
Eu estava na porta da Igreja Nossa Senhora da Salete, em Santana, minha pátria, quando o Carlos José mandou:
- Aí Jair, saiu o Alma de Borracha, você ouviu?
Do alto de minha dureza extrema, de meu cabelão alisado na marra, em casa, para parecer um afro-Beatle, nem respondi, mas meu olhar de profunda superioridade e desprezo respondeu a pergunta.
Fui atrás. Escutei o disco em todos os lugares onde dava, não tinha vitrola, tentava imitar o Ringo tocando uma bateria imaginária e cheguei ao ridículo, não bastasse o cabelão, de ir para a aula no ginásio Cedom com quatro anéis nos dedos, como usava meu batera favorito, enfim...
O Rubber Soul (Alma de Borracha) é um momento de muita felicidade em minha vida. Da abertura maravilhosa do álbum com “Drive My Car”, onde solo de guitarra, baixo e vozes meio rascantes e os deliciosos vocaizinhos bi bi bi bi yeah se cruzam maravilhosamente! Até a cítara de “Norwegian Wood” passando pelos lindíssimos vocais de “You Won’t See Me, Girl”. O classicão “In My Life”, a abertura a capela de “Nowhere Man”, como diria o vulgo: São tantas emoções.
Meu amor pelos quatro cavaleiros de Liverpool já existia desde a primeira vez que escutei no rádio “I want to hold your hand”, mas nesse discão de 1965 trocamos alianças e casamos. Para sempre.
Jica Thomé
Um dos fundadores do grupo Tarancón de música latino-americana. O “outro” da dupla musical hilária Jica y Turcão. Produtor bem sucedido de shows e eventos somente de quem gosta e punk tardio. Pai de família.
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