

Um livro de poesia visual quer ser objeto. Talvez um objeto incompleto, exclusivamente visual, como certas pinturas. Mas um livro não é uma pintura, pois só se efetiva quando é manipulado, e durante a manipulação retorna imediatamente à sua completude de objeto, com peso e textura. Assim, está mais perto de uma pedra do que de uma poesia visual presa à parede. Se isso é verdade, um livro de poesia visual deve ser avaliado também em seu peso. leve, de Marcelo Sahea, pesa menos de 200g.
leve é um objeto histórico. Muito embora investigue tipografias, admite uma clara predileção pela tipografia limpa e arredondada que caracterizou a poesia concreta dos irmãos Campos, entre outros. Não seria errado afirmar que leve cita os concretos, e faz uma crítica através desta citação. Como se processa esta crítica? Marcelo Sahea opõe ao universo cristalino e pragmático do concretismo uma boa dose de lirismo, que se apóia tanto numa afetividade inesperada como numa iconografia artesanal, provinciana mesmo. Em leve, temos sujeito e objeto distintos dos sujeitos e objetos assumidos pela poesia concreta paulista dos anos 50 e 60. O sujeito de leve tem vontades, amores, tesão e preguiça; sente-se atraído por forças da natureza (onda, manhã, terremotos, chuva) e por construções humanas (iansã, putas, faraó, medusa). Recusa apresentar produtos sem expressão: tenta desfuncionalizar o produto e entrega-se à expressão. Assim, como acontece em varizes (pg. 93), a cidade pode tornar-se corpo, e cria-se uma identidade sujeito-objeto que parece recuperada do que costumamos considerar poesia.
leve flerta com a publicidade, e capta a alma dupla da publicidade, o jogo de “aparecer e esconder” que a caracteriza. Relaciona-se de maneira arguta com a imagem publicitária, e para isso precisa resistir a um vício clássico da poesia visual - o trocadilho, terreno movediço no qual a arte às vezes vai atolar. Desde o Lixo feito de Luxos de Augusto de Campos, ou mesmo antes disso, com as bizarras manchas gráficas de Apollinaire, a dimensão física do texto namora a publicidade, e divide com esta algumas facilidades que comprometem a potência do discurso, tornando-o inequívoco, estável.
Spleen (pg.85) é a Sprite do livro. A relação entre o spleen de Baudelaire e o refrigerante de limão é uma equação que recusa a resposta única, o que não acontece, por exemplo, na relação Luxo/Lixo de Augusto de Campos. O logotipo Spleen apresenta assertivamente uma evasiva, o que inutiliza a virulência do discurso publicitário, ou melhor, torce-o entorno de si mesmo. Marcelo Sahea resiste ao trocadilho com um vigor que deve ser ressaltado – parece mesmo comentar este procedimento, num tom crítico, em poesias como cLOUD (pg.81) e

Marcelo Sahea: lirismo em oposição ao pragmatismo
concretista
tape (pg.91). Nesta última, a oração “Tape o sol com o sol” lembra de maneira incômoda a mega bem-sucedida campanha publicitária “Câncer de Mama no alvo na moda” no que diz respeito à dimensão visual, ao mesmo tempo em que veicula uma tautologia. Enquanto a campanha anti-câncer manipula com competência a má-consciência do cidadão moderno ao misturar saúde pública e mundo fashion, tape traz o discurso oposto, nada funcional, sem objetivo. Uma evasiva, como se disse acima, apresentada com estranha convicção.
leve, mas com ritmo. O ritmo marca cada poesia e sua relação com o espaço gráfico de 14,5 x 15,5cm, o que novamente remete à experiência concretista: magnetiza o branco da página e, a partir das bordas retas, reverbera uma ordem que acaba entrando em contradição com a temperatura elevada de certas expressões (como “quero uma tupi de tanga” e “corpo é a flor do leito”). Mas o ritmo é construído também no tempo, assim como no espaço. Este procedimento aparece em poesias como Chão (pg. 45 a 47), Cigarra (pg. 53 a 63) e Pausa (pg. 69 a 75), mas é uma característica marcante do livro como um todo. Aqui, não há o ritmo gráfico ordenado de cada página, mas um ritmo orgânico, com acelerações e contenções, descontínuo – um ritmo, talvez, de resistência.
A resistência, em suas diversas acepções (ou na mistura destas), tem uma presença ambígua na arte. Às vezes parece ser uma característica essencial da arte, mas empurra-a na direção da não-arte. Isto pois tem o poder de conformar a arte. Na capa de leve, há uma pedra sobre um travesseiro. Na contra-capa de leve, há um travesseiro sobre uma pedra. Estes arranjos são frases, enquanto a pedra e o travesseiro são elementos desta frase: palavras. Basta permutar a ordem para causar uma mudança de sentido. Cobra come coelho difere de Coelho come cobra. Para uma melhor comunicação, é importante que pedra, cobra, travesseiro e coelho sejam elementos gerais, abstratos, indiferenciados, sem ruídos particulares que atravanquem a mensagem. Assim, comunica-se bem, sem resistência, mensagens de resistência.
Um livro pode se parecer com o seu ritmo. Em outras palavras: a experiência de um livro pode ser semelhante a experiência do ritmo deste livro. É melhor que assim seja, pois há livros cuja memória que deixa em nós é tão distinta do ritmo que experimentamos quando os relemos, que algo parece estar fora de lugar. leve se parece com o ritmo de leve. Como foi dito acima, “com acelerações e contenções, descontínuo”. Foi de uma maneira igualmente descontínua que o texto que aqui se encerra pretendeu relacionar-se com seu objeto de atenção.
João Paulo Leite
Artista visual. Gosta de Ataulfo e The Kinks, torce pelo Santos F.C.
jleite75@hotmail.com