Do MAM ao emule: as transformações do acesso a filmes e o cinema contemporâneo

Cena de O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene

Há cerca de não mais de quinze anos, lembro que a única possibilidade de assistir a filmes de diretores fundamentais do cinema moderno, como Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, era esperar uma sessão fortuita na Cinemateca do MAM. Eu me despencava de Campo Grande, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, para, após hora e meia de viagem, chegar ao Centro da Cidade, onde fica a Cinemateca. Alguns anos depois, quando passei a estudar na Zona Sul, lembro-me da minha excitação ao ter em minhas mãos um VHS recém-lançado de Morangos Silvestres. Começavam a ser lançadas as obras fundamentais em vídeo, especialmente pela velha, mas providencial Continental, como O Gabinete do Dr. Caligari, A Última Gargalhada, A Grande Ilusão, e tantos outros. Depois do VHS, a grande novidade para o cinéfilo brasileiro veio com a programação do Telecine Classic, pelo saudoso Sérgio Leehman. Foi quando tivemos acesso a ciclos de cineastas fundamentais, como Samuel Fuller, Preston Sturges, Douglas Sirk, Satyajit Ray e diversos outros diretores com títulos ainda indisponíveis para o público brasileiro. Com o DVD, o lançamento de clássicos de cinema se multiplicou, e já é possível, tendo acesso a uma boa videolocadora, ver um filme de Ozu ou a obra completa de Tarkovsky, com uma qualidade de imagem e som bem satisfatórios. Ainda que não substitua a experiência de vê-los numa tela grande, o DVD permitiu ao cinéfilo ter uma sólida formação em audiovisual.

Samuel Fuller
Samuel Fuller
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Mas a grande revolução tecnológica para os cinéfilos ainda estava por vir. E ela veio através da internet, que já havia permitido o acesso a uma avassaladora quantidade de informações (como o “IMDB”, que fez dispensáveis todos aqueles velhos e antigos dicionários e guias de filmes...) e a formação de novos amigos através das listas de e-mail. Mas nada se compara ao que estava por vir: o emule. Pelo nome de “emule” faço referência a qualquer ferramenta peer-to-peer que tanto tem se popularizado por aí (isto é, os emules, torrents, kazaas e afins). O emule é o sonho de consumo de qualquer cinéfilo: com uma banda larga razoável (a minha, por exemplo, é de 1Mb), você tem acesso a todos os filmes do mundo (sic), você forma uma enorme cinemateca em casa. Lembro-me de quando eu ouvia com inveja o Bergman dizendo que todo santo dia, ele assistia a um filme no seu cinema particular na Ilha de Faro. Pois é, agora a Cinemateca está logo ali, ao alcance dos nossos dedos. Compre à prestação um LCD de 42´´ e um home theater, e divirta-se.