
Ao receber o convite para escrever sobre um disco que mudou minha vida, não pude deixar de pensar no verdadeiro acontecimento que foi para mim a audição do Viva, do Camisa de Vênus. Estávamos em 1986. Eu completava nove anos de idade, ocasião em que minha mãe me levou a uma loja de discos para escolher o presente que quisesse – consolo através do qual esperava redimir-se do sentimento de culpa que a consumia pelo fato de obrigar seu filho a consultar-se periodicamente com uma psicóloga, que à época o classificou como autista, juízo fundamentado nos indícios de sua completa falta de trato social e no imenso tédio que o levava a não falar com ninguém durante semanas a fio.
Pois bem, deixando de lado maiores detalhes sobre minhas disposições nervosas, concluo que preferia a companhia de livros à de pessoas (como ainda hoje acontece), e que, quando obrigado a emergir do meu silêncio, costumava quebrar objetos da casa, enquanto exasperado recitava de memória longos trechos de um livro que estivesse lendo no momento.
Então lá estava eu, usufruindo da futilidade que a culpa materna me permitia, dedilhando capas de LPs até encontrar um que chamasse minha atenção. E o que mais chamou minha atenção no Viva foi o fato de o disco conter uma música que levava o nome de uma vizinha pela qual eu estava apaixonado. Não tive dúvidas e o escolhi. Por razões óbvias minha mãe não gostou nada do nome da banda (e não apenas minha mãe, mas a primeira gravadora do Camisa de Vênus, que tentou sem sucesso convencer a banda a mudá-lo), mas acabou consentindo, afinal de contas, era meu aniversário, e havia um sentimento de culpa a ser expiado por ela... Gravado ao vivo no Caiçara Music Hall, em Santos, este indiscutível marco do rock nacional teve na época a venda proibida para menores de idade (visto todas as músicas estarem recheadas de palavrões de toda ordem), mas, como eu estava acompanhado por um “responsável”...
Sílvia, minha vizinha, já aos onze anos de idade demonstrava possuir todas as qualidades de uma grande mulher: displicência, gratuidade de sentimentos, fria inteligência, perversidade, além daquele ar blasê-pálido de quem não vai durar muito. Eu estava irremediavelmente apaixonado por ela, e foi movido pela paixão (essa espécie de histeria refinada) que, ao chegar em casa, coloquei o Viva para tocar, indo direto à terceira faixa do Lado B, não sem antes seguir a instrução do encarte, que receitava: “Este disco não foi remixado, você ouve o que aconteceu no show, e OUÇA ALTO”. Minha esperança era a de homenagear meu amor pré-adolescente com uma música que levasse seu nome, mas, como vocês devem saber, à primeira audição do refrão da música (Ô Sílvia, piranha) eu percebi que havia colocado tudo a perder...
O fato é que nunca soube se ela escutou ou não a música, pois dias depois se mudava do prédio onde nós morávamos, e eu nunca mais a vi. Sofri alguns poucos dias, não muitos, e à medida que esses dias passavam eu escutava cada vez mais e mais vezes o Viva, na tentativa de entender aquela (assim a julgava na época) fuga inesperada.
Não preciso dizer que me tornei um grande fã do Camisa de Vênus, em particular do disco Viva – fã de todas aquelas dez músicas politicamente incorretas, machistas, lascivas, de refrões pegajosos e heterossexuais, que ecoavam na voz das milhares de pessoas que assistiram àquele show; fã do sotaque de Jello Biafra soteropolitano do Marcelo Nova, quer dizer, nada do que eu havia escutado antes se parecia com aquilo: todo aquele cinismo das letras, todos aqueles riffs sujos de poeira de garagem, nada da veadagem inglesa e deprimida da Legião Urbana, do deboche adolescente do Ultraje a Rigor, do intelectualismo hermético dos Titãs, não: dez músicas diretas, ásperas, niilistas, sem encantos nem floreios, das quais destaco a insolente versão para “My Way” (música de Paul Anka, popularizada na voz do gnomo Frank Sinatra) e a canção “O Adventista” (paródia canalha de “I Believe”, dos Buzzcocks), que fecha o disco em apoteose, com os estertores finais do coro Bota pra fudê costurados ao mais belo refrão da música brasileira – Não vai haver amor nesse mundo nunca mais...
É isso.
Tadeu Sarmento é escritor, mas não quer mais tocar nesse assunto. Seus textos podem ser lidos no extinto www.quartinhodaempregada.blogspot.com . Publicou um livro de contos, Breves Fraturas Portáteis, em 2005 – hoje fora de catálogo e de questão – e é a favor da pena de morte e da castração de pedófilos e estupradores. Apesar de ter perdido a fé em Deus, na literatura, e na humanidade de uma maneira geral, deseja a todos uma ótima noite.
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