
Não é tarefa fácil falar do disco que “mudou nossas vidas”. Primeiro, porque corremos o risco de cometer injustiças contra tanta coisa boa que já ouvimos. Segundo, porque nunca entendi a música como uma competição em que determinamos quem é o melhor e quem é o pior. Tanto é que na minha estante convivem harmoniosamente desde Billie Holiday, Dexter Gordon, John Coltrane, Dizzy Gillespie, Elis Regina, Cartola, Chico Buarque, Noel Rosa, Alceu Valença e Elomar, até Joni Mitchell, Bob Dylan, Leonard Cohen, passando ainda por Ramones, Jesus and Mary Chain, Velvet Underground, Chopin, Schubert, Bach e Wagner, entre tantos outros.
No entanto, ao ser convidado a escrever sobre “o disco que mudou minha vida” confesso que me senti tentado a escrever sobre um disco em especial. Trata-se de Time of No Reply, de Nick Drake, cantor inglês, praticamente desconhecido do público brasileiro.
A primeira vez que ouvi falar de Nick Drake foi no final dos anos 80, em um fanzine que não me lembro mais o nome, porém, me recordo que o pequeno artigo falava das letras tristes e melancólicas de Nick e de seu jeito recluso e depressivo. Falava que o cantor havia nascido na ilha de Burma e crescido na pequena Tawnworth-in-Arden, vilarejo próximo a Birmingham, na Inglaterra, e que lá havia morrido em 1974, com apenas 26 anos de idade, vítima de uma overdose de antidepressivos. O artigo destacava que Nick não gostava de fazer shows e que passava a maior parte do tempo sozinho. No fanzine também havia uma pequena foto em preto e branco de Nick caminhando, de costas, cabisbaixo, observado por um cão vira-latas. Em outra foto, Nick aparecia sorrindo, mas não era um sorriso de contentamento e sim um sorriso perturbador, típico de alguém que carrega uma tragédia por dentro. Meu interesse foi imediato.
Para minha decepção, achar um disco de Nick Drake no Brasil era tarefa quase impossível e a grana para comprar disco importado simplesmente inexistia, ainda mais para um desempregado.
Foi quando em 1995 (só em 95!!!), passando por uma loja de CDs na Rua dos Pinheiros, me deparei com Time of No Reply, coletânea de takes caseiros e canções não gravadas em álbuns oficiais do cantor.
Bom, aí os senhores podem perguntar: o que faz uma coletânea de takes caseiros e músicas jamais gravadas ser tão especial para alguém? Bom, a questão é que Time of No Reply está longe de ser mais uma daquelas coletâneas caça-níqueis. As canções ali contidas revelam toda a sensibilidade de Nick, além disso, muitas das canções que não aparecem nos três álbuns oficias do cantor são verdadeiros achados, sem contar que o encarte do CD tem um texto maravilhoso de Frank Kornelussen sobre Nick e suas canções. Resultado: comprei sem pestanejar e fui correndo para casa ouvir.
A primeira faixa é “Time of No Reply”, canção gravada em 1968 e que dá nome ao álbum. Confesso que só essa canção já valeria o preço salgado do CD. Apenas voz e violão e uma letra lindíssima: (“O tempo passa ano a ano/ e ninguém se pergunta “por que estou aqui” /Mas eu tenho minha resposta quando olho para o céu/ Este é o tempo sem resposta...”). A segunda faixa é “I was made to love magic”, que além da voz triste de Nick, tem a orquestra de Richard Hewson. Depois vem a bela “Joey”, seguida pelo lirismo de “Clothes of sand”, canção que ganhou uma ótima versão de Renato Russo em seu álbum solo Stonewall Celebration Concert. As faixas “Man in a shed” e “The thoughts of Mary Jane”, esta última com a participação de Richard Thompson do Fairport Convention na guitarra, aparecem também em Fives Leaves Left, de 1969, primeiro álbum de Nick Drake. Já a trágica “Fly”, canção que consta também em Bryter Layter, segundo álbum do cantor, é uma verdadeira prova de que o mundo era um lugar estranho demais para um deslocado, um inadaptado Nick Drake que em vida jamais conseguira o reconhecimento de seu trabalho: (“Por favor dei-me uma segunda graça/ Por favor dei-me uma segunda face.../Por favor diga-me seu segundo nome/ Por favor jogue seu segundo jogo..”). A faixa “Strange Meeting II” apresenta um tema recorrente na obra do cantor: a impossibilidade do amor: (“Por um momento caminhamos/ Com a brisa noturna em nossas faces/ Então quando olhei, ela tinha partido/ De sua presença não havia nenhum vestígio/ Para onde ela foi ou de onde veio, quem pode saber? / Ou se ela voltará para me ajudar a saber/ Quem é ela? Minha princesa da areia”). Não são raras as canções de Nick Drake em que o amor surge apenas como um sonho distante ou como algo inalcançável. O CD traz ainda “Mayfair” e “Been smoking too long”, esta última escrita por um amigo de Nick. As quatro últimas canções do CD são de 1974 e foram provavelmente as últimas gravações do cantor, cujo último álbum, Pink Moon, data de 1972. Destaque para a melancólica “Rider on the wheel” e para a depressiva “Black Eyed Dog”, a qual parece ter o suicídio como tema: (“Um cão de olhos negros, chamou à minha porta/ O cão de olhos negros, clamou por mais/ Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome/ ...Estou envelhecendo e quero ir para casa/ Estou envelhecendo e não quero saber...”). Tem ainda a triste “Hanging on a Star” e a melódica “Voice From the Mountain”, que fecha o disco.
Time of No Reply é especial para mim, pois serviu como uma introdução ao trabalho de Nick Drake. No mesmo dia que comprei o CD, descobri que ele fazia parte de uma caixa intitulada Fruit Tree que também continha os três álbuns lançados por Nick. Na semana seguinte, voltei à loja e gastei quase todo meu salário comprando os três discos de uma só vez. Ao chegar em casa, o sentimento de culpa já se fazia presente, mas foi embora rapidamente à medida em que eu escutava as belas canções. Recordo-me de ter passado a tarde inteira ouvindo os discos ininterruptamente, sobretudo, Pink Moon, o meu preferido e talvez o menos acessível e mais pessoal do cantor. Nele aparecem “Pink Moon”, “Place to Be” e “Parasite”, as melhores canções de Nick Drake em minha opinião.
É estranho constatar como o interesse pela música e pela vida de Nick tem crescido nos últimos anos. Em vida, não vendeu sequer 5.000 mil cópias de seus álbuns. Atualmente existem vários sites dedicados ao cantor e só agora seus discos são considerados “obras-primas” pela crítica especializada. Há também uma biografia escrita por Patrick Humphries. É o reconhecimento tardio a um cantor que merecia há muito estar no mesmo panteão de Bob Dylan e Joni Mitchell.
Há ainda os que acreditam que o mito criado em volta de Nick Drake se deve ao fato do cantor ter morrido prematuramente e em circunstâncias misteriosas. O que importa é que a música de Nick Drake fala por si só, e continua tocando fundo a alma dos inadaptados.
Sérgio Saraiva
É formado em Letras pela Universidade de São Paulo. Desenvolveu o projeto de IC “O espaço urbano das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo em contos de Lima Barreto e João Antônio” e atualmente estrutura um projeto de mestrado sobre a função da ironia na obra dos dois autores.
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