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Jards Macalé – Jards Macalé (1972)

O Primeiro disco do Macalé

Marcelo Montenegro

Distinto Público/ Vou ficar aqui exposto à audição pública/ Como o faquir da dor”. O começo do segundo disco do Macalé, Aprender a Nadar – ou Jards e Wally Sailormoon apresentam a Linha de Morbeza Romântica – me impressiona até hoje. “O faquir da dor”. Caralho... E mal dá tempo de voltar pra dentro da respiração que o cara já emenda “Vale a pena ser poeta/ Escutar você torcer de volta a chave/ Na fechadura da porta...”. E lá na frente têm ainda aqueles “jatos de sangue/ espetáculos de beleza” que parecem querer saltar do vinil tal a visceralidade daquilo. É isso que eu chamo de começo, continua com Macalé reinventando Valzinho e Orestes Barbosa: “Se a imagem é maluca/ Se eu sou mal compositor/ É que eu tenho a alma em sinuca...”. Depois vem “Anjo Exterminado”, mas aí já não é mais começo, nem é o disco sobre o qual quero falar.

Só queria registrar que Aprender a Nadar foi um dos trabalhos – e não tô falando de discos apenas – que primeiro me incutiram a idéia de linguagem: uma construção fudida de letra, melodia, divisão e tonalidades do canto – Macalé é mestre nisso, indo da delicadeza ao gutural sem perder la harmonia jamás –, o jogo dos músicos, a seqüência das faixas, as bagagens da vida e o manejo preciso de tudo no estúdio (“tô amando em 78 por segundo rotações”). Um trabalho seríssimo e ao mesmo tempo auto-irônico. Com liberdade e conhecimento de causa – apesar da verve de humorista, estamos falando de um músico, arranjador e instrumentista formidável – pra inclusive tratar a linguagem como uma espécie de playground.

Mas o disco que quero falar é o primeiro do Macalé. Que tem “Mal Secreto”: “Não choro/ Meu segredo é que sou um rapaz esforçado/ Fico parado calado quieto/ Não corro não choro não converso/ Massacro meu medo/ Mascaro minha dor já sem sofrer/ Não preciso de gente que me oriente ...”. O poema que eu gostaria de ter escrito. Uma das músicas mais pungentes e bem escritas de que tenho notícia. A propósito: li esses dias um artigo do David Arrigucci Jr. no Estadão dizendo justamente o que eu sempre pensei sobre João Cabral de Melo Neto. Que em seu “trabalho de arte” – expressão cunhada pelo próprio para definir a essência da sua concepção poética – ele se vale de “todos os recursos da inteligência ou da técnica” não como um fim, mas, ao contrário, para “intensificar a emoção”.

Justamente o que faz a brilhante sacada “E tudo o mais jogo num verso/ Intitulado Mal Secreto”: emociona e arrepia os pêlos da inteligência. Sem medo nenhum e com uma baita consciência estética, Macalé enfia o pé na jaca do que sente pra voltar com um disco único, radical, atemporal. O tal “trabalho de arte”: “com as mãos frias/ mas com o coração queimando” (“78 rotações”, Macalé/ Capinam). E mesmo quando “apenas” interpreta – vide, sobretudo, “Rio sem Tom/ Blue Suede Shoes” e “4 Batutas e 1 Coringa” – ele assina o que tá cantando, entre o desespero e o deboche, o contido e o escancarado: “Macalé vai por caminhos tão opostos ao esperado que é preciso recalcular os ouvidos de acordo com os novos códigos do intérprete” (Tárik de Souza). Esse disco me deu um nó.

Direto na veia com uma cozinha sonora impecável que além do Jards conta com o Tuti Moreno na bateria e o Lanny Gordin no violão e baixo elétrico. Aquilo não era MPB, nem fodendo. Do mesmo modo que era rock´n´roll pra caralho sem ser rock. A maioria das parcerias é com o Capinam, incluindo “Farinha do Desprezo” e as lindíssimas “Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata” e “Movimento dos Barcos”, cuja versão nesse disco é insuperável. A dupla Macalé/Wally – espécie de Tom/Vinícius dos “aturdidos pela vida” como diria Lester Bangs –, que atingiria o ápice em “Aprender a Nadar”, além de “Mal Secreto” comparece com “Revendo Amigos” – “Se me der na veneta eu morro/ Se me der na veneta eu mato”. Tem ainda “Farrapo Humano” do Luís Melodia e “Lets Play That” com o Torquato que leva a dissonância depois de quase roçar o insuportável a uma sofisticação absurda – “Vá bicho desafinar/ O coro dos contentes...”. E o Lanny, lenda como guitarrista, criou nesse disco umas das linhas de baixo mais fudidas da história.

Assistindo a estréia de Postcards de Atacama (1998,99?) no Centro Cultural São Paulo, meu amigo Mário Bortolotto – autor, diretor e criador da trilha do espetáculo – teve a manha de botar “Hotel das Estrelas” (Macalé/ Duda) numa cena: “Dessa janela sozinha/ Olhar a cidade me acalma/ Estrela vulgar a vagar/ Rio e também posso chorar...”. Porra. Arrepia. Mais ou menos na mesma época (uns anos antes talvez) assisti um show no Tuca com o Itamar Assumpção, o Macalé, a Miriam Maria e o Paulo LePetit. Em determinado momento, ficam no palco apenas o Jards e a Miriam. Ele dedilha o violão e ela engata: “Meu amor é um tigre de papel/ Range ruge morde/ Mas não passa/ De um tigre de papel...”. Em ambos os casos, eu na platéia sentindo e sabendo o puta privilégio que era estar ali. Ligando as coisas.  

Então vira e mexe esse disco me volta. Foi legal pra caramba saber que o Itamar e o Paulinho Barnabé – que acabariam virando grandes referências – ouviam esse disco sem parar no começo dos anos 70. Que 30 anos depois, o brother Napetinha – vulgo Noa Stroeter –, baixista que deve ter no máximo 20, 22 anos, teve uma banda cujo repertório era simplesmente esse disco inteiro. Um disco – como pode? – profundo e simples; experimental e lírico. Um disco que em tudo me deu novos padrões de exigência (“meu segredo é que sou um rapaz esforçado...”). Quando o descobri ainda morava com meus pais – ”Na selva do meu quarto entre florestas cartas/ Frases desesperadas...”. No entanto, ouvir discos como este – “o que me ensinavam essas aulas de solidão”? (Ferreira Gullar) – já era estar sozinho.


Marcelo Montenegro é torcedor do Santos F.C. e autor do livro de poemas Orfanato Portátil (Atrito Art Editorial, 2003). Além do trampo com o Cemitério de Automóveis é editor e roteirista de vídeos – tendo feito trabalhos com Edvaldo Santana, Patife Band, Cuelho de Alice e Cascadura, dentre outros. Ao lado dos amigos Batata, Presidente e Negão; mantêm uma “produtora” anarco-chinfrim chamada Bedrock.
marcelomontenegro@uol.com.br