
O emule é um sistema de compartilhamento. É uma grande troca de arquivos: você disponibiliza os arquivos do seu computador para poder baixar arquivos de outros. É um sistema que possui um algoritmo trabalhado com um conceito de “justiça”: quanto mais arquivos você disponibiliza, maior será a sua velocidade de acesso aos arquivos dos outros. Se você não tem nenhum arquivo, não tem problema: você baixa assim mesmo, mas com uma velocidade beeem lenta. Os arquivos que você vai baixando, você já os disponibiliza para os outros usuários. Assim, com o tempo, você vai “somando pontos” que aumentam a sua velocidade.
Não há nada de ilegal nisso (embora haja controvérsias): ninguém pode impedir ninguém a emprestar um objeto para outra pessoa, desde que não se faça exploração comercial disso. É claro que as distribuidoras algum dia alcançarão algum jeito de impedir isso. Enquanto não acontece, os cinéfilos vão baixando os filmes no seu computador.

Alf Sjoberg
O ideal seria uma forma de os detentores dos direitos se beneficiarem com isso. Talvez um filme obscuro do Alf Sjoberg não tenha fôlego para ser lançado em DVD. Suponha que, no Brasil, apenas 100 pessoas teriam interesse de ver a fita. Não pagaria os custos de importação, prensagem da cópia, pagamento dos direitos e legendagem em português. Mas se estivesse disponível para download na internet com legendas em inglês a um custo acessível (uns US$ 4, por exemplo), digamos que 60 pessoas adquiririam o serviço, gerando US$ 240. Ao longo do tempo, o número de pessoas tende a aumentar. É uma receita irrisória, mas permite que um determinado produto atinja o seu público, ainda que este seja residual. É a teoria do “long tail” adaptada aos “nichos de mercado”. Com um catálogo de 500 filmes como esse, para 50 países, geraria uma receita pequena, mas seria uma forma de dar o retorno comercial possível a esse produto. De um lado, poderia haver “lojas virtuais” especializadas nesse tipo de produto. De outro, mesmo as grandes redes, poderiam ter os produtos de nicho como forma de reforçar o seu catálogo, a sua marca. Seria uma estratégia de marketing para que o público reconheça que aquela loja “tem tudo”. Ou seja, qualquer produto que você procure, é só pesquisar o catálogo daquela loja, e não de outra.
No fundo, o que está em jogo é a possibilidade de dar mais visibilidade a um produto que não tem uma característica de “consumo de massa”, devendo, portanto, ser comercializado em condições especiais, ou ainda, de fazer com que um produto consiga chegar ao seu público. O modelo de negócio das empresas para lucrar com isso está sendo debatido e discutido, e esbarra também, é claro, em restrições legais e pressões políticas. Mas no fundo quem se beneficia com essa liberdade de acessos hoje é o público, que tem acesso a uma quantidade de informações impensável há alguns anos.

Jean-Marie Straub
Os suportes físicos estão entrando em crise, porque o custo dos estoques é muito elevado. E isso não acontece só no mercado de filmes, é claro. Estão com os dias contados tanto as videolocadoras como as livrarias. Imagine uma livraria com uma rede de 100 lojas: no caso de um livro sem grande circulação, suponhamos que haja um livro em cada uma das filiais para atender ao cliente. Com uma “loja virtual”, que atende pela internet, bastam 20 exemplares. O custo de “prateleira” e de pessoal passa a ser extremamente reduzido, centralizando todo o processo.

Cena de Goodbye Dragon Inn de Tsai Ming-Liang
No caso dos filmes, as videolocadoras passam pelo mesmo processo de crise. De um lado, existem as “lojas virtuais”, em que o consumidor, por telefone ou pela internet, pede o filme para uma central que entrega na sua residência. De outro, o chamado near video-on-demand (NVOD), que é uma espécie de pay per view mais sofisticado. Do seu controle remoto, você pode ter acesso a um catálogo de filmes. Imagine que você possa escolher qualquer filme dos cinco canais do Telecine para assistir quando quiser. A TV por assinatura deve caminhar nessa direção: a da flexibilidade da programação. É o aprofundamento dos DVRs e dos Tivos, que começam a se difundir no Brasil (um exemplo é o Sky+). Estes são mecanismos que permitem gravar a programação num disco rígido, para que o usuário assista a sua programação na hora que quiser. Ou seja, cada vez mais a programação será personalizada, permitindo acesso a programas de “nichos de mercado”, fugindo da esmagadora presença dos produtos de consumo de massa.