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Anos 90. Bombas de cigarro explodindo no banheiro do colégio. O pátio mal iluminado. Gosto ácido de Coca-cola. Cabelos compridos desgrenhados escondendo o rosto. Velho pulôver batido em dias de frio e calor, tanto faz. O walkman quebrado, duendes estourando meus tímpanos. O sorriso estranho das meninas que eu não tive. Números na lousa. Em vez de aritmética, desenhos no caderno (um cara em decomposição avançada segurando um cata-vento; um homem apodrecendo estende sua mão ao acaso; uma mulher enforcada com o próprio cinto; canção de ninar para Afogados). cease to resist, giving my goodbye / drive my car into the ocean / you'll think I'm dead, but I sail away / on a wave of mutilation / a wave / wave / I've kissed mermaids, rode the el nino / walked the sand with the crustaceans / could find my way to Mariana / on a wave of mutilation...
Depois de tantos anos, talvez o pátio continue o mesmo (com nossos fantasmas perambulando pelos cantos), mas alguma coisa ficou pra trás, velha, desbotada, insípida. Anotações no obituário particular. Limbo existencial. you crazy baby bathsheba, I wancha / you're suffocating you need a good shed /I'm tired of living, shebe, so gimme/ dead /we're apin' rapin’ tapin' catharsis / you get torn down and get erected / my blood is working but my, my heart is / dead...
Acho que fomos enganados, no entanto, alguma verdade sobrou disso tudo. Ainda que o invólucro contenha apenas um souvenir vagabundo (talvez nossas verdades sejam igualmente vagabundas, e no final das contas nem é tão importante assim). got me a movie /i want you to know / slicing up eyeballs / I want you to know / girlie so groovy / I want you to know / don't know about you / but I am un chien Andalusia / wanna grow / up to be / be a debaser, debaser...
Silêncio que perfura o peito e fode devagar, talvez um vampiro vagueando pelos cantos noturnos do edifício. O tempo é um serial killer (viagem sem volta num trem fantasma desgovernado). Na madrugada baldia regurgita no pátio vazio nossa fúria juvenil sepultada (morta dentro de espelhos refletindo alucinadas performances de guitarras imaginárias em movimentos espasmódicos). ...got bombed got frozen / got finally off to a finally dozing / I believe / in Mr. grieves / do you have another opinion / opinion / do you have another opinion /do you have another opinion / you can cry you can mope / but can you swing from a good rope / oh I believe /in Mr. Grieves /hope everything is alright...
Revolver como num círculo vicioso, como cocaína. Sempre volta, eterno retorno. O coração pulsando como uma bomba-relógio (pilotando um Ford envenenado em minhas veias). Como Lázaro. Hey / been trying to meet you / hey / must be a devil between us / or whores in my head /whores at my door / whores in my bed / but hey / where / have you / been / if you go i will surely die / we're chained
Toco o foda-se…outside we wait ‘til face turns blue / i know the nervous walking / i know the dirty beard hangs / out by de box car waiting / take me away to nowhere plains / there is a wait so long / you’ll never wait so long…
Doolittle não é um disco, é uma pílula de anfetamina.
...if man is 5, if man is 5, if man is 5 / then the devil is 6 then the devil is 6 then the devil is 6 / and if the devil is 6 / then god is 7 then god is 7, then god is 7...
Stop.
Sandro Saraiva
Paulistano, nascido em 1972. Escreve e desenha. Tem trabalhos publicados em zines, revistas alternativas e sites. Edita a Etcetera – revista eletrônica de arte e cultura, o e-zine [sub] e o blogue Cabaré Subterrâneo. Gosta dos filmes de David Lynch, das canções de Tom Waits e torce pro Santos F.C.
sandro@revistaetcetera.com.br
