
Quando Novena foi lançado em 1994, eu tinha 18 anos. Lembro-me que comprei este disco devido a uma canção que tocava no rádio chamada “Sem saber”. Sempre gostei do Djavan, ainda antes dos 18, quando ia visitar meus parentes na zona leste, ficava junto com minha prima cantarolando “Lilás” bem alto, irritando os passageiros do ônibus. Não entendia porque gostava. Acho que pra gostar não precisa saber o porquê. A gente, assim, simplesmente gosta. Tenho um número considerável de CD’s do Djavan, alguns com grandes sucessos, mais significativos para a crítica e outros nem tanto. É o caso de Novena, pouco comentado. Acredito que nem seja seu melhor trabalho.
Ouvir as canções de Novena me remete a infância, aquela dos pés descalços, do banho de chuva no verão, visitas das tias em casa e a mãe chamando para entrar porque já está tarde. Nelas encontramos coisas que nos são ditas quando somos crianças, como na música que abre o disco, intitulada “Limão” que diz “preparar o peixe cheiro de limão me encanta...” “... e o sangue é água, muita água, uma nascente.” Sempre ouvi coisas do tipo: chupar limão transforma o sangue em água, faz mal, assim como tomar manga com leite é perigoso, porque é veneno misturá-los. Coisas que nossas mães/tias/vizinhas nos diziam.
As letras repletas de imagens, falam além da infância, do amor, de crenças, velhice e morte. São fases da vida contadas nas músicas sofisticadamente bem produzidas e arranjadas. Foi neste disco também que comecei a prestar atenção nas “outras pessoas” que, além do Djavan, deixavam as canções “mais bonitas”: flautas de Marcelo Martins, o piano de Paulo Calazans e o belíssimo e reconhecível som do baixo de Arthur Maia, que a partir de então comecei a gostar e acompanhar o trabalho dele com outros artistas. Talvez por essas e outras este seja o clássico da minha eterna infância.
Adriana Aranha
Formada em Letras e pós-graduada em Literatura Contemporânea, faz parte da Redação e do Conselho Editorial da revista Etcetera.
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