Andrea Tonacci

Um cinema camaleônico

Serras da Desordem, segundo longa de ficção de Andrea Tonacci, ganhou os prêmios de melhor filme, direção e fotografia no Festival de Gramado desse ano. Este, então, torna-se um momento oportuno para um retrospecto da filmografia desse diretor que permanece sendo pouco visto e ainda menos compreendido.

Depois da positiva recepção do mitológico Bang Bang, Tonacci teve que esperar mais de trinta anos para ter a oportunidade de rodar um novo filme de ficção. Mas nesse intervalo o diretor nunca se manteve inativo e, como um camaleão que muda de cor para sobreviver às ameaças de seu habitat natural (e a megalópole do pequeno cinema brasileiro é muitas vezes mais árida do que a caatinga plena), foi buscar alternativas para o prosseguimento de seu projeto de cinema, fugindo dos estereótipos do “cineasta marginal” que tanto o perseguem desde a estréia de Bang Bang. O filme passou a ser a coroação e o martírio de Tonacci desde então. Porque se de um lado marcava a presença do diretor na história do cinema brasileiro, por outro, Tonacci passava a ser um autor à sombra de sua obra. Estigmatizado pelo impacto do filme, Tonacci passava a ser “o autor de Bang Bang”, ao invés de simplesmente ser “autor”.

À margem dos marginais, Tonacci foi buscar alento no contato com o outro. Refugiou-se primeiro no exterior, entre o Irã e a França, onde acompanhou a turnê internacional da peça de teatro de Victor García produzida por Ruth Escobar, dando origem ao longa documental Jouez Encore, Payez Encore (Interprete Mais, Pague Mais). Por tratar de forma crua o turbulento processo de criação da peça, concentrando-se nos bastidores de sua produção, Tonacci enfrentou resistências para a exibição do filme, culminando com sua interdição. Apenas na década de noventa, o longa, remontado (sua duração foi reduzida de 120 para 70 minutos), pôde voltar a ser exibido, mas permanece inédito comercialmente.

Em seguida, uma longa pesquisa sobre a questão do olhar desembocou no contato com a cultura indígena, praticamente “ameaçada de extinção”, num Brasil desenvolvimentista em que os índios eram vistos, pelo governo militar, como “entrave ao progresso brasileiro”. Numa cultura ainda não contaminada com o aparato tecnológico do audiovisual, o olhar indígena ainda poderia ter um frescor, um senso de novidade? A pesquisa propiciou um contato que gerou o longa documental Conversas no Maranhão, em que, se os índios ainda não tinham o controle dos equipamentos de cinema, eles poderiam ter voz para narrar suas adversidades e contar sua história desde tempos imemoriais. A poesia e a linguagem do “ter voz” rapidamente foram combinadas com a urgência da questão política, em especial da demarcação das terras indígenas. Política, poesia e linguagem.

A questão indígena prosseguiu com a série Os Arara. Originalmente produzida em três partes, apenas as duas primeiras foram exibidas na TV Bandeirantes, sendo que a terceira, em exibição na Mostra, nunca foi completamente finalizada, e permanece inédita. Na série, Tonacci acompanha o drama da nação Arara, não-contactada (isto é, sem contato com a “civilização”), que teve suas terras partidas ao meio com a construção da Transamazônica. Em um constante crescendo, de forma asfixiante, Tonacci vai desvendando os interesses em torno da construção da rodovia e tenta um inédito contato com os índios hostis, mediado por um sertanista da FUNAI.

Após a realização de Os Arara e vendo fracassadas suas tentativas de dirigir mais um longa, restou a Tonacci a realização de institucionais para que pudesse continuar na ativa. Por trás do academicismo dos projetos de encomenda, o diretor exercita a linguagem do audiovisual por meio de uma combinação de ritmos, imagens e sons de forma singular. Dentre estes, estão em exibição na Mostra, Brasil Bienal Século XX, Theatro Mvnicipal de São Paulo e Biblioteca Nacional.

Quatro olhares

Vendo a obra de Tonacci como um todo, é possível identificar quatro grandes linhas, quatro olhares em torno das quais a camaleônica filmografia do diretor se divide:

A primeira é o olhar experimental, que coincide cronologicamente com o início de sua filmografia, e é a sua vertente mais conhecida. Dela faz parte seu primeiro curta-metragem Olho Por Olho, e o primeiro longa-metragem Bang-Bang.

A segunda seria o olhar metalingüístico. Tonacci, através do cinema, sempre refletiu sobre o próprio processo de criação da obra de arte, inserindo uma auto-reflexividade que dialoga diretamente com o cinema como ato de construção de um discurso, contra a invisibilidade típica da narrativa clássica. Dessa vertente, integram Blá Blá Blá, um dos primeiros filmes que aborda o complexo tema de como os meios de comunicação perpetuam um discurso de massa, e Interprete Mais, Pague Mais, que se concentra nas turbulências em torno dos bastidores de uma peça de teatro, em processo de ser encenada. Mais recentemente, dentro de seus vídeos institucionais, Pra Ver TV Tem Que Ficar Ligado recupera a participação da TV na construção de uma sociedade brasileira, dando voz a defensores e críticos de sua estrutura de funcionamento.