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My Generation, The Very Best of The Who – The Who (1996)/ Time Out – Dave Brubeck Quartet (1959)

Tempos alternados

Ariela Boaventura

Das duas vezes foram aquele tipo de noite irrepetível ao longo de uma vida.
A primeira faz muito tempo, até esqueci o ano. Não lembrava como conhecemos o cara, nem o seu nome. Em algum momento o cara disse que trabalhava como procurador do Estado, e isso me deu confiança. Era um tipo meio barbudo, meio gordo, morava num décimo andar bacana e garantiu ter, além de um bom conhaque, uma pistola automática calibre 38. Aquilo foi um convite irresistível. Fomos, eu e um amigo, para a casa dele, bebemos conhaque espanhol (na verdade, um brandy), fumamos muitos cigarros, falamos sobre filosofias e lá pelas tantas ele pegou a automática. Era uma beleza, desenho moderno, levíssima. Ele chegou até a janela, apontou e, quando achei que estava de teatro, só encenando, deu um tiro para cima. Meu amigo se encolheu feito uma lagarta num canto. O Procurador me ofereceu a pistola como se fosse mais um gole de conhaque. Aceitei com um misto de honra e temor, nunca tivera antes uma arma de fogo nas mãos. Ele me ajudou a segurar corretamente, a destravar o cartucho e a mirar na Lua. Estávamos no décimo andar, pensei, a arma tinha um silenciador, eram umas duas da madrugada, eu estava bêbado, e, afinal, ele era uma autoridade e só alguém azarado receberia uma bala no quengo. Atirei, e a sensação foi como a do primeiro beijo: um mundo diferente se revelou. Atirei mais umas três vezes, sempre no coração da Lua. Acho que ninguém morreu lá embaixo, ou, se morreu, não reclamou. Voltamos para a sala, travamos a pistola; meu amigo continuava no canto, com cara de quem tinha tomado as dores pela Lua, e eu mirei nele, uma brincadeira sem graça que o deixou ainda mais amuado. Prosseguimos depois no conhaque, ainda eu e o Procurador, e falamos sobre detalhes da pistola e por algum motivo esquecido no fundo daqueles copos o assunto acabou pegando o rumo do rock. Ao falar de The Kinks, o Procurador lembrou de como tudo começou e por que estávamos ali.

Naquela noite, meu amigo me apresentou o Procurador em um bar, e lá mesmo ficamos falando de rock dos anos 60, e foi ainda lá que ele falou no The Who. Eu inacreditavelmente não conhecia a banda. O disco, comprado em Nova York, era uma espécie de bebê velho, uma coletânea com 20 músicas relançada em 1996. Seu título é uma homenagem ao primeiro LP da banda, My Generation, de 1965 – cuja faixa de mesmo nome é classificada pela revista Rolling Stone como uma das melhores canções de todos os tempos. E foi por causa desse disco que acabamos indo ao apartamento do Procurador, com a adição da pistola e do conhaque. É uma pena que as melhores coisas da vida sejam, como o amor, tão difíceis de se expressar. Assim, volto à história.

O Procurador foi até o quarto e de lá trouxe My Generation, The Very Best of The Who, imediatamente colocado para tocar, e aquilo foi como um tiro. Como eu não conhecia? Era rock britânico do mais alto calibre; a bateria soava como um coração explodindo, a voz de Roger Daltrey tinha uma energia avassaladora, traumática; o baixo caçoava do talento humano. Notas que eu sempre desejei, mas jamais havia escutado. Foi arrebatador. Foi irresistível pedi-lo emprestado. O Procurador não somente emprestou, com as devidas recomendações (disco importado, sem arranhões, coisa sentimental), como cedeu a garrafa pela metade do tal brandy espanhol. Generosíssimo, também ofereceu de presente, em homenagem à noite e ao papo, uma garrafa de um Buchanan's 12 anos. Era inacreditável, eu tinha conseguido emprestado o disco que mudaria minha concepção do rock, havia atirado com uma automática silenciosa, leve e elegante, e ainda levava de presente duas garrafas de destilados de primeira linha, e tudo isso apenas por partilhar dos gostos do Procurador. A quem, infelizmente, jamais reencontrei: meu amigo estava muito mal-humorado e por conta disso acabei esquecendo de pedir o telefone do cara; depois, devido ao brandy, tampouco lembrávamos onde ficava seu prédio, o que me obrigou a guardar com carinho esta jóia musical.

A segunda história aconteceu uns 10 anos depois, e por ser mais complexa é preciso deixá-la mais enxuta, pois envolveu convívio extremo e conhecimento mútuo para que acontecesse de forma tão magnífica. Além disso, eu teria de contar sobre meu amor a outro gênero de música, e isso poderia ser muito entediante. De maneira que parto do final.

Minha ex-mulher concebeu uma surpresa que fez vibrar minhas cordas internas, mas dessa vez, em vez do rock, a coisa envolvia o jazz. Era meu aniversário de 30 anos, eu acho, e ela comprou de presente um livro e um disco, e, não bastassem as escolhas fatais, sensivelmente ela teve a idéia de cometer o mimo de escondê-los pela casa e me fazer achá-los.

Após certa excitação e suspense, encontrei o disco atrás da estante de livros, e lá estavam eles, homúnculos devido àquele suporte físico: Dave Brubeck e seu quarteto. O nome do cíclope é Time Out, um colosso absoluto gravado em 1959, 14 anos antes de eu nascer. O jazz, na época em que esse disco foi criado, era tocado em geral em 4/4 tempos. Time Out rompeu com isso e causou algo semelhante a uma epilepsia sonora em meu cérebro. Suas batidas eram em 5/4, como a clássica “Take Five”, ou em 9/8, como “Blue Rondo à la Turk” – sendo que esses são os tempos básicos das músicas: dentro da partitura se encontram outros tempos, alternados com o tempo leitmotiv. Esse disco é uma experiência vital, e foi uma demonstração de amor enternecedora recebê-lo de presente, é uma daquelas coisas que causam uma cicatriz no coração, já que eu devo ter falado apenas uma obscura vez de Dave Brubeck e do outro presente a ela, e falei sobre eles certamente em dias bastante alternados no tempo. Memórias raras que fazem pingar saudade dos olhos.


Ariela Boaventura é escritora e jornalista e adora advérbios. Nasceu em Porto Alegre (RS), onde ainda mora e trabalha com cinema, artes visuais, literatura e música, mas em breve deve morar junto a um fiorde na Escandinávia. Atualmente, ouve Robert Fripp, Alexander Hacke, Mercan Dede e Omar Faruk. Seus textos podem ser lidos no Não-Til (www.nao-til.com.br), revista Etcetera (www.revistaetcetera.com.br); Paralelos.org (www.paralelos.org.br), no blog Cataphracto Parto (www.plasil.bitacoras.com) e na revista Cartaz, Cultura & Arte.
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