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Treasure – Cocteau Twins (1984)

Treasure 1984

Paulo Scott

 Isabela era uma garota rockabilly de dezessete anos que discotecava na noite mais fraca dum bar gay no Centro da cidade, o Enigma. Na época, ela andava com a Rita, uma namoradinha que eu arranjara na faculdade. As duas eram tipo as melhores amigas naquele ano. Numa sexta-feira, feriado de Corpus Christ, Isabela inventou uma festa de vinhos e cucas que ela mesma fazia. A festa não deu muito certo, dois caras resolveram brincar de “vejam, está nevando” com um dos extintores do corredor do prédio. Tumulto brabo. No final, fiquei para ajudá-las a atenuar o estrago. Enquanto limpávamos os móveis e o piso, Rita, que já estava sem graça, acabou tomando meia garrafa de vodka sozinha. Seu ex-namorado de quase três anos apareceu na festa, com uma das surf girl mais cobiçadas da cidade (ali ficou claro pra mim que nosso pequeno caso não era grande coisa mesmo). Quando terminamos a faxina, Isabela abriu uma garrafa de uísque do seu pai e me serviu uma dose, foi até o seu quarto e voltou com três vinis de uma banda que eu não conhecia. Ficamos ali, sentados no tapete (com Rita dormindo entre nós), escutando músicas cheias de sobreposições de vozes, cantadas numa língua que não era língua nenhuma. Conversamos umas bobagens, ela buscou uns cobertores e esperamos o dia amanhecer. Aí pelas oito, levantei e peguei o extintor. Disse que daria um jeito de recarregá-lo e trazer a tempo de ninguém perceber (seus pais voltariam na segunda e não valia a pena arriscar). Ela me agradeceu e disse que se eu quisesse poderia gravar umas fitas com os discos da sua coleção. Sugeri que nos encontrássemos no meio da semana. Ela concordou e me deu uma chave reserva para eu entrar no edifício, caso tivesse saído. Por sorte, encontrei uma loja aberta e antes do meio-dia o extintor já estava de volta no seu lugar de sempre.

 Na terça da semana seguinte, possivelmente, o dia mais frio daquele ano, aí por volta do meio dia, liguei pra sua casa. Marcamos de falar à noite (depois que eu saísse da faculdade). Acertei uma carona com o Carlos Pedra, um colega que tinha um fusca e morava perto da rua de Isabela. Mas acabou que eu me atrasei e quando fui procurá-lo no estacionamento o sujeito já não estava mais. Eu estava só de camisa, mas não vacilei, peguei um ônibus até o Centro e de lá outro pra Higienópolis. Enquanto eu caminhava pela Avenida Plínio Brasil Milano (a umas três quadras da rua dela), começou a cair uma garoa que me gelou inteiro. Na frente do prédio, consultei as horas: quase meia-noite. Por um instante, fiquei sem saber direito se tocaria ou não o interfone, mas acabei apertando o botão do trezentos e um. Ela atendeu, mandou eu subir. No começo, fiquei meio constrangido (era tarde), mas ela disse que tudo bem, seus pais eram legais, achavam que, naquela hora da noite, era melhor ela receber um amigo em casa do que andar pelas ruas do Bom Fim, bebendo em botecos de roqueiros. Falei que estava congelado. Ela disse pra eu ir direto pro quarto, disse que esquentaria um chá de camomila com mel pra eu tomar. Quando entrei na peça, vi que em cima da cama havia a capa de um vinil daquela mesma banda que ela me mostrou na madrugada do sábado (não era, porém, nenhum dos três discos que ela havia tocado). Sentei no carpete, fiquei escutando o disco que deveria ser aquele cuja capa vazia estava em minhas mãos. Não demorou mais que uns poucos minutos para ela chegar com um prato de biscoitos caseiros e uma caneca de chá, numa dessas bandejas de servir café da manhã. Assim que colocou a bandeja no chão, foi até o ar-condicionado e aumentou a temperatura, pôs a mão no bolso da calça e tirou duas cartelas de comprimidos, uma de Aspirina e outra de Coristina, disse pra eu escolher a que mais me agradava, mas que o melhor seria tomar uma de cada.

