foto: Júlio Bittencourt
Stela
Etc: Seus discos foram bem recebidos pela crítica, você também é jornalista. O que pensa a respeito do jornalismo musical feito no país?

SC: Acho que em toda esfera social (e não só no Brasil) há bons e maus profissionais. No jornalismo musical, tem aqueles que gostam e entendem realmente de música, e que - o mais importante - seguem suas próprias intuições, e tem aqueles que utilizam sua profissão em favor do seu próprio status social. Ou seja, aqueles que falam bem das bandas que acreditam serem adequadas para que sejam aceitas no seu círculo de amigos. Aqueles que são levados por qualquer modismo sem nenhum questionamento, que vêm a NME e similares como uma espécie de bolsa de valores musical, etc. E também aquele que é o meio termo, que entende e até gosta de música, mas é muito preconceituoso. 

Etc: Já ouvi gente chamando a música que você faz de indie, experimental, rock, mpb, música eletrônica etc. Como pensa sua música e o que acha dessa tentativa de classificação?

SC: Eu não sigo um gênero musical específico e tenho influências musicais bem diversas, então não dá para classificar mesmo. Não acho errado uma pessoa seguir os moldes de um determinado gênero. Acho até que é possível ser original dessa forma. Mas comigo não funciona assim. Eu penso primeiro na melodia, depois vou vendo o que ela me sugere. Daí eu posso partir para qualquer coisa.

Etc: Sua música traz arranjos criativos, uma mistura inteligente de elementos eletrônicos com cello, gaita, guitarras...um ecletismo de sonoridade, mas com uma identidade forte, com personalidade, com um conceito musical acima de tudo inventivo. A eletrônica tem sido recorrente na música feita no Brasil. Como vê o uso desses elementos eletrônicos na música brasileira atualmente?

SC: Independente do uso de beats, samplers, etc, as pessoas vão continuar recorrendo às novas tecnologias para gravar e editar músicas. Porquê o computador hoje é uma ferramenta obrigatória nos estúdios – todo mundo usa recursos eletrônicos de alguma forma.  Até quem faz rock n’ roll vintage. Mas se você pergunta sobre a cena eletrônica propriamente dita, seus gêneros e sub-gêneros... Não sei dizer exatamente. O que é certo é que muitas fórmulas estão desgastadas. Os artistas terão que trabalhar para encontrar novas saídas.

Etc: Talvez isso já tenha se tornado um assunto batido, contudo há muito que ser discutido ainda: o que acha da veiculação gratuita de música feita na rede?

SC: Os artistas de grande porte é que saem mais prejudicados. Para os independentes é uma excelente forma de divulgação. Em todo caso, o saldo geral sempre é positivo e democrático, pois os grandes não vão passar fome por causa disso, enquanto os pequenos têm mais oportunidades para crescer.

Capa do Hotel Continental
Etc:Considero seus discos, sobretudo Fim de Semana e Hotel Continental, crônicas precisas sobre a cidade de São Paulo, tanto em sonoridade como em letras (uma boa parte de autoria de Luciano Buarque). Quais são suas influências literárias e qual a relação da metrópole com o seu trabalho?

SC: Acho que na minha música fica mais evidente a influência de outros letristas do que escritores propriamente ditos. Mas, claro, a literatura sempre é absorvida de alguma forma. Só não sei dizer como ela aparece de uma forma objetiva. Ou seja, eu gosto, por exemplo, do John Fante, da Virginia Woolf, mas não sei apontar na minha música onde é que está essa influência. Mas sei que está de alguma forma, pelo menos o sentimento. Acho que com o Luciano acontece a mesma coisa, mas suas influências literárias são mais explícitas. Por exemplo, ele me passou uma letra em inglês recentemente que fala ‘Put a scarecrow at your door/let the old ghosts crying for more’ (coloque um espantalho na sua porta/ deixe os fantasmas do passado implorando por mais) que é nitidamente uma citação às avessas de O Corvo de Egdar Allan Poe.

Já sobre a cidade de São Paulo nas minhas músicas, acho que isso ocorre simplesmente porquê esse é o nosso cenário. É onde se passam as canções.

Etc: Pra finalizar, gostaria que você falasse sobre o clipe que está gravando e sobre projetos futuros.

SC: Sobre o clipe, o que dá para dizer até o momento (pois ainda estamos fechando algumas idéias) é que será filmado em 16mm e que a música escolhida foi Cassino, do Hotel Continental.

Sobre o próximo disco, estou me organizando para começar a gravar em Agosto. Não dá para saber ainda como será a sonoridade. Posso chutar que será mais psicodélico que os anteriores, com uma temática mais pesada, mas vamos ver no que vai dar. Para quem estiver curioso, já temos alguns títulos de faixas definidos: Estação de Trem Fantasma (Parte 1, 2 e 3), Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira e Brand New Robots.

Discografia de Stela Campos

Hotel Continental – 2005
Fim de Semana – 2002
Céu de Brigadeiro – 1999

participações e compilações:

A música toca – Loop B – 2003
Contraditório – DJ Dolores e Orquestra Santa Massa - 2002
Funziona Senza Vapore - 2002
Reginaldo Rossi - Um tributo – vários – 2000
Nueva Geración – New sounds from de latin community vol.1 – vários – 2000
Baião de Viramundo – vários – 2000
Enjaulado – trilha do curta-metragem – 1997
Baile Perfumado – trilha - 1997

site: http://www.stelacampos.com.br