dois protagonistas. A realidade e a idealidade. Uma completa a outra. Para que a realidade seja suportável, o homem inventou Deus e a Arte. O Louco disse no filme que o homem inventou Deus para poder inventar a si mesmo. O mundo ideal não existe da mesma forma para todos. Tudo parece diferente aos olhos de quem vê. Ninguém vê da mesma forma que o outro. Um rio jamais se repete. É sempre novo. Os dias nunca se repetem, nem a paisagem. Cada momento é único. Somos únicos. Na nossa semelhança refletimos todas as nossas diferenças. É a isto que eles chamam de paradoxo?
No meu mundo ideal, Lourenço cria as histórias para mim. Para que eu possa aproveitar minha passagem por aqui. No meu mundo real, Lourenço cria as histórias para ele mesmo, para que possa existir no mundo real. Para que possa tornar a realidade suportável. Lourenço inventa sua Arte, sua ligação com o mundo, elo real e ideal. Para que Carlton exista ele inventa Kleiton. Kleiton existe para dar veracidade às histórias de Carlton. A arte só existe a partir do momento da sua comunicação. Não basta somente a expressão. É imprescindível que alguém a veja, toque, ouça, leia. Sinta.

Como se não bastasse a Lourenço a criação de Carlton e Kleiton, ele me recria. Eu, Francisco e nossos gatos fomos recriados no seu sonho de Alice para dar crédito à sua invenção. A minha realidade foi invadida, observada, vigiada. Lourenço idealizou um breve instante da realidade. O que agora leio como se fosse presente, na verdade é passado. Porém, naquelas páginas, ele prendeu o presente. Estamos presos na sua criação.
“Figuras mortas numa folha de papel” ele escreveu uma vez. Quem nos dá a vida? O leitor que nos permite existir na sua realidade (ou idealidade?) Se a arte só existe a partir da interação do fruidor, aquele que a compreende, apreende e guarda para si. A arte é um presente, um segredo, uma confidência.
A Caixa de Areia encerra uma história, um momento do tempo passado. Sofrimento e penitência. Alegria e subsistência. Delicadeza e sutileza. O belo pessoal. A eternidade deste momento.
Bom proveito!
Lucimar Ribeiro Mutarelli
Professora de História da Arte, Mestre em Comunicação pela USP. Defendeu em 2004 a dissertação de mestrado: Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura. Orientação do Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro ECA/USP
lumutarelli@terra.com.br