 Foi uma noite estranha, quase não falamos. Ela deixou os discos rodarem enquanto escolhíamos as faixas que seriam gravadas, fiquei olhando-a tricotar e sorrir com os lábios apertados. Pelas três da manhã, quando os quatro discos já haviam sido escutados, ela pediu para eu rodar de novo o Treasure, disse que gostaria de escutar mais um pouco o vinil que comprara naquele dia mesmo (o som não podia ficar muito alto, pra não incomodar seus pais; então, as guitarras distorcidas, as camadas e mais camadas de timbres sintetizados e aquelas vozes que eram todas da mesma cantora iam se misturando, às vezes quase inaudíveis, com o sorriso que não saia do seu rosto).

 Fomos até as cinco e meia, quando os ônibus já estavam circulando novamente e eu poderia voltar pra casa. No térreo, parados na porta de vidro entreaberta, dissemos algumas coisas engraçadas um pro outro e ela prometeu gravar a fita ainda naquela semana. Nos encontramos na sexta, no sábado e no domingo. Eu, um surfista que gostava de Jung, David Cooper e Reich. Ela uma rockabilly que andava sempre com uma hering branca por dentro do jeans preto, usando congas azuis e só namorava dois tipos de garotos: os adoradores do Cure e The Smiths ou os punks mais doidos que geralmente trabalhavam de leões de chácara nos inferninhos da Voluntários da Pátria.

 Os meses passaram, ficamos amigos e, às vezes, confusos com aquela nossa amizade. A fita que ela gravou me fez recuperar o interesse pela música (um interesse que sumira quando entrei na adolescência). Aquele cassete do Cocteau Twins foi o primeiro da coleção que conservo até hoje. E, apesar desses mais de vinte anos, ainda escuto o Treasure com saudade das coisas todas que eu poderia ter sido naquela noite, em que ela me ofereceu sua generosidade de forma incondicional (e tempo depois, por um par de dias derradeiros, seu amor e toda sua confusão). Um disco que renderia filmes, como diria Marçal. Um tempo de incontáveis inícios, de muitos erros e pouco acerto, de sonhos com uma beleza e uma simplicidade que eu ainda me esforçava para entender melhor, de pequenos desconfortos na alma, que me inquietavam sem trégua, mesmo quando fui deitar estranhamente feliz, às oito, logo depois que cruzei com meus pais na cozinha e eles me olharam sem a familiaridade habitual, naquela manhã de sexta-feira.


Paulo Scott mora em Porto Alegre, seu primeiro livro foi o Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros, publicado sob o pseudônimo de Elrodris - Editora Sulina, 2001 (o mesmo pseudônimo que utiliza para escrever no www.sanduichedeanzois.blogspot.com). Em 2004, foi um dos três finalistas do Prêmio Açorianos de literatura com o livro de contos Ainda orangotangos - Editora Livros do Mal, 2003. No mesmo ano, com o ilustrador Fábio Zimbres, criou o projeto "Na Tábua", misturando literatura e ilustrações (http://www.tonto.com.br/natabua/). Em 2005, publicou o romance Voláteis - Editora Objetiva, 2005. Co-roteirizou o filme O início do fim (Curta metragem de Gustavo Spolidoro, 2005) e passou a integrar o grupo de colunistas na revista literária eletrônica Cronópios (http://www.cronopios.com.br). Em 2006, publicou A timidez do monstro - Editora Objetiva, 2006, e Senhor escuridão - Editora Bertrand Brasil, 2006. Escreveu a peça Crucial dois um. Ainda em 2006, ocorreram as filmagens do longa metragem Ainda orangotangos, adaptação de 6 contos do livro homônimo. É colunista semanal do Portal Terra (http://terramagazine.terra.com.br).
scott@vsca.com.br