

foto: Arnaldo J.G. Torres
Do que são feitos os dias? é o trabalho síntese de muitas expressões artísticas. Na sua elaboração, Norma Gabriel trabalhou fundamentalmente com a força da palavra e em passos de poesia construiu um percurso narrativo para abordar o tema principal que é o sentimento feminino. Para desenvolvê-lo, a atriz usou trechos de trabalhos de grandes autoras como Adélia Prado, Lya Luft, Cora Coralina ,entre outras, e reconstruiu textos poéticos. O grande mérito nessa etapa do projeto foi a sensibilidade de alcançar o verdadeiro significado emocional de cada texto “matriz” para que esse sentimento essencial servisse como um fio de alinhavo de outros trechos poéticos de emoção semelhante, trabalho esse, que resultou em recriações bastante consistentes e bem elaboradas. O tom narrativo está no desenvolvimento cronológico do “eu lírico”, ou seja, o espetáculo se concretiza através da voz da menina que se transforma na voz da mulher adulta e da mulher madura, desnudando toda as inquietações de cada fase desse mundo feminino. O trabalho se completa na idealização, reafirmando a grande sensibilidade, na escolha das canções, nas coreografias e também na direção musical de Fernanda Maia. No palco, Norma Gabriel interpreta textos e canções em total sintonia com o tom emocional de cada palavra e de cada canção. Assim como ler poesia, nem sempre trabalhar cenicamente com ela é muito fácil, mas quando se acerta o tom e o passo, como acontece em Do que são feitos os dias?, a experiência para o espectador é, invariavelmente, marcante e significativa.
ETC: Como surgiu a idéia da realização do espetáculo “De que são feitos os dias”?
Norma Gabriel: Surgiu dos questionamentos que estavam comigo mesma, das minhas insatisfações como artista e também da busca por algum texto dramático já pronto e acabado. Nessa busca não encontrei nenhum texto que respondesse aos meus anseios. Então ganhei de presente um livro de poemas de Florbela Espanca (poetisa portuguesa, muito importante no meio literário de Portugal do século passado) com quem me encantei e pensei: Por que não, eu mesma, criar um texto através de poemas já que é uma linguagem não utilizada como dramaturgia, de certa forma crio um texto original para mim e que traduziria exatamente o que estava sentindo e pensando.
ETC: O que norteou a escolha dos textos e canções?
NG: A pesquisa partiu primeiro por vários autores, pois queria falar do feminino e que fosse uma obra brasileira. Procurei diversos autores que mais me interessaram e que tivessem seus poemas em prosa não em lírica. Facilitando a dramaturgia do texto para o espetáculo, já que minha intenção era manter a obra no original. Com as canções, numa fase posterior, quis trabalhar simultaneamente o erudito e o popular. Então escolhi compositores que conversassem nesse universo e também com o texto, comecei primeiro com compositores da música erudita contemporânea brasileira, que não é divulgada e muito pouco conhecida do público e da mídia, até chegar a compositores mais populares e conhecidos como, Chico Buarque, Vinícius de Moraes entre outros, e também Dolores Duran que não é tão conhecida do público em geral.
A busca de uma sonoridade singela, mesmo dentro de formas de composição rebuscadas, levou a uma outra pesquisa: uma maneira de cantar sem um tom operístico e de falar os poemas sem ser declamado.
Quebrei a cabeça! Aliás, até hoje!
ETC: O rótulo de literatura feminina é constantemente questionado por alguns autores e críticos. Na sua opinião, existe mesmo uma especificidade na literatura produzida por mulheres?
NG: Não vejo uma literatura específica para homens ou mulheres. O que dizer de Chico Buarque de Holanda que melhor escreve e traduz em suas canções o universo feminino? Quando escolhi as autoras Lya Luft, Hilda Hilst e Adélia Prado, escolhi porque melhor traduziam o que eu estava sentindo e pensando até então. Mas já havia lido antes vários autores como: Carlos Drumond de Andrade, Mário Quintana, Machado de Assis, Olavo Bilac, Érico Veríssimo, mas o olhar desses autores sobre a mulher apresentam-na muito como a musa inspiradora, idealizada romanticamente na forma da mãe ou amante. Com essas autoras encontrei uma visão mais humanizada, mais do cotidiano da mulher sem perder seu lirismo.
ETC: Para o ator, geralmente acostumado com o texto dramático, qual a singularidade do trabalho com o texto poético?
NG: A dificuldade de ser claro e limpo ao falar os poemas, ter a fluidez e organicidade nas passagens do texto falado para a canção e vice-versa, sendo que a música tem uma linguagem distinta do texto, na música existe a métrica musical, assim também com a coreografia (de João Andreazzi), que estabelece uma outra linguagem, a gestual, pensada nas imagens que o poema e as canções sugerem. O prazer está exatamente em como estabelecer um diálogo sintético e natural com essas linguagens.
ETC: O que você indicaria como maior prazer e maior desafio neste trabalho?
NG: O maior prazer e desafio deste projeto é o de contar uma história utilizando outros recursos. Mostrar as personagens, seus sentimentos e pensamentos através da intersecção destas linguagens, permitindo ao espectador uma identificação e um envolvimento com a história contada. Esta história poderia ser de todos nós.
Marici da Silveira
Professora pós-graduada em Literatura Contemporânea e faz parte do conselho editorial da Revista Etcetera.
marici@reistaetcetera.com.br