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The Kinks are the Village Green Preservation Society  (1968)

Um Disco com Dúvidas

João Paulo Leite

O que chamamos rock é na verdade uma trama de manifestações diversas nas quais geralmente se destaca uma característica que podemos denominar de alguns modos: convicção, assertividade, contundência, ênfase etc. De certo, a preponderância desta característica tem uma espécie de justificativa social: estamos falando de uma das primeiras produções culturais de massa feita especificamente para jovens, e os valores que esta produção veicula mimetizam o que se acreditaria tipificar esses grupos de indivíduos; ao mesmo tempo, uma música sem meios-tons, simples e forte se oporia a uma cultura estabelecida, tradicional, baseada em valores semelhantes àqueles que legitimam a respeitabilidade de uma família... Os famosos três acordes colocariam isso abaixo sem muita retórica.

Eram contundentes os rebolados de Elvis Presley e Little Richard, eram assertivos os riffs de Chuck Berry e os dedilhados de Jerry Lee Lewis.

É claro que este processo não se deu apenas no universo da música pop. As artes visuais viram surgir ainda na década de 1910 um turbilhão de experiências contundentes que, quando acondicionadas nos escaninhos dos “ismos”, desviam o foco de sua potência revolucionária e por vezes anárquica; de modo análogo, o cinema dos anos 1920, a partir de uma matriz soviética, redefiniu numa estética assertiva nossas referências espaço-temporais. Assim como ocorreu no rock, estes campos de experimentação artística foram em boa parte desbravados por sujeitos com menos de 30 anos e estimularam outros jovens ao trabalho artístico. Mas o impacto destas produções foi de certa forma circunscrito pela rubrica “vanguarda” – seu alcance real, para além do escândalo e do choque, ficou limitado a grupos de iniciados. 

Eram convictos os arranjos psicodélicos dos Beatles pós-1966, eram convictos os corinhos psicodélicos dos Beach Boys em Pet Sounds, era convicta a demência psicodélica de Syd Barret dentro e fora do Pink Floyd.

O rock teve esta particularidade: uma vez eleito linguagem jovem por excelência, sua contundência foi prensada em discos de vinil com tiragens crescentes, levando a públicos igualmente crescentes invenções preciosas e suas imediatas pasteurizações. A contundência era estimulada e premiada com a imitação, até que uma novo lance contundente a tornasse obsoleta, numa progressão que durante alguns anos pareceu natural.   

E quanta ênfase na guitarra indomável de Jimi Hendrix, na voz ácida de Janis Joplin, no engajamento poético de Bob Dylan...

Entretanto, nem todos os grandes discos de rock são convictos, assertivos, enfáticos. Em 1968 a banda inglesa The Kinks lança um disco ao qual falta essa ênfase – um disco que parece ter dúvidas. Provavelmente Ray Davies e sua trupe não tivessem plena consciência disso, já que a banda irrompeu no cenário musical britânico por meio de um dos riffs mais enfáticos da história do rock: os cinco sons primevos de guitarra que introduziram “You really got me” em 1964. Mas o disco lançado alguns anos mais tarde pouco lembra este potente riff: The Kinks are the Village Green Preservation Society carece de uma formalização mais categórica, parece se contradizer a todo instante, dá pistas falsas para seus próprios autores, fica deliciosamente no meio do caminho – por isso, é essencial.

Era assertiva a sujeira do MC-5, a sujeira-elegante do Velvet Underground e a sujeira-canhestra dos Stooges.

The Kinks are the Village Green Preservation Society parece, à primeira vista, um disco ligado a uma certa noção de ecologia. Isso nos seria informado não apenas por suas letras aparentemente nostálgicas e quase conservadoras, mas também por arranjos telúricos, cheios de sons “naturais”, delicadamente orgânicos. Mas a noção de ecologia que alimenta o disco está longe daquilo que a palavra convencionalmente indica. Essa ecologia pode ser decodificada pela faixa inicial – “The Village Green Preservation Society” – que mistura, irresponsavelmente, o clamor pela defesa da geléia de morango, do inglês vernacular de Sherlock Holmes e dos “antigos caminhos” à preservação do Pato Donald, do Fu Manchu e do Drácula. É como se a própria idéia de natureza estivesse em xeque: como separar elementos que estão imbricados no cadinho da cultura pop? O que preservar e o que descartar? Não causa estranhamento a presença constante da expressão “God save” principiando os versos e misturando ainda mais os termos da equação; só uma intervenção superior poderia colocar ordem numa hierarquia definitivamente rompida.

Foram enfáticas as pretensas inclinações satânicas dos Rolling Stones, os instrumentos e hotéis destruídos pelo The Who, todo o escândalo em torno dessas coisas...

Não há mocinhos e vilões no disco, embora exista uma certa polaridade, da qual o sujeito do discurso não consegue se distanciar; trata-se de uma polaridade que se manifesta principalmente entre o antigo e o novo. Aqui, devemos fazer algumas considerações. A primeira, evidente em The Kinks are the Village Green Preservation Society, diz respeito ao fato de que o “antigo” costuma ocupar o que poderíamos chamar de “pólo positivo”, enquanto o “novo” seria o “pólo negativo”. Assim ocorre em “Do you remeber Walter?”, onde a letra afirma, após lamentar o quanto teria mudado o personagem do título: “Walter, you are just an echo of the world you knew so long ago”(1). Não deixa de ser curioso que um disco de rock nos anos 60 apareça louvando os tempos antigos, ao invés de se colocar ao lado da renovação permanente. Mas este elogio do passado não é desprovido de contradições; as figuras que o representam são meio ridículas, como ocorre em “Last of the Steam-Powered Trains”, onde um trem a vapor experimenta um descanso involuntário num museu após um passado supostamente glorioso. É como se este passado só pudesse ser reconstituído por meio de uma memória romântica, que o idealizasse – por isso as metáforas perfeitas são o museu e o turismo.

Quanta convicção não tinham Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple para tocarem neste volume? Quanto não aprenderam com a convicção do Cream? Quanto de convicção não transmitiram ao AC/DC?

Na música “Village Green” talvez tenhamos algumas chaves para entender esta suposta dicotomia entre o antigo e o novo, artificialmente suturada pelo turismo. Em certa momento, a letra diz: “Although I loved my Daisy, I saw fame / And so I left the village green”(2). Aqui, o passado só se revela em todo o seu charme quando é de fato passado, já que a versejada “village green” teria sido abandonada em tempos remotos por um atrativo outro – a fama. E é esse distanciamento temporal que cria uma certa imagem do vilarejo e que alimenta o turismo em torno da aprazível localidade: “American tourists flock to see the village green / They snap their photographs and say: ‘Gawd darn it / Isn’t it a pretty scene?’”(3). A fotografia, prática compulsiva dos turistas, é um elemento central dessa idealização do passado, e como tal reaparece algumas vezes no disco;em duas músicas, ela é a moção principal: “Picture Book” e “People take pictures of each other”.

E o punk? Houve algo mais decidido que os 2 minutos de cada música dos Ramones? Houve algo mais enfaticamente cínico que Sex Pistols? Houve algo tão simplesmente enfático quanto Dead Kennedys?

O interesse pela fotografia é algo pouco comum entre bandas de rock da década de 1960. Este assunto aparece, por exemplo, na música "Pictures of Lily" do The Who, mas aqui a fotografia nada mais é que o substituto imediato da garota: uma inspiração para punhetas – tem a mesma função representacional de um desenho erótico e nada comenta sobre o real impacto da fotografia na circulação social de imagens, principalmente ao longo do século XX. Já nos três momentos em que aparece em The Kinks are the Village Green Preservation Society, a fotografia surge em toda sua potência, ou seja, como uma linguagem que se impõe sobre o mundo, que o reproduz e o substitui, em muitos momentos adquirindo uma efetividade maior do que ele. A consciência da banda em relação a esta potência está bem descrita em “People take pictures of each other” (faixa que, não por acaso, fecha o disco): “People take pictures of each other / Just to prove that they really existed”(4).

Estados depressivos podem ser tão contundentes quanto um grandioso riff: que o digam Joy Division, Smiths, Jesus and Mary Chain etc.

Mas talvez as constantes referências à fotografia não aconteçam apenas para se referir a uma determinada situação, mas também para apontar um temperamento autocrítico; a fotografia é também a melhor maneira de explicar o modus operandi do disco em questão. A banda de Ray Davies de fato fotografa um certo passado, emoldurando-o e o engessando – na foto, este passado parece bacana, mas não nos iludamos, pois é só uma fotografia. Ao mesmo tempo em que coloca a linguagem fotográfica na berlinda, The Kinks are the Village Green Preservation Society se alimenta dela para criar um retrato irreal de um passado construído a posteriori. Não há adesão efetiva a qualquer valor, sequer as referências sonoras são genuínas – os timbres simulam a todo momento uma natureza que não existe, meio elétrica, meio composta, nada espontânea. Os próprios personagens que surgem aqui e acolá são ambíguos: “Phenomenal Cat”, “Wicked Annabella” e “Monica” ocupam um espaço indefinido entre o bem e o mal. É este o trunfo do disco e (durante um certo tempo) da banda – sua inteligência quase tática, sua consciência de transitar num terreno minado (já descrito pela arte pop), no qual qualquer afirmação categórica tende a se tornar ingênua, moralista, no mínimo suspeita.

O rock precisa de músicas contundentes, atitudes contundentes, fantasias contundentes – daí a importância do surgimento do Nirvana e a melancolia toda que o cercou.

O resultado é um disco que aceita as contradições do mundo e não procura resolvê-las numa dúzia de músicas. Essa permanente ambigüidade, essa aceitação simultânea do sim e do não – fotografia ao mesmo tempo real e artificial - se esvaece em Arthur (or the Decline and Fall of the British Empire), disco lançado pelo The Kinks no ano seguinte. Este sim é um disco enfático, que constrói uma crítica afiada da classe média britânica dos anos 1960 em músicas cheias de surpreendentes variações internas. Neste sentido, difere de The Kinks are the Village Green Preservation Society, muito embora devamos considerar a hipótese de que, para a própria banda, a transição de um disco ao outro tenha parecido mais sutil do que este texto argumenta. Melhor assim: o estranhamento torna-se mais potente, e pode ser de fato preservado.


João Paulo Leite é artista plástico, ouve Traffic e Lupicínio Rodrigues e torce para o Santos F.C.
jleite75@hotmail.com

Notas:

1) “Walter, você é apenas um eco do mundo que você conheceu há muito tempo.”

2) “Embora eu amasse Daisy, eu vi a fama / Então eu deixei o vilarejo verde.”

3) “Turistas americanos se juntam para ver o vilarejo verde / Eles tiram fotos e comentam: ‘Deus, que coisa! Não é uma bela cena?’”

4) “As pessoas fotografam as outras pessoas / Só para provar que elas realmente existem”. Ironicamente, esta música foi usada há pouco tempo pela empresa de produtos de informática e de impressão HP em um comercial de televisão, para divulgar sua nova linha de scanners e impressoras. Como seria de se esperar, nesse comercial a vocação crítica da música foi substituída por uma apologia da imagem, muito embora tivesse sido utilizada a versão original presente em The Kinks are the Village Green Preservation Society.