

foto: Júlio Bittencourt
STELA CAMPOS transita fora do circuito da grande mídia e das grandes gravadoras desde o final dos anos 80, quando cantava jazz em casas noturnas paulistanas. Naquela época, além de standards de jazz, incluía em seu repertório releituras de David Bowie e Van Morrison. Em 91 funda a banda Lara Hanouska (nome tirado de uma artista plástica islandesa ou de uma atriz pornô underground, segundo declarações alternadas da cantora), paralelamente se junta a cult Funziona Senza Vapore, formada por ex-integrantes do Fellini, participando da gravação do único disco da banda, que permaneceu inédito por 10 anos até ser lançado. Em meados de 94 vai morar em Recife, onde remonta o Lara Hanouska com músicos locais. Lá conhece Chico Science & Nação Zumbi e vê nascer toda a geração do mangue beat. No final dos 90, Stela dá início à sua carreira solo e experimenta novas sonoridades, gravando, inclusive, trilhas sonoras para curtas-metragens e cantando a música tema do longa Baile Perfumado de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, filme-símbolo da mangue beat. Em 98, ainda no Recife, lança de maneira independente Céu de Brigadeiro, gravado e mixado em duas semanas, e considerado pela crítica como um dos álbuns mais inovadores do ano. No ano de 2000, volta a São Paulo e grava seu segundo disco, Fim de Semana, verdadeira crônica da grande metrópole, lançado dois anos mais tarde, também de maneira independente. Em meio a shows no circuito underground e participações em projetos musicais, Stela investe na carreira de jornalista, sempre exercendo a profissão. Seu disco mais recente, Hotel Continental, traz os elementos eletrônicos dos trabalhos anteriores, mas com uma sonoridade mais rocker e a mesma poesia bela e crua retratando a cinzenta São Paulo de forma certeira. Alheia ao velho esquemão da indústria fonográfica, caminha com as próprias pernas e continua fazendo o que sempre quis do jeito que escolheu, com a liberdade que só quem caminha do lado de fora pode encontrar.
Nesta entrevista exclusiva, Stela Campos fala do início de sua carreira nos tempos de Lara Hanouska, discorre sobre o que é ser independente hoje em dia, opina sobre o jornalismo musical feito nas redações e, entre outras coisas, fala do próximo disco, que deve começar a ser gravado em Agosto. (Sandro Eduardo Saraiva)
Etc: Desde a sua primeira banda e o disco gravado com os ex-integrantes do Fellini, você transita fora do circuito das grandes gravadoras e da grande mídia. Daquele tempo para os dias atuais o que mudou no cenário independente?
Stela Campos: Naquela época era muito difícil gravar e lançar um disco. Os computadores ainda não haviam se instalado na nossa vida. Não tínhamos Pro Tools ou Sonar, nem internet para divulgar. Tínhamos que nos conformar com as fitas demos e um esquema de divulgação bem precário.

Etc: Independente, alternativo, underground são termos já desgastados e até incorporados pelo mercado, o que é ser “independente” hoje?
SC: Basicamente é não estar em uma grande gravadora, financiar algumas coisas por conta própria e gravar somente o que nos der na telha.
Etc: Nos anos 90 você esteve envolvida na mangue beat, tem música na trillha do Baile Perfumado etc. Historicamente como você contextualiza o movimento no cenário da música brasileira?
SC: Acho que foi uma espécie de novo tropicalismo, no sentido de inserir elementos modernos/contemporâneos da música pop internacional em ritmos brasileiros. Mas, claro, o mangue beat teve sua própria personalidade. E seu maior valor é justamente o fato de ter sido um movimento muito autêntico. Acho que o lema ‘fincar uma antena parabólica na lama’ não era exatamente uma fórmula. Para eles, misturar samba e maracatu com hip hop e samplers era um passo natural.