
Negro, eu nunca gostei de música nenhuma – foi até os quatorze anos. Era surdo para qualquer tipo de música. Associava música a fraqueza espiritual, playboys, gays, e ao medo de mulher.
Na idiótica cidade do Rio de Janeiro, onde cresci, os que cresceram comigo usavam música para dançar. Eu não dançava, a minha mãe pintava os meus sapatos, o meu pai me vigiava para que eu não arrumasse mulher antes da idade de fazer a barba.
Um pulo para trás. Tinha seis anos e passava de olhos fechados pela galeria onde uma capa de um disco com uma caveira rindo, segurando um machado e um par de mãos agarradas à camiseta, a vítima não se via –tinha sangue no cutelo – escorrendo pelos dedos. E eu tinha medo da mulher torta, de pivetes e de pretos. Nazismo danado, crianças do Brasil. Medo, o maestro da minha vida, medo sejas o meu Deus. Então sozinho, dez anos depois, andando pela rua em uma Quarta-feira de Cinzas, entrei em uma única loja de discos ainda aberta. Cheiro estranho lá dentro. Macumba. Tinha uns quatorze anos e fiquei ali vendo a diferença das capas enormes dos vinis. Estava lá a caveira segurando o machado, muitas caveiras fazendo um monte de coisas diferentes, uns egitos, a voz aérea. Enfim sós! Nos encontramos. Em cima do nome das caveiras, com aquelas capas, escrevia-se IRON MAIDEN. Fiquei ali mexendo os dedos, passando os discos, nunca tinha feito isso antes, estava meio nervoso. Coisa séria aquilo ali. O Céu cinza da quarta-feira. E uma destas capas me chamou a atenção. A mesma caveira, agora careca, enrolada em umas correntes, no que seria um quarto de hospício. Fui em casa, peguei dinheiro, voltei meia hora antes da loja fechar e comprei o disco. Crescer sem ter ninguém para imitar é horripilante. Nesta época eu tinha quatorze anos e o meu único herói era Jesus Cristo e convenhamos, imitar Jesus na adolescência é botar uma moeda quente dentro do cérebro e costurar de novo – passa-se mal e fica-se magro. Mas quando abri o vinil e vi aqueles caras em uma mesa, parecendo um filme, de filme eu gostava, pareciam uns soldados do demônio, mas eram nobres, eu me indentifiquei. Quando pus o disco e a primeira faixa, o calor, a luz, aquilo ali não era música para se dançar, tinha certeza, e duvido que se dance esta música. Cara, as metralhadoras feitas com bateria e baixos galopantes imitando os cavaleiros. Os mil e um cavaleiros mortos na batalha do apocalipse e do Gladiator, passagens da Bíblia, que eu reconhecia nas músicas, ali, eu me reconheci, o meu destino era levar as machadadas, era me transformar na Caveira do Iron Maiden - do Piece of Mind.
Deixei o cabelo crescer e procurei lojas onde encontrasse mais discos da mesma raça. Encontrei um monte de zés-ruelas, que como eu não dançavam, que como eu achavam que estavam tocando a música errada, que estávamos elegendo os idiotas como os caras legais. ”Metal está no sangue.” Suicídio e sofrimento e o diabo e forças sobrenaturais, era o papo da rapaziada, depois a cachaça, alguns playboys se convertiam, que alegria! – tapa na orelha. A gente apanhava mas o último grito era ”Vou te matar!”. Um amigo meu viu o pai entrar em casa pegando fogo – inveja geral, não minha. Nunca tive problema com a minha família, eles deixaram os meus cabelos ficarem longos. Me parecia com Jesus – em silêncio Jesus morava em mim. Mas o Jesus da mesma página repetida que dava chicotadas e corria pelo templo acusando os vendilhões – nesta época eu nunca passava desta página, o disco empenou. Fiquei repetindo esta página por muitos anos com o pessoal do Metal, até que muito mais tarde, já de cabelos cortados, desta vez em Londres, achei um LP (quer dizer CD) chamado Tender Prey.
Religião voltava refinada mas era difícil ir com a cara do vocalista, que me parecia meio metido - ou sem humildade. Me enganei porque não sei reconhecer gênios. Nick Cave and The Bad Seeds. Mais Bíblia. Não vou dizer que o impacto foi tão devastador quanto a descoberta do Iron Maiden, afinal você tem que entender que quando descobri o Piece of Mind eu não havia escutado música nenhuma até ali. Mas Nick Cave and The Bad Seeds me mostraram uma nova dimensão na imitação de Cristo, o sofrimento, a perda, o maior agouro do mundo– tudo isso em uma única faixa – ”The Mercy Seat” (para mim a única música que deveria ter ido dar voltas no satélite de ouro). Eu acredito que nunca em toda a minha vida escutei tão repetidas vezes a mesma música – inteligência pura - imbatível. Depois de um tempo esta música me dava imagens que me forçavam a escrever – tem uns diabos aí que chamam isso de mantra. Inspiração, eu chamo. ”The Mercy Seat” é a história de um condenado a cadeira elétrica, é de uma perfeição tão grande que é impossível não percorrer de corpo e mente a alma do último segundo do assassino. Nem o acusado tem certeza se é culpado ou inocente, mas tem certeza que é vítima e que vai morrer. Jesus Cristo, de acordo com Nick Cave, também foi a vítima, a vítima da nossa falta de imaginação. E assim como o condenado na música, que tiram de casa para que a justiça sangrenta seja feita [espera aí que eu vou ligar o CD… tenho que escutar isso mais uma vez, buceta! Ah, a sexualidade invertida!…] Ah, ovelhinha, sejam mansos como as ovelhinhas, quantas facas escondidas? E pensar que tantos perderam isso em nome das mulheres, da onda maneira e da dança. Obrigado Senhor por me entortar (ou desentortar) desde criança, por ter me educado e feito esperar, olho por olho dente por dente, e tudo que se derrete é outro nome para a sua perfeição parda deste arco-íris em poça de água parada, o arco-íris erigido de duas poças sujas. Futuro e mais que futuro. And I’m not afraid to die…
But I’m afraid I told a lie
Jorge Cardoso é escritor. Nasceu no Rio de Janeiro. Mora em Umeå, na Suécia. Já trabalhou como empacotador de peixes, enfermeiro de manicômio, boxeador de rua, bookmaker de corridas de cachorro e roteirista de curtas-metragens. Tem dois livros publicados: Mal Pela Raiz (ed. Baleia) e Um Cavalo no Cemitério de Deus (Atrito Art Editorial).
