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A Arte de Caetano Veloso – Caetano Veloso (1990)

Trono Azul

Paulo de Toledo

Como sei que foram convidados para esta enquete vários poetas, escritores e mais um montão de gente inteligente, e que eles deverão citar vários discos com propostas estéticas inovadoras, pensei bem e vi que citar o Tudo Azul (que ganhei no meu aniversário de 14 anos e que foi o meu primeiro disco), do Lulu Santos, como o disco que mais me marcou ficaria (apesar de eu ter ouvido esse disco até quase furar o vinil) meio esquisito.

Então, pensei: Devo citar outro disco, mais inteligente, mais alternativo, mais... Já sei! Revolver, dos Beatles! Este disco é sensacional! Sempre gostei mais dele do que do Sargent Pepper’s, a despeito de também adorar este.

Não, também não dá pra dizer que foi esse o disco que mais me marcou, a despeito de “For no one” ser uma das minhas músicas preferidas.

Como poeta, sei que eu deveria citar um disco “cabeça”, desses que mudaram a música pop ou erudita pra sempre. Mas, infelizmente, não ouvi muitos desses discos superinovadores.

Então, eu poderia citar, pra ficar mais próximo de algo do tipo “cabeça”, outro disco que ganhei quando adolescente, o A Arte de Caetano Veloso, álbum duplo com uma coletânea de sucessos do cara. Nesse disco, ouvi, pela primeira vez, o Caetano cantar "Coração Materno". Acho que foi aí que eu "senti" que dava pra fazer grande arte usando o lixo do mundo pop.

Caetano, naquela música, era o nosso Andy Warhol, mas com um humor totalmente brasileiro, carnavalizado (mas essas minhas idéias são posteriores, já que naquele tempo eu nem devia conhecer o Warhol, quanto mais ter lido o Bakhtin).

Legal também foi ouvir “London, London”, depois que o Paulo Ricardo deu seu show de gemedeira na versão RPM.

Mas o mais cabuloso foi ouvir a faixa “Proibido Proibir”, aquela em que o Caetano xinga o júri e a platéia. Aquele discurso é ducaralho! “O júri é muito simpático, mas é incompetente”, gritou o cara num momento entre a raiva e a empáfia. “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos”, disse, dirigindo-se à platéia que o vaiava a plenos pulmões.

É, certamente fica mais cool eu citar o Caetano do que o Lulu, afinal aquele, junto com o João Gilberto são, hoje, os meus "cantautori" preferidos.

Mas, confesso, toda vez que ouço “Tão Bem" (Ela me encontrou / Eu tava por aí / Num estado emocional tão ruim / Me sentindo muito mal / etc.etc.), meus 14 anos me beliscam e aí... Pô, como diria o escorpião pro sapo, a gente não pode contrariar a nossa natureza.

Tudo Azul vai, sim, pro trono!


Paulo de Toledo nasceu em Santos. É poeta e escritor. Tem trabalhos publicados em revistas e sites como Cult, Zunái, Capitu, Pop Box, Tanto, PD-Literatura, Etcetera, além de ser colaborador da revista de poesia e tradução Babel. Mantém o blog Poesia e Outras Bobagens em www.paulodtoledo.blog.uol.br. Publicou recentemente o livro de poemas 51 Mendicantos (editora Éblis